Ruben A. - O Mundo à minha procura


O Mundo à minha procura: autobiografia

(v. 2, Lisboa, 1966, p. 131-138)

 

Quando cheguei a Mafra, máfrica, a luz era diferente, o bucólico agreste, os corredores de meter medo, e o militarismo sem espinhas; ali tinha eu que descobrir a pólvora. Mas uma coisa sempre acordou comigo - e essa a da imponência, alheia ao meu gosto, mas de uma estatura que me recordava da parte que me pertencia em D. João V. Eu sentia-me rato cinzento que entrava por aquelas intermináveis luras, passagens subterrâneas, pátios donde uma lua parece papel de crédito do Estado, escadarias, mais escadarias, nomes dos corredores com distintivos de batalhas passadas. La Lys, La Couture, e tantos outros de ler e reler mais vezes até os pés ficarem cansados. O sol não tinha sombras , as árvores cresciam só na tapada, e para a tapada nós não íamos, reserva de caça onde os veados nunca apareciam. Logo a seguir ao rancho, a companhia saía do quartel-convento e marcha, um, dois, um, dois, esquerdo, direito, para pouco tempo depois irmos à vontade, de conversa alarachada, lambendo a coronha e passando a metralhadora ao parceiro do lado. As solas chiavam, o hábito estilizava-se, e eu aos soluços ia descalçando aquele par de botas que o destino me obrigara a calçar. Como trazia uma camada de infelicidade muito grande, não podia ser mais infeliz, de forma que desenferrujava as pernas pensando no gasogénio do Manuel Vinhas que no sábado de manhã nos levaria à praia. A providência colocara a meu lado um naipe de amigos que na água justificavam um desejo profundo de evasão.

Dormíamos todos lá nos altos, na ala norte do mosteiro, numa camarata que armazena oitenta e que tinha um bidão de água para lavarmos os olhos pela manhã. Mas o espectáculo era à noite depois do toque a recolher. Ali, sim, eu aguentava como um catita. Chamavam-me o Fraldiqueiro, pois eu o único que em oitenta futuros oficiais usava camisa de noite! Ainda não adoptara o pijama, estava no século XVIII, com D. João V. Renitente, preferia o ar sadio que a camisa de noite insuflava no meu corpo. Parecia um fantasma no meio daquela malta sincera, irreverente, amiga. Cada assobiadela logo ao lusco-fusco, "Eia seu Fraldiqueiro", e eu voava de cama para cama, todo de branco, como o velho de capuchinho nas fitas do cinema alemão. Só me faltava o gorro vermelho e a vassoura para planar naquela caserna. Eu aguentava firme, não largava a casca. Durante meses fui assobiado, "Eia Fraldiqueiro" era a alegria daquela massa anónima que de pijamas bocejava de um para o outro sem qualquer graça. Eu parecia um balão. Os meus saltos, em pé, tropeçando na cama do Zé Maria, com o baú debaixo da enxerga, sustinham como um pimpão as assobiadelas monumentais que a chusma me atirava. Pelo menos não havia, na minha vida de tropa, quem me desconhecesse. "Eh, pá!, prega-lhes a partida e vai para a forma de camisa de noite!". "Não digas muitas vezes que um dia sou capaz!", respondia. Fraldiqueiro-Fraldiqueiro-FRAL-DI-QUEI-RO e eu aguentava firme. Ali era a escola da vida, os músculos ficavam mais fortes, os nervos tesos, a cabeça no lugar.

Nunca tive tanto sono como em Mafra. As aulas seguidas de teoria, tudo teoria, tudo para decorar, não havia qualquer relação entre a teoria e a prática, como não havia na vida pública entre os discursos e o dia a dia de qualquer ser humano, fosse camponês, professor primário, moço de fretes, artista sem reforma ou ministro de Estado. Nós, portugueses, somos honestos no papel que representamos, mas somos inúteis naquilo que fazemos. Aos poucos o fantasma de branco que ao escurecer mostrava as fraldas deixava de pairar na imaginação dos meus companheiros. Aceitaram a minha camisa de noite. E daí até à debandada nunca mais impediram o meu sono. Tipos porreiros, sobretudo a amizade que por circunstâncias geográficas vim fazer com o Zé Maria, que poucos meses antes eu lançara como vedeta no baile de despedida do F. R. Jones, oferecido com todas as honras de marechal ao saudoso Willy Black dos quinhentos paus. E, realmente, se pensar bem a minha camisa de noite estava

