Refeitórios e Dependências Anexas


 

 

Casa dos Lavatórios

 

Dependência conventual onde os religiosos em trânsito para o Refeitório procediam às abluções.

"Esta casa [...] tem a sua principal entrada pelo portal [...] na mesma linha dos portais 97 e 94. Tem outro portal que deita para o Corredor das Aulas, e defronte dele há outro igual na mesma casa, mas fingido [no qual existiu um relógio de motor de pesos]. Têm estes de alto 18 palmos e meio e de largo 10, porém a cantaria de que são ornados eleva-se muito mais e formam duas diversas faces: as que olham para as casas e corredores contíguos correspondem aos portais destes, as outras que olham para o interior da casa são diversos e correspondem umas às outras.

É esta casa perfeitamente oitavada e não contando a grossura das paredes tem de largo 42 palmos por lado e de alto tem 39 [raio: 4,65 m]. Tem 8 arcos de formosa cantaria e com muito lavor, firmados sobre oito pegões ou grandes pilastras, cada uma das quais representa duas meias pilastras unidas ao meio, onde fazem um canto. São sacadas fora da superfície da parede 2 palmos e um 4º e esta é a grossura delas nos lados e na face exterior tem cada uma de largo três palmos e um 4º.

Os pegões ou pilastras estão aos lados dos quatro portais e dos quatro lavatórios. E como estes estão nos quatro cantos da casa, a qual em si é quadrada e os arcos são formados aos lados e em alguma distância dos lavatórios, por isso a casa que em si é quadrada fica sendo oitavada considerada a superfície dos arcos e pilastras. Sobre os pegões há um friso de pedra que saindo mais fora lhes forma uma espécie de capitéis sobre os quais cada um forma um semicírculo; tem de fundo no meio até à superfície dos arcos 12 palmos e meio e de largo 14 menos um 4º e esta é também a largura dos arcos que têm de alto 25 palmos e com a cantaria 26 e meio.

Sobre uma grande cimalha de pedra, que passa por cima dos arcos há três janelas que deitam para o terraço do corredor das Aulas e sobre os arcos dos outros lados há cinco janelas fingidas que correspondem às outras.

Os quatro lavatórios desta casa [...] estão formados do modo seguinte e o que se disser de um deve entender-se de todos porque são iguais e perfeitamente semelhantes. No fundo do vão que fica dentro do arco e quase junto à parede, descansa no chão uma base de figura oval que tem 13 palmos de circunferência, a qual elevando-se vai estreitando gradualmente e depois se alarga para formar a base da grande bacia. Esta no meio está levantada do chão dois palmos e meio, porém como ela para formar a concavidade se vai elevando e alargando do meio para os lados, vêm por fim a ficar as suas bordas acima do pavimento quatro palmos menos um 4º. Metade da bacia representa estar metida na parede e a outra que fica de fora e é de uma só pedra forma um semicírculo que tem 18 palmos de circunferência. No meio da bacia está um buraco para sumir a água [que se reunia numa pequena sala inferior a esta casa] e junto a ele da parte do fundo da parede principia uma nova base de figura oval que fica sobre a inferior, em que descansa a bacia, a qual tem de circunferência nove palmos e meio e depois de se ter elevado e estreitado torna a alargar-se algum tanto e se eleva até ter de altura quase palmo e meio. Sobre esta base descansa um grande vaso do feitio de uma formosa terrina que tem de alto até à superfície onde encaixa a tampa, quatro palmos e meio. Metade dela está saída fora do fundo da parede e tem de circunferência no bojo 12 palmos. Do bojo para cima vai estreitando e depois alarga até formar na superfície das bordas a mesma circunferência de 12 palmos e por conseguinte a mesma tem a tampa dela no lugar que encaixa na terrina. Daí para cima a mesma tampa vai estreitando e alargando-se gradualmente e no maior bojo forma uma espécie de molduras redondas. Por fim continua a elevar-se e a estreitar até que em cima forma um pequeno corpo ovado e sobre ele tem três pequenos florões um de cada lado e no meio dos três outro que se eleva e com os três parece formar uma cruz de flores. Assim acaba a tampa que tem de alto 5 palmos e meio e, por conseguinte, tem de alto todo o vaso ou terrina com a sua competente tampa 10 palmos. Na circunferência do maior bojo da terrina tem seis torneiras de bronze com chaves muito bem lavradas, com rosca ou tarracha por baixo para segurar os machos delas e apertá-los mais ou menos como for preciso para sair maior ou menor quantidade de água. A terrina é de uma só pedra, a tampa de outra. A terrina tem junto à parede um buraco onde a tampa encaixa, do qual por um pequeno cano que atravessa a borda da terrina desce a água que sobeja quando ela está cheia e se introduz para dentro da parede e por fim vem sair ao lado da bacia e se some pelo buraco que está no meio desta.

