Terramoto de 1755 em Mafra
O Terramoto de 1 de Novembro de 1755 em Mafra,
de acordo com três notícias da Gazeta de Lisboa
e o poema Catálisis, do Padre Alberto da Fonseca Rebelo
Mafra, 15 de Fevereiro de 1756
No primeiro de Novembro de 1755 pelas nove horas e 40 minutos estando toda a atmosfera muito clara e serena se sentiram sucessivamente neste Real Convento três formidáveis abalos de terra, durando cada um seis minutos, todos com igual violência e agitação e com um estrondo ainda maior do que, o que fazem muitas carruagens, quando impetuosamente correm por calçadas. Viu-se tremer este magnífico edifício, ora abater-se e elevar-se, ora inclinar-se de uma para outra parte, como embarcação nas ondas, com pavor, e assombro, de quem a via. Porém, ficou este admirável todo sem notável ruína, e sem ofender pessoa alguma estando todo cheio de gente. Estalaram muitas arestas de preciosos mármores, e no zimbório se despegou um fogacho, ficando suspenso na ponta do ferro, que lhe servia de base; e quando os Oficiais, passados alguns dias, o seguraram no seu lugar, disseram que só por milagre podia tão grande peso estar inclinado sem cair. Da torre da parte do Sul caíu sobre o Palácio uma pirâmide, e rompeu somente a primeira abóbada; no corpo alto da parte do Palácio, que fica ao Norte e no jardim principal caíram duas, mas sem prejuízo; todas as paredes mestras ficaram ao nível sem abertura alguma, mas algumas das interiores mostram na superfície algum sentimento. Nos Palácios racharam algumas ombreiras e travessas das portas, e se abateu uma das abóbadas nas enfermarias. Na praça contígua ao Convento se viu uma cesura na terra abatida e desfeita, por onde se entendeu que respiraram os mistos deste espantoso fenómeno: a cesura tinha um pé de largura. Ficou muito danificada a Igreja Paroquial de Santo André, e o Palácio do Visconde de Ponte de Lima, e algumas das casas da povoação postas por terra. O mesmo se vê nas mais Igrejas, e lugares circunvizinhos.
No mesmo dia jejuou toda a Comunidade a pão, e água, e esta se aumentava com as lágrimas, que todos choravam sentados em terra. Logo se expôs o Santíssimo Sacramento, ocupando-se uns Padres [sic] a cantar o Terço e Ladainhas e outros em confessar a inumerável gente, que concorria, que de tarde se formou uma devotíssima Procissão de Preces com as Imagens de Cristo Crucificado e do Seráfico Padre São Francisco e ultimamente o Prelado com o Santo Lenho. Todos os Religiosos e muitos seculares foram descalços uns com cordas, outros com pedras ao pescoço recitando em tom lúgubre o Salmo Miserere mei Deus. Ao recolher da Procissão houve Sermão, que pregou extemporaneamente o P. M. Fr. António de Santa Ana, Ex Definidor, discorrendo com grande espírito e naturalidade sobre o texto do Capítulo X do primeiro livro de Esdras: Sedit omnis populis in platea domus Dei trementis pro peccato [...] et surrexit Esdras sacerdos, dixit ad eos; vos transgressi estis [...] et nunc
confessionem Domine Deo Patrum vestrorum, et facit placitum ejus. Finalizado o Sermão já de noite se retirou a Comunidade para os Dormitórios, onde tomou três disciplinas muito rigorosas e dilatadas. No Domingo, e por toda a semana seguinte se continuaram as procissões e preces com as mesmas penitências e permitiu Deus, que os abalos de terra, que depois sentimos, todos foram leves e instantâneos.
[Gazeta de Lisboa, n. 11, 18 de Março de 1756]
Mafra, 23 de Outubro de 1756
Achou-se esta Vila até 15 de corrente cheia de Perinos [i. e., Peregrinos], que para ganharem o grande Jubileu concorreram a visitar a sagrada, e real Basílica de canto António. Foi tão numerosa a sua multidão, que os Confessores foram muitos dias precisados a administrar até à noite o Sacramento da penitência. Muitas pessoas para maior merecimento tiveram a mortificação de virem descalços.