de acordo com a época e ambiente de Mafra, eu era ali o único e digno reencarnado do espírito barroco português. Mostrava as pregas da minha talha. Inconscientes, os amigos todos no fim de contas perceberam o que representava o meu fantasma noctívago. Levantar-me de noite, pé ante pé, para ir à privada, olhar para mim, mirar aquela turma toda a ressonar, se algum abrisse o olho, estremunhado com certeza que gritaria perante a visão de um fantasma vestido de genuíno fantasma - o espectáculo apaixonava-me. Os dias voltavam, o gasogénio na rampa de Cheleiros ia-se abaixo, saíamos para aliviar o peso, e na ambição desmedida de liberdade que a tropa nos ensina - o mar recebia os nossos mergulhos com uma avidez de quem se esquecera que há oito dias estava virgem. Abria os olhos debaixo de água , deixava-me à tona, ir à rola, boiava horas e horas com o sol escancarado sobre o meu verdadeiro corpo. O vento abrandava às vezes, outras, no barco do Pedro Mendonça lá ia até aos pilotos ver a linha de um horizonte carregado de imaginação. Recuava às naus dos séculos passados e enquanto o 12 pés recebia bem a nortada, eu saltava para dentro de água numa ânsia de me deixar cair molengão num dos elementos da natureza que mais gostava de mim.

Ao correr dos meses tinha criado dentro de mim silos para armazenar a tristeza e a infelicidade. Um não-eu em carne e osso pegava na espingarda, marchava, dava vozes ouvindo um eco histórico que se estendia pela Idade Média, pelas Gálias, pelos Hititas, dobrava de intensidade ao recordar os vencedores das horrendas batalhas trazidas nas falas de heróis em trânsito. Época da vida em que se é amanuense de si próprio, carrega-se um fardo que se despeja ao fim de quatro, oito, doze quilómetros, em que se anda completamente alheio às camadas de infeliz que estão nos pés esperando ocasião para se fugirem a quatro passos. Congelava sentimentos. O romântico que eu fora em Penafiel evoluíra para um ser neutro, amachucado, magricela, parte da minha natureza que eu raro compreendia. Falava-se em ersatz, e eu apresentava ao mundo um ersatz da minha personalidade. Por baixo do bivaque as ideias mantinham-se em alerta, qualquer exteriorização podia ser fatal; se deixasse escapar algum pensamento ou visse fêmea que me entusiasmasse, lá se ia minha viola que vais para Angola. Apenas estava consciente de que pedaços de mim significavam infantaria. Dias exclusivamente iguais, sem meditação, dias que no horizonte lembram o mórbido guerreiro do homem, horas que não são horas, apenas tempos para a gente se ver livre de mais uma hora. Quando vieram os ensaios diante do pelotão, sim, eu enfrentei aquela meia centena de mancebos com a consciência de que comandava um exército. Essa a felicidade à flor da pele que se arreiga, de quem encontra o eldorado nas ordens que impinge a uma matulagem apenas reunida pelo toque do clarim. Apodera-se do espírito, da pessoa, da carcaça, uma súbita grandiosidade, ganha à força, uma paixão louca de comando. Vai-se a humildade por água abaixo, perde-se o controle de um eu simplório e manda-se, ali, com energia, num poder soberano, marcial, cheio de movimento. A primeira vez que mandei o pelotão fazer cortesias, evoluir na parada leste do Convento de Mafra, eu senti que os homens também se namoravam uns dos outros. Que os homens gostam de ser comandados por outros homens, que há qualquer coisa que os atrai irresistivelmente. E não percebia então que, de facto, a anomalia do homossexualismo é uma anomalia aceitável, existente, humana. Há homens que se deslumbram com o mando sobre outros homens, que se excitam ao saber que outros lhes obedecem cegamente, que no fundo há uma cegueira de um sexo milenário que se apodera do amor pelo outro homem que os comanda. Os fracos são vencidos pela história de séculos os fracos foram sendo absorvidos no espírito viril dos mais fortes, mas uma vontade primitiva, sensual, de comer, vontade masturbante que nunca pode menosprezar esses fracos. Um sadismo perante os que