Aos lados de cada um dos lavatórios estão suspensas duas toalhas e por todas são oito, para se porem as quais há uma escada portátil.

Todos os arcos, pilastras, lavatórios, ombreiras e fechos dos portais e janelas desta casa é de pedra branca ricamente lavrada excepto o soco que é de pedra azul.

O pavimento de toda a casa é formado de pedra branca, azul e encarnada e faz um delicadíssimo e vistoso xadrez. No meio da casa está pendente um candeeiro do mesmo tamanho e feitio e na mesma linha que os do Refeitório" (Frei João de Santa Ana, fl.111-113).

 

 

Casa de Profundis

 

Dependência conventual onde, segundo William Beckford (1787), "antes de cada refeição, os monges, de pé, em solene postura alinhados em volta da sala, meditam silenciosos no precário da nossa fraca existência e oferecem a Deus as suas preces pela salvação dos que os precederam naqueles lugares".

Frei João de Santa Ana descreve-a nos termos seguintes: "A casa [...] chama-se De profundis porque nela costuma juntar-se a comunidade e rezar o Salmo que principia De profundis clamavi com a sua competente oração pelas Almas, antes de entrar para o Refeitório.

Tem a dita casa de comprido 114 palmos [i. e., 25,08 m por 9,24 m de largura]. Na largura, altura, soco, espaldar e assentos de que é cercada é perfeitamente igual e semelhante à do Refeitório.

Junto aos quatro ângulos tem quatro portais [...]. Os do lado do nascente deitam para o Dormitório próximo; porém destes o que está próximo à casa n. 98 não é aberto para o Dormitório e só tem porta e no interior da parede está um armário em que os noviços e coristas costumam recolher as pedras e mais instrumentos de penitência que na Quaresma costumam levar ao pescoço, nos olhos e na boca quando vão ao Refeitório.

Os portais do lado do poente deitam para o Corredor das Aulas e todos eles e juntamente o da principal entrada para esta casa designado pelo n. 27 são do mesmo tamanho, arquitectura e compostos das mesmas qualidades de mármore que o da principal entrada para a Refeitório. Na parede da parte do poente tem 13 janelas em três linhas. Na superior cinco por cima da cimalha real; na média outras cinco e todas as sobreditas deitam sobre o terraço do corredor das Aulas. A linha inferior tem só três que deitam para o dito corredor, porque os lugares das outras duas são ocupadas pelos dois portais já mencionados. Defronte delas estão onze fingidas e duas com vidros que lhes correspondem. Das que têm vidros uma recebe luz dos que lhe ficam fronteiras e a comunicam para o Dormitório do Norte do 2º andar; a outra igualmente a comunica ao Dormitório do 3º andar. Estas duas estão sobre o portal n. 95 fronteiro ao Dormitório do Norte no 1º andar e para lhe comunicar luz tem o dito portal sobre a porta muitos vidros que formam uma janela quase igual às superiores.

Todas as janelas desta casa estão nas mesmas linhas têm o mesmo feitio e ornato de pedras que as do Refeitório. Tem de cada lado duas pilastras e sobre elas se elevam dois arcos de pedra branca que acompanham a abóbada e estão designados na planta pelas linhas de pontinhos.

Todo o pavimento da casa é formado de pedras encarnadas quadradas de quase três palmos de largo e a cada lado delas está uma branca que tem o mesmo comprimento e de largo um palmo e um 4º e entre cada quatro desta está uma pedra azul quadrada também de um palmo e 4º por lado.

Em cada topo desta casa há dois grandes painéis de pintura que estão entre a cimalha real e a do espaldar aos lados dos portais. O que fica ao lado direito do portal nº 94 representa S. Paulo pregando no Areópago de Atenas [ilegível devido à patina] e o do lado esquerdo a um Santo da Ordem Franciscana (julgo ser S. Pedro de Alcântara) lendo em um livro que tem na mão e caminhando extasiado sobre o mar e com um bordão na outra mão mostra também uma embarcação cheia de homens; na borda do mar muitos religiosos e no alto do painel muitos Anjos admirados todos por verem um tal prodígio [paradeiro desconhecido]. Sobre o portal está uma cruz e nos lados estão dois Serafins adorando-a de joelhos sobre o fecho do mesmo. Estes e a cruz são de pau fingindo pedra branca. O painel que está ao lado direito do portal n. 97 [nome da casa] representa a Jesus Cristo lavando os pés aos seus discípulos [assinado Quillard] e o do outro lado a Nossa Senhora com o Menino Jesus nos braços e a S. Pedro de Alcântara de joelhos adorando-o e com os braços abertos e prontos para o receber nas mãos [atribuído por Paolo Quieto ao círculo de Sebastiano Conca].