A 18 pelas 10 horas da manhã chegaram Suas Majestades fidelíssimas, e Suas Altezas ao seu real Palácio desta Vila. Logo na mesma tarde foram à Tapada, onde mataram 11 rezes. No segundo dia 17 [sic] e no terceiro, em que se recolheram para Belém mataram de caminho sete. A sua ausência infundiu neste Povo uma profunda saudade. O Rei nosso Senhor mandou distribuir grossas esmolas por muitas pessoas pobres.
[Gazeta de Lisboa, n. 43, 28 de Outubro de 1756]
Mafra, 14 de Novembro de 1976
No Domingo último dia do mês de Outubro fizeram os Religiosos do Real Convento desta Vila, uma exemplaríssima procissão de penitência, que discorreu pelas principais ruas dela, implorando a Divina misericórdia para preservar dos terremotos a este Reino. Iam todos descalços, uns com grossas pedras nos ombros, outros com cordas ao pescoço, e nesta mesma forma, e descalço o Excelentíssimo Bispo de Macau. Acompanharam esta procissão os Irmãos Terceiros de S. Francisco com um andor que representava a impressão das Chagas. Os Confrades do Rosário da Virgem Santíssima Nossa Senhora com a sua Imagem e uma inumerável multidão de Povo. Recolhendo-se à sua Igreja pregou um dos Religiosos, tomando por tema do seu Sermão as palavras do capítulo III dos Trenos de Jeremias: Misericórdia Domini, quia non sumus consumpti, quia non defecerunt miserationes ejus; e ponderando com grande espírito e naturalidade todas as causas, que podiam concorrer para um castigo tão rigoroso. As
suas expressões causaram uma grande compunção em todos os ouvintes. De noite tomou toda a Comunidade uma áspera disciplina por espaço de meia hora.
No dia seguinte em que se celebrou a festa de todos os Santos, esteve o Santíssimo exposto no seu trono, desde a hora de Prima até a Noa, em que o mesmo Senhor foi levado em procissão pelos Claustros entoando-se primeiro com a suave harmonia de três órgãos e os alegres repiques de todos os sinos, o Te Deum Laudamus em acção de graças, pelo especial favor que fez a Divina Clemência de conservar sem ruína o mesmo Real Claustro.
[Gazeta de Lisboa, n. 46, 18 de Novembro de 1756]
Padre Alberto da Fonseca Rebelo
Catálisis
Ou Assolação da Cidade de Lisboa
Pelo Terramoto do Primeiro de Novembra de 1755
Com a Preservação do Real Convento Junto à Vila de Mafra
Desta obra, composta pelo Padre Alberto da Fonseca Rebelo, natural de Lisboa e graduado na Faculdade dos Sagrados Cânones pela Universidade de Coimbra, apenas é conhecida a cópia manuscrita integrada na Biblioteca Volante do arrábido frei Matias da Conceição [PNMafra: BibVolante 2-9-6-13 (17º)] é composta por cinco cantos divididos em estrofes de oitava rima e versos decassílabos.
Ernesto Soares deu dela notícia em O Concelho de Mafra (4 Jun. 1933).
O poema devia terminar com um epigrama do mesmo autor, para o qual o copista destinou seis fólios que permanecem em branco, certamente por nunca se ter concretizado a cópia. A peça n. 18 desta miscelânea, do mesmo autor da Catálisis (?) e intitulada Eco do Terremoto na destruição e incêndio da Cidade de Lisboa no 1º de Novembro de 1755, terminaria com o mesmo epigrama, igualmente em falta.
[...]
Canto IV
Na preservação do Real Convento de Mafra
1
Pára já pobre Musa fatigada
A teu Leitor não dês maior tristeza
Se necessita de ser aliviada
Busca-lhe algum alívio, e com presteza
de Deus a Providência compensada
com o favor faz a pena por grandeza
do seu justo governo, e no castigo
tão bem mostra ser Pai e ser Amigo.
