O Monumento de Mafra

Templo de Salomão e novo Vaticano

O Monumento de Mafra apresenta-se simultaneamente como uma imensa antologia de artes plásticas e um enigma. Não obstante, quando ocorre definir a actuação de D. João V, raros são aqueles que não caem na tentação de dizer que tudo o que o soberano tinha em mente era uma insaciável sede de ostentação, ou que a exuberante sumptuária de que se fazia Mecenas apenas servia a esse fim. Explanação pobre que esvazia de sentido a retórica do poder sacralizado que a impregnava. Efectivamente, o espectáculo é, no período barroco, uma necessidade intrinsecamente associada ao exercício do poder.

Pessoas e instituições assumem o compromisso tácito, quase obrigatório, de o secundar nesse desiderato. Paralelamente, o estado segrega a mitologia do Imperium. Porém, uma vez adoptada a lição da Antiguidade Clássica e do seu tempo mítico, os monarcas absolutos herdeiros da romanidade, carecem do espaço mítico correspondente: a cidade capital, edificada à imagem e semelhança de Roma, cujo significado derradeiro, assumido como segredo de Estado e mistério religioso, só ao Rei é dado revelar. Despicienda a tradição que garante que Mafra está destinada a tornar-se Roma um dia?

Eis o que este percurso visa esclarecer.