É a casa iluminada de noite por três candeeiros do mesmo tamanho e feitio que os do Refeitório, suspensos do mesmo modo e na mesma linha que os outros. (Real Edifício Mafrense, fl. 109-111).

Além das finalidades descritas por Beckford e Frei João de Santa Ana, também aqui eram lidas as ordens régias, as Patentes do Reverendo Prior Geral, o Capítulo da visita e as resoluções sobre o governo económico da comunidade, sendo ainda rezados os responsos pelos benfeitores da Província.

Após a extinção dos institutos religiosos (1834), um grupo de oficiais aquartelados no Real Monumento, tomou a seu cargo, depois de obtida autorização de D. Maria II, a construção de um teatro (1840), completamente restaurado e dourado de novo no ano de 1890. A sua extinção e completo desmantelamento, no início da actual centúria, foi motivada por um quadro revisteiro em que eram glosadas as alegadas aventuras extra-conjugais da esposa do empresário.

Serviu, até à constituição do Museu de Mafra (1911), de arrecadação de mobiliário e objectos conventuais.

 

 

Refeitório Conventual

 

Inaugurado no dia da sagração da Basílica (22 Outubro 1730), conquanto ainda incompleto nos seus 48,18 m de comprido por 9,02 de altura. Nele jantaram juntamente nesse dia 300 frades servidos por El-Rei, Príncipe D. José, Infante D. António e respectivos camaristas.

José Baretti (carta 28) confessa: "Merece verdadeiramente ser visto. Entrei lá pouco antes dos religiosos se sentarem à mesa. Para cada dois padres havia um belo canjirão de louça fina, cheio de vinho e um pão grande; e sobre um prato de madeira do Brasil 6 figos, 2 óptimas pêras, um cacho de uvas e um limão para cada um". Já William Beckford escreve: "Cada frade tinha diante de si a sua garrafa de água e a sua garrafa de vinho e o seu prato de maçãs e de salada" (27 Agosto 1887).

Frei João de Santa Ana descreve-o no Real Edifício de Mafra: "[...] Tem a casa do refeitório 218 palmos de comprido, de largo 42 e de alto 60. A abóbada dele fica no nível da abóbada dos dormitórios do 3º andar e a cimalha real elevada do pavimento 41 palmos e meio, a qual é de pedra no mais largo dela, fica no nível do pavimento dos mesmo dormitórios.

Toda a casa junto ao pavimento é cercada de um soco de pedra azul que tem de alto 2 palmos e 1/8 em que estão encaixados muitos cachorros de pedra branca de óptimo lavor, sobre os quais descansam grossos assentos de pau bordo que têm de largo 2 palmos e meio menos 1/8 dos quais toda a casa está cercada, excepto nos vãos dos portais. Sobre o soco de pedra azul se eleva um espaldar de pedra encarnada mesclada de branco que cerca toda a casa e tem de alto sete palmos e meio, sobre o qual corre uma moldura de pedra branca com óptimo lavor, a qual é sacada fora e tem de alto palmo e meio menos 1/8.

As janelas que dão luz para esta casa e as fingidas que lhe correspondem, as quais todas são ornadas nos lados, em baixo e no fecho de pedra branca com muito lavor, concorrem muito para a formosura e majestade da mesma casa. Estão umas sobre outras em três linhas. As da linha superior e média, cujo ornato principia logo pouco acima do espaldar têm as ombreiras unidas de sorte que as mesmas ombreiras de cada uma das janelas da linha inferior, continuando a subir sem interrupção se elevam até quase à cimalha, onde acabam e fazem as ombreiras das janelas médias que lhe ficam superiores e entre cada uma das janelas médias e inferiores há um painel de pedra branca com lavor que chegando de uma a outra ombreira e tendo duplicada largura que a ombreira divide as ditas janelas uma da outra e como estes painéis ficam no nível da abóbada do corredor das Aulas que lhe fica contíguo, por isso as janelas da linha média deitam para o terraço do mesmo corredor e as da linha ínfima deitam para o dito corredor e dele recebem luz que comunicam ao Refeitório. As da linha superior ficam sobre a cimalha real. Todas estas janelas são grandes e delas há na parede do lado Poente 16 janelas que dão luz para o Refeitório e onze fingidas. Na parede oposta há 24 fingidas defronte das outras e no fim da casa ao lado do topo do Norte estão três que deitam para o pátio da Porta do Carro. Correspondem às que lhe são fronteiras. Dão também luz para o Refeitório. As duas da linha média recebem ambas luz de uma só janela exterior, de sorte que vista por fora é uma só janela e dentro do Refeitório aparecem duas do mesmo tamanho e ornato que as outras dele.