2
Tem o motivo da dor sido penoso
Na história que contaste lastimosa
vê que outro motivo tens para o gozo,
em uma preservação tão milagrosa,
O fatal terramoto portentoso,
que arruinou a cidade mais famosa
deixou depois de ser tudo assolado
em Mafra o Real Convento preservado.
3
O Convento quem ignora ser factura
mui nobre de grandeza mui notável
com um Templo de tão bela arquitectura,
A satisfação de um voto mais louvável
do Monarca que morto sempre dura
nos corações dos povos mais amável,
a Memória, o Amor, a Saudade,
pelo zelo, Religião e Piedade.
4
A empenhos da devoção quis levantar
ao supremo Rei dos Reis no mundo
muito digna habitação para lhe dar
louvores com o respeito mais profundo.
No Templo que levantou quis imitar
ao Rei Salomão sendo o segundo
na grandeza no primor e no asseio
maravilha lhe chamo, e sem receio.
5
Adónia se preparou com perfeição
E com tal engenho, e arte que pudesse
grande alívio motiva, e admiração
a qualquer, que no templo entrar quisesse
o gosto sempre ali terá e a devoção
matéria muito grata, sem que houvesse
até que quem tal louve com ternura
esta obra de notável formosura.
6
Das pedras o diverso colorido
dos olhos é objecto mais mimoso
sendo rija matéria, e bem polido
O Louvor que há nelas o faz custoso.
O empenho dos Mestres era subido,
Ao empenho do Monarca obsequioso
que os Régios Tesouros fez patentes
pasmo do mundo, admiração das Gentes.
7
Na Basílica Régia estamos vendo
altas colunas, pórticos famosos
tribunas e estátuas todas sendo
de grande corpulência, em que os pasmosos
Artífices a bela arte exercendo
mostraram que os seus cortes primorosos
vencer podem a matéria ainda que dura
e contá-la com mui nobre formosura.
8
O zimbório foi milagre de engenho
de altura pasmosa e de lindeza
tão agradável à vista com o empenho
o principal do gosto e da grandeza
em termos adequados, já não tenho
para dizer a perfeição e a firmeza
desta obra tão Real tão peregrina,
não parece que de humana, mas divina!
9
Quando por fora a vez admirado
ficarás, vendo assim tão levantada
a fachada soberba e sublimado.
O pórtico de uma obra delicada
duas torres o fazem respeitado
da melhor arquitectura e apurada
cento e quatorze sinos nela tocam
o gosto as belas vozes nos provocam.
10
Dois palácios de igual magnificência
um da parte sul, outro do norte
ambos dos Reis para sua residência
o templo compreendem, e desta sorte
mostram com mui boa providência
que ao decoro lhe servem e ao forte
fazendo o Frontispício respeitado
mais seguro, formoso, e dilatado.
11
Aos padres da Arrábida penitente
Dignos filhos do Serafim chagado
quanto o Rei os amava fez patente
no Convento por eles habitado.
Com real devoção com zelo ardente
foi a Maria Santíssima dedicado
e ao Santo Português António digo
deixando-lhe a conservação e o abrigo.
12
Outro Rei temos mais José primeiro
Fidelíssimo Augusto e Poderoso
do Augusto Pai Retrato verdadeiro
Pacífico, Liberal e Piedoso
Agora ocupa o Trono como cordeiro
das virtudes do pai, pois cuidadoso
não falta à devota comunidade
na contínua protecção e piedade.
13
Dela muito dignos são, são a credores
Pela suma perfeição teor de vida
Os padres do Convento habitadores
da mais pura observância bem sabida.
A Deus continuam os seus louvores
nas sagradas funções nas quais convida
A todos do seu canto o primor grato
das cerimónias o modo tão exacto.
14
Até no número é grande e notável
Desta casa a Família Franciscana
de trezentos é o numero incontrastável
A soberba infernal cruel e insana
na humildade e concórdia muito amável
na caridade entre eles soberana
Assim se fazem com a maior propriedade
retratos da virtude e santidade.
