Cabo Espichel: Ecos portugueses da Atlântida

O Atlantis nesos ou Atlântida de Platão, maior que a Líbia e a Ásia reunidas e localizado adiante das Colunas de Hércules, abrangeria talvez algumas ilhas atlânticas, a Hespéria e a Mauritânia. Habitavam-no um conjunto de povos com a mesma origem, afectados de forma duradoura por sucessivos desastres orogénicos seguidos de transgressões marinhas e alterações climáticas.

As comunidades mesolíticas, surgidas do apocalipse como uma aurora brusca, poderão ser justamente consideradas a solução de continuidade deles. As repercussões do evento terão de igual modo impressionado os egípcios que transmitiram o relato a Sólon, o qual o anotou traduzindo os nomes egípcios para a língua grega.

Os habitantes de MU, ou atlantes dos helenos, são nele creditados pelos sacerdotes de Sais como detentores de uma brilhante civilização, capaz de competir com outras talassocracias pela supremacia do Mediterrâneo.

Diversos locais do litoral atlântico peninsular poderão reivindicar para si tal herança. Porém em nenhum outro rincão da orla marítima ocidental a nostalgia dela atingiu a densidade rastreável no Espichel, cuja vizinhança, Tubal, neto de Noé, elegeu para fundar Setúbal, iniciando assim o povoamento de toda a Hispânia, segundo a opinião divulgada por Santo Isidoro de Sevilha, acolhida na Crónica do Mouro Razis, transmitida à tradição monástica portuguesa de quinhentos e de meados do século seguinte e exposta por eruditos de renome, como Manuel Faria e Sousa.