não podem, um genuíno amor ao contrário, de pernas para o ar, mas um verdadeiro comer de homens que leva às batalhas e às guerras. Uma pessoa deslumbra-se. Eu deslumbrava-me. Caramba, ali diante de mim aquele grupo de indivíduos, olhando para mim como quem contempla uma parteira a fazer dar à luz, fascinados pela voz que eu podia dar, sem saberem se eu mandava para a esquerda ou para a direita, se ordenava em frente, para os lados, ou à retaguarda - aqueles homens deslumbravam-se, gostavam de mim, naquele instante eram atraídos pelo fascínio do momento em que os meus olhos e a minha voz, a minha presença, exerciam sobre eles. Um mando com amor, ódio, qualquer forma de expressão, mas um mando de homem para homem, tragicamente de carne a carne. A natureza andrógina surgia logo, uns menos aptos, de gestos escassos, representavam mal o papel, não que fossem femininos na aparência, sim numa ancestralidade de que ninguém se apercebia na altura precisa. A ordem era respondida por um silêncio de confessionário. Mas não bastava só assistir ao xadrez de evoluções que se fazia na parada do quartel, sim comandar aqueles homens para fora, para o campo, através da vila. Por um instante, na forma de horizonte que cada um transporta, surgia em nós, cá dentro, o general, o verdadeiro chefe, e daqueles seres nós erguíamos exércitos. O comando tem só os limites das divisas e dos galões; na ambição é tudo ilimitado. Pensar por segundos que ordenando eu podia sair dali para mais longe, arrastar mais companhias, mais formações, tomar cidades, saquear aldeias, levar de vencida, apoderar-me de tudo que eu quisesse, era motivo de uma auto-suficiência que dominava de boca aberta aquela imensa paisagem escancarada entre o mar, a serra e as peladas de um terreno sem mistificação. O meu contacto com a natureza amolecia os desejos de vencer, sobretudo vencer a chusma que acidentalmente eu comandava. Momentos em que não se discute, nem connosco próprios, vivências de um amor sobrenatural que desconhece o lirismo de um passarito ainda a cantar e uma nuvem mais bem aconchegada ao céu. O meu eu definia-se, partia-se em dois. Um que dominava o outro, que sugava desprezando, com a dramática consciência de que por uns tempos - quanto, sabe-se lá? - nem para o Céu nem para o Inferno eu podia estar verdadeiro de alma, afundava-se o meu eu genuíno, o que duvidava.

Cada marcha! Poça! Arrastava a carcaça por montes e vales, até à Ericeira, até sítios onde nunca mais irei, sítios que ficaram a abarrotar do meu outro. Meses marcando passo, pisando saudades escanzeladas, falando barato à noitinha, sem êxtases, grasnindo, dias e dias de uma visão que se engolia cá para dentro, como remédio. De galucho o meu trânsito para quase oficial afectava apenas as gavetas bem arrumadas dos sentimentos. Não era uma escola de vida onde eu estava, era uma escola de morte. E exactamente por ser de instrução, eu aprendia. Raro fui rebelde, ou de falinhas mansas para dar graxa. O meu enfrentar a situação levava-me a procurar nos petiscos um consolo para a tristeza, como mulher malcasada que no crochet vai enfiando malhas para se distrair. Voltava à lagosta comida junto à praia, ali na Pensão Morais, que assistira, com a Charlotte a comandar o nosso exército festivo, às libações comemorativas da minha entrada para a Universidade. Eram escapadas amorosas com o meu eu mais íntimo, quando as licenças para recolher me deixavam vaguear pelas redondezas até à meia-noite. Passava então pelos campos de batalha que durante o dia assistiam impávidos aos golpes decisivos do meu espírito bélico. A calma de uma paz nocturna pousava como exemplo, o estrelar lá por cima animava à procura da Via Láctea, as caudas de muitos cometas levavam de rastos a imaginação amputada por aquelas horas de liberdade. Desforrava o estômago com os mimos de quem fuma tabaco estrangeiro, metia dois flans pelas goelas abaixo, e nas horas de maior tristeza as batatas fritas com bife que o Frederico preparava, esqueciam-me no mastigar as obrigações sem vontade que eu cumpria. A numeração dos dias vivia-se numa mesma