15
Das Letras, que direi e da Ciência
destes religiosos tão perfeitos
Um colégio do Rei e Providência
fundou para criar sábios sujeitos
o intento logrou com evidência
que assim discorrem todos nos conceitos
que formam e confessam igualmente
ser melhor a virtude que é ciente.
16
Nesta de Minerva residência
[?]ou sábia Academia se exercita
o engenho no estudo da ciência
nem de auxílio estranho necessita
das artes literárias a excelência
irem os sábios da corte muito incita
arguir nas conclusões em cada ano.
Sendo o acto vistoso e soberano.
17
Foi preciso falar a pobre Alma
como pode com estilo limitado
de um Convento Real, pois não recusa
de o expor das ruínas preservado.
Semelhante noticia não se escusa
por fazer o sentimento aliviado,
que a todos penetrou no lamentável
estrago de Lisboa o mais notável!
18
A tempo, que os padres celebravam
a Missa principal, no mesmo dia
igualmente com o povo se assustavam
do trovão que em toda a parte se ouvia
quando as pedras do Templo se abalavam,
então julgaram todos que caía.
O abalo foi mui grande e foi de sorte
que logo indubitável fez a morte!
19
Como notável é a corpulência
Da[s] máquina[s] que compõem o Templo Augusto
nele então era maior a violência
que se sentia deste motu tão robusto.
A todos assim mostra a experiência
ser o combate maior, máximo o susto,
em contrários mais fortes e alentados
nas Lutas, nos Combates porfiados.
20
Crescia cada vez mais o perigo
nas abóbadas o eco retumbava
pelo horroroso estrondo que consigo
trazia o terremoto que assombrava
fugia o povo buscando algum abrigo.
Aos ministros do altar afugentava
este espantoso abalo repentino
este caso, que dispôs alto destino
Canto V
1
À maneira de nau, que na tormenta
muitas vezes se abate e sobe ao alto
para um lado se inclina e experimenta
para o outro, do vento novo assalto.
Os mastros faz ranger, a tudo intenta
submergir entre as águas, assim falto
de valor o piloto larga o leme.
A Deus misericórdia então só pede.
2
Assim se via a Igreja flutuando
já de um, já de outro lado combatida
o mui alto zimbório já vergando
e a máquina das torres perseguida
Já o Real Convento suportando
do terremoto a fúria tão temida
supondo que o mundo se acabava
com fervor cada um a Deus clamava.
3
Neste rigoroso aperto tão evidente
assustados os bons religiosos
recorrem ao Celeste Pai, Pai clemente
e aos Santos em Deus só milagrosos.
Em devota Procissão e penitente
súplicas repetem, rogos piedosos
acompanhando o povo assaz medroso
e suplicando o auxílio poderoso.
4
Mas da força maior, mais poderosa
que a oração, que a Deus obriga e rende
pois, nem empresa qualquer dificultosa
deixa de conseguir como pretende.
Já o sol fez parar, cousa pasmosa!
Orando Josué como é evidente
se a penitência à oração faz companhia
logo a tristeza se volta em alegria.
5
No monte ao Senhor, Moisés orava
e do Senhor alcançava o que queria
com os braços levantados debelava
orando, ao forte inimigo, que cedia.
Porém, quando cansado os baixava
aquele logo então prevalecia.
Orando assim Moisés a penitência
e a oração nos mostra sem violência.
6
De modo semelhante então usaram
os bons religiosos, e a mais gente
nem o Convento, nem o Templo perigaram
compadecido o Senhor Omnipotente.
A Palavra Divina a ele pregaram
o povo se mostrou mui penitente
tudo eram Conversões, tudo clamores
tudo enfim penitências, e rigores.
7
Dizei árvores, as que então aí faziam
nessa Cerca os varões tão penitentes
os golpes em seus corpos repetiam
contra si se mostravam inclementes
Com jejuns suas carnes consumiam
Eram as rogativas permanentes
mas vós arbustos mudos insensíveis
Se as pudesseis dizer, seriam incríveis.
8
Patente fez logo o Céu a piedade
de armas, assim tão fortes já rendido,
por mais que do abalo a crueldade
queria o Real Convento destruído.
