Relação sincera do raio - Anónimo


 

Relação sincera do raio que no dia de S. José de 1786 caíu em Mafra

 

[segundo documento do Arquivo Histórico Ultramarino]

Leitura de A. Ferrand de Almeida Fernandes

(in O Concelho de Mafra, Março 1954)

Hoje 19 de Março de 1786 pelas duas horas e três quartos da tarde quando se estavam repicando os sinos e o Coro principiava a cantar as Vésperas de S. José sem ter ainda cantado mais que as palavras Ibant parentes Iesu uma nuvem não muito grande mas muito negra que vinha impelida pelos ventos Sudoeste e Noroeste se abriu sobre o Adro do Mosteiro de Mafra despedindo de si dois raios ao mesmo tempo com tamanho estrondo, ou trovão que parecia de 10, ou 12 peças de Artilharia juntas.

O primeiro entrou na torre do Sul, e sem fazer dano algum aos moços que repicavam os sinos quebrou logo os arames do Relógio e de alguns sinos mais. Daí correndo pela torre até aos tambores do Carrilhão, se dividiu em duas partes, uma das quais saíu por uma juntura à superfície externa da parede e partiu pelo meio uma coluna da mesma torre lançando a metade no claustro do Palácio, e deixando a outra metade no mesmo sítio em que estava, ainda que algum tanto desviada da parede da torre a que se encostava, e quebrando também um pedaço da cimalha dos Terraços; e outra parte do mesmo raio descendo pela escada interior da torre quebrou e demoliu inteiramente os degraus e tudo o que pertencia à mesma escada de caracol desde os tambores do Carrilhão até à Casa de Benedictione,sem contudo ofender as paredes colaterais, e descendo daí sem fazer mais dano até o pavimento da Galilé empregou todo o restante da sua força no mesmo pavimento ao pé da estátua ou imagem de S. Filipe Neri, fazendo em pedaços duas pedras do pavimento e sumindo-se por um pequeno buraco que fez pela terra abaixo. Mas é de notar, que achando-se ali mesmo ao pé da dita imagem dois homens conversando caiu esta parte do raio entre ambos, e fazendo tanto estrago nas duas pedras intermédias nenhum dano lhes causou a eles.

O segundo raio tomando a sua direcção por cima da empena da Igreja foi entrar por uma das vidraças do Zimbório se dividiu em várias partes ou faíscas, das quais uma desceu pela cadeia do Lampadário que está na Capela da Coroação, e quebrando uma pedra do pavimento ao pé das grades da mesma Capela fez um buraco e se sumiu pela terra abaixo; e duas desceram pela cadeia do Lampadário da Capela mor, apagaram uma só das lâmpadas, vieram ao pavimento, e caindo entre os Assistentes Paramentados das Vesperas, rompendo as alcatifas e fazendo dois pequenos buracos no pavimento se sumiram pela terra abaixo, no pavimento se sumiram pela terra abaixo. Estas duas faíscas caíram mesmo no lugar onde se costuma cantar a Epistola, aos pés dos Paramentados que aí estavam. Uma delas queimou parte do sapato do pé esquerdo ao Padre D. Joaquim d'Avé Maria, e sem lhe queimar as meias lhe fez uma queimadura estreita pela perna acima até à curva, e também lhe fez outra semelhante queimadura pelo braço direito até ao ombro fazendo para isso um buraquinho muito subtil na manga da camisa. A outra faísca deu no P. D. Sebastião da Senhora do Carmo também paramentado, queimou-lhe o talão de um sapato, e lhe afogueou todo o pescoço, peito, barriga e pernas. Ambos estes caíram de costas pelos degraus da Capela mor abaixo. O P. D. Joaquim como caiu em cima de um dos coristas que estavam logo no fundo dos degraus não teve perigo da queda, mas o P. D. Sebastião como deu com a cabeça na quina de um livro do Coro, fez um golpe não pequeno, e ficou por bastante tempo sem poder falar; ambos estão já sangrados; o P. D. Sebastião está bastantemente molestado, e ainda não está em seu juízo.

A nenhum dos outros Paramentados que estavam logo ao pé daqueles dois, nem a pessoa alguma mais das que estavam no Coro sucedeu dano algum. Na igreja estava muito povo para assistir ao Sermão, e só três homens ficaram por algum tempo assombrados, mas logo recuperaram as suas forças e foram por seu pé para as suas casas.

As Vésperas pararam por espaço de três, ou quatro minutos e daí continuaram. Acabadas estas se cantou o Te Deum Laudamus com o Senhor exposto como é costume fazer-se no fim da Novena de S. José, porém não houve Sermão, porque estava a gente muito amedrontada. Ficaram quebrados grandes partes das vidraças da Igreja, e também algumas do Palácio, e dizem que toda a perda passará de oito ou dez mil cruzados. Em toda a tarde não houve mais trovão algum, ainda que pelo meio dia tinha havido três, mas ao longe."

Eis aqui fielmente todo o facto, e tudo o mais que se contar é falso.