ânsia que as datas do vencimento de letras bancária. Uma crueldade contra a qual eu estupidamente resistia criando paliativos de fim de semana, de voltar de novo, de ódios pela vida fora a todas as segundas-feiras, em todos os sítios do mundo, a qualquer hora do dia, em todas as circunstâncias, Segundas-feiras aliadas a exames, a marcha, a vozes, a levantar para o nada. O medo da segunda-feira ainda de noite se apodera de mim, sonho com a segunda-feira cheia de ângulos quebrados, cores de roxo, formas de que as baionetas são caixilho nítido. A minha alma começa à terça-feira, então redobro a actividade. E para defesa, anos mais tarde na vida, excluí o domingo à noite de parte da semana. Quis ajudar-me, pelo menos isso. Deixei para sempre de jantar aos domingos, um chá e cama às onze horas, para não sentir, em flagrante, erguer-se à minha frente uma segunda-feira para a qual durante anos vivi desprevenido...

As grandes marchas redundavam sempre finais. Ficava-se no campo uns dias, tendas de campanha, marmita, cantil, capacete ao ombro, bornal à anca, espingarda e metralhadora a postos e a Pátria alimentada pelo melhor que havia na ementa da nossa terra. Eu sem saber avançava dentro de mim. A viagem prosseguia, as noites de ronda ao bivaque faziam-me na paz temer um inimigo. Falava sem conversar. Umas vezes estava em S. Pedro da Cadeira, outras perto das arribas, raro se marchava para as bandas da Tapada. Os minutos até que me viessem render decorriam a ouvir os que no recordar de histórias desafiavam o toque a silêncio que fora clarinado por além de montes e ravinas. Uns faziam planos, outros escreviam às famílias, e sussurravam um gemido que se ouvia nas entranhas de Adão e Eva, um gemido de medo que realmente tudo aquilo fosse para matar, para ensinar a matar. Outros não conseguiam dormir, fumavam, e nos círculos de fumo, que de imediato se perdiam, ia o sonho que momentos antes fora tragado pela fumaça. Um efémero que me fazia tremer, de que tinha medo, não fosse apanhar-me distraído por uma bala que eu não chamara.

De sorrateiro em sorrateiro, o hábito não me conseguia fazer monge. Os longos túneis de Mafra, avenidas sem apeadeiros, cruzamentos de ficar apatetado na direcção, os meses marcavam um calendário que pela sua monótona sequência me ia destruindo a prestações. Paisano de alma eu olhava para aquele couraçado à prova de fogo, ancorado para a eternidade, memória de um louco que eu compreendia nos momentos eufóricos em que à janela da minha camarata, lá no portaló da nave, discursava às massas. Dizia adeus. Quem me visse do alto, mirasse os meus gestos, compreenderia nitidamente que o meu mundo - globo escolar de fácil manejo para andar à roda - completara mais um giro. O Fraldiqueiro ia ser oficial! Era altura para mudar. Daí por diante havia que usar pijamas. Eu dava baixa. Dos meus conhecimentos de fraldas, só duas pessoas resistiram - meu Pai e o Inho Serpa. Por quanto tempo, não sei. Havia agora que aplicar a minha voz alta, de barítono do século XIX, voz de pateada. Só o Saraiva era capaz de me bater em ênfase. A primeira vez que me coloquei diante do pelotão, a ostentação do meu grito - Pe-lo-tão -Senti-ii-oup! - resultara balbuciar de criança comparado com o tom melodramático do Saraiva. Parecia um grito de alarme dado a meia-nau.

Os carrilhões tocavam, o clima de incertezas apoderava-se ainda mais da inconsciência. Ninguém sabia nada de nada, poucos, além dos relatos estampados na imprensa e das notícias dadas pela telefonia, raros se apercebiam de que o mundo estava em eclipse total, mergulhado nas trevas, e que de uma penada morriam, assim, uns cem mil esterilizados enquanto o Diabo esfregava um dos olhos. Estávamos alheios a tudo, ignorava-se o horrendo que nesses mesmos momentos se passava nas câmaras de gás, onde se trituravam famílias, gerações, vidas sufocadas, extorquidas da alma, incineradas para montanha de calcinamentos, lava de irreconhecível carne humana.