Combatia o motu, mas debalde
por ser o Sagrado Templo protegido
da Rainha do Céu a Protectora
e de António tão aceito da Senhora.
9
Outro motivo temos bem fundado,
vendo livre assim por alto destino,
um convento, e um Templo consagrado
somente a Deus, e a seu culto divino.
De que Deus a sim o teve conservado
para prémio do zelo, e amor fino
do Rei, que no seu culto mais cuidava
e a todos os mais Reis exemplo dava.
10
Deus no louvor perene que tributa
ao seu Nome e Família tão devota
cumprindo atenção do Rei a executa
de outro alheio cuidado bem remoto.
Além do prémio que no céu deputa
para estes seus servos, já denota
que quis ser este Templo preservado
para sempre por eles ser louvado.
11
Porque nem só agora Deus livrara
de tão grande perigo ao convento
outro também horroroso o assaltara
do qual edifício nenhum está isento.
No ano de trinta e cinco se armava
uma fúria de raios, ou um portento
sobre o grande edifício, e parecia
que de todo se arrasava e se perdia.
12
Em Junho no dia oitavo, em que o Mistério
do Corpo do Senhor se celebrava
dos padres com mui nobre ministério
em procissão, pelo Templo já entrava.
Às seis da tarde se notou o mistério
cheio de espessas nuvens, que assombrava
os ares muito grossos, e inflamados
horrendos os trovões continuados.
13
Não só uma não, mas outra tempestade
pelo norte e pelo sul se combatia
nenhuma foi maior na nossa idade
O Céu chamas de fogo despedia.
Todo o povo da vila à piedade
de Deus sacramentado recorria,
as suas casas deixando, se acolhiam
ao Templo, entendendo, que morriam.
14
Os raios eram tantos, caso estranho!
Que chovendo uns com outros pelejavam
o incêndio despedido era tamanho
que ser assim do mundo, assim julgavam
todos já, como tímido rebanho,
da morte o seu duro golpe aguardavam.
As gerais confissões ali faziam
do coração a o Senhor se convertiam.
15
Terminou-se com efeito a tempestade
que seis horas durou, sem que pudesse
a Régia obra ofender por ser vontade
do Altíssimo, que assim prevalecesse.
Resistiu do tremor a crueldade
Venceria, se ainda se atrevesse
contrário qualquer, sorte que seja
porque o Auxílio celeste mais se veja.
16
Louvado seja Deus eternamente
pela consolação já concedida
ao Rei, que hoje reina tão clemente
e aos Padres do Convento a medida
do pesar, e da dor tão veemente
que tiveram na cidade destruída
por lhes deixar, por alta Providência
isenta a obra da geral violência.
17
Aqui forçoso é justo motivo,
para que a Musa os parabéns repita
ao Piíssimo Rei pelo incentivo,
do gosto, que mui grande se acredita
viva pois largos anos em plausivo
e em feliz Império, a cuja dita
Aspiram dos vassalos as vontades
os mais Leais em todas as idades.
18
Aos do Real Convento habitadores
Religiosos de exemplar piedade
parabéns dê a Musa e dê louvores
do gozo, que tiveram, e com verdade
de maiores encómios são credores,
pois na grande aflição da nossa idade
ao povo consolavam e acudiam
às almas, e aos corpos, tão bem como podiam.
19
Vive pois a feliz Comunidade
continua nossa vida inocente
executa tua muita piedade
cumpre com a profissão tão penitente.
Imita de Francisco a Santidade
e o Seráfico amor mais excelente
de ti se agrada o Senhor, a quem servindo
no céu te fica o prémio prevenindo.
20
Põe já termo ó Musa envergonhada
da pobreza desse teu fraco talento
mas parece seres só desculpada
conhecido, qual foi, de ti o intento.
Bem sentido, com dor, e magoada
da destruída Lisboa em um momento
quiseste te ajudar da Poesia
buscando em tanta mágoa companhia.
In laudem Regalis Templi Mafrensis Ejusdem Authoris Epigrama
Regisico Mafra quid Templo pulchrius extat?
Si melius quaris protinus astrapete