No topo da casa há de cada lado do painel uma janela em forma de arco que tem de alto 15 palmos e meio e de largo 8 e 1/4. estão colocadas entre a cimalha real e o friso ou cimalha do espaldar que cerca a casa e são ornadas de muito lavor de pedra branca por baixo, por cima e nos lados. A estas correspondem outras duas do mesmo tamanho, feitio e ornato na parede oposta, os quais estão aos lados do portal da entrada principal e como formam arcos e concavidades na parede com todo o fundo e lados de cantaria, por isso cada uma delas forma um grande nicho de pedra.

Entre as ditas janelas que estão no topo do Norte e dão muita luz para a casa, está um painel que representa Jesus Cristo ceando com os dois Discípulos de Emaús. Tem 32 palmos e meio de alto e 14 de largo. A moldura que o cerca é de pedra azul e proporcionada à grandeza do painel e como este no mais alto acaba em forma de arco e se eleva quatro palmos e meio acima da cimalha real, também a moldura o acompanha e acaba formando um arco sobre o painel. A moldura nos ângulos inferiores abaixa algum tanto e descansa sobre duas bases de pedra amarela, os quais se firmam sobre a cimalha do espaldar. O autor do dito painel é Solimena, pintor italiano. Aos lados do painel estão duas pilastras de pedra branca que têm por bases a cimalha do espaldar e por capitéis a cimalha real. Estão acompanhadas de uma fita de pedra de cada lado, as quais também se estendem para os ângulos da casa com vário lavor formando-se entre elas vários painéis da parede branca a que servem de molduras as ditas fitas e o mesmo há também na parede oposta aos lados das janelas fingidas e do portal da principal entrada. [...] os portais designados pelos n. 90 formam diversa face na parte que olha para o Refeitório.

Nestas faces tem cada um de alto 11 palmos e de largo 8 e na grossura da parede forma uma cozinha quadrada de oito palmos por lado, cujas paredes e tecto são de pedra encarnada do mesmo modo que o espaldar que cerca toda a casa.

E como os ditos portais são mais altos que o espaldar, a cimalha desta se eleva nos lados dos portais e conservando o mesmo feitio e lavor lhes serve de ombreiras e fechos sobre cada um dos quais está um [a] grande base de pedra branca com muito lavor e saída fora da parede e sobre estas descansam os dois famosos púlpitos que ficam nos vãos de duas janelas das linhas inferiores. Os púlpitos que são octângulos, não só ocupam os vãos, mas também saem fora das paredes três palmos e meio. Tem cada um de alto 6 palmos, de largo 8 e de circunferência no mais alto dele treze e meio. É todo de pau preto e amarelo formando nos lados vários painéis de pau preto a que servem de molduras fitas de pau amarelo com muito lavor que estão nas faces dos ângulos e cercam os painéis que são algum tanto sacados fora e igualmente as molduras. Cada um tem uma estante firmada em um ferro introduzido na madeira, o qual juntamente com a estante anda de roda. São feitas das mesmas qualidades de pau e cada uma tem de alto três palmos e meio e de largo 2 e 1/8. O vão de cada um deles é uma casinha do mesmo tamanho que a do portal inferior e nele tem assento para o leitor e armário para recolher os livros. Sobe-se para cada um deles por uma escada de caracol que sobe por entre a parede. Tem quase dois palmos de largo e depois de 14 degraus acaba com um peitoril de grades de ferro que a cerca quase toda.

Em cada um dos vãos onde em baixo principiam as ditas escadas há um armário como já se disse. Há mais no que deita para o corredor das Aulas uma toalha para nela se alimparem os que servem à mesa. No meio do mesmo há no chão uma pia de pedra com tampa e sumidouro para onde se deita a água suja quando se lava o Refeitório.

Próximos aos assentos que cercam a casa estão 20 mesas de pau santo, e nele embutida no meio de cada uma pau vermelho, e tudo de tal modo polido, que parecem espelhos, principalmente quando se tem corrido com um pano molhado em azeite. Tem cada uma de largo três palmos menos 1/4 e de comprido 22 e 1/4 excepto as dos topos, que têm de comprido 16 e 1/4. Estão levantadas do chão 4 palmos e 1/8 e cada uma descansa sobre três pilares de pedra branca optimamente lavrados, emoldurados, e só as dos topos pela sobredita razão têm dois pilares. Entre cada duas há espaço aberto para se poder entrar para os assentos. Pelo meio de toda a casa passa uma divisão, ou teia de cinco palmos e meio e 1/8 firmado sobre