Vieira Lusitano
Vieira Lusitano
O Insígne Pintor e Leal Esposo
[...]
Quase cinc’horas cantavam
No relógio da Gamenha,
Torre do grão Canevari,
Que lhe ficava fronteira:
Jóia que o fatal destroço
Fez, que deposta por terra
Fosse por causa da antiga
Base em que só padecera.
Que bem que outra vez não surja
Por invido algum sistema,
Nem já por isso do insigne
Romano a memória esqueça.
Do qual sublime talento
Deixastes Mafra de erecta
Ser: defraudou-te essa dita
Não sei qual Fada perversa.
E do grão Pipo Juvara,
Que já foi nosso, puderas
Também ter sido constructa
Para nos ter Roma inveja.
Que a tanto Rei a tal obra
Cada qual deles bem era
Digno de servir; foi mágoa
Baldar-se a forte, e perdê-la.
Porém não obstante, narram
Com preciosas durezas
Do Rei magnânimo a glória
Tantas pedras sobre pedras.
Assim lá nessas do Egipto
Pirâmides estupendas,
Não faz a elegância faltas
Ao resplandor da grandeza.
Naquele edifício eterno,
Vasto Olimpo de riquezas,
Do Magno Herói veneramos
A sacra munificência:
Que viva a sua memória
Desejamos, e que tenha
De celestiais diamantes
Fulgentíssimos diademas.
E seu sucessor Augusto
Fidelíssimo, que seja
Feliz sempre, e nos levante
Uma Metrópole eterna.
E que do Ítaco o nome
Na prostrada se obscureça,
E na de novo erigida
Outro mais claro se leia.
Se com profano apelido
Uma infeliz jaz desfeita,
Outra para ser ditosa
Em seu santo nome se erga.
De um Divo Conditor Urbis
A nova Cidade eleja
O sacro título insigne,
E se sepulte o da velha.
[...]
O Insigne Pintor e Leal Esposo [...], Historia Verdadeira, que elle escreve em Cantos Lyricos, e offerece ao Illust. e Excellent. Senhor Jozé da Cunha Gran Ataide e Mello, Conde, e Senhor de Povolide, do Conselho de Sua Magestade Fidelissima, Gentil-homem da sua Real Camara, Commendador da Ordem de Christo, Alcaide mór da Villa de sernanselhe, etc. Lisboa, Na Officina Patriarcal de Francisco Luiz Ameno, 1780, p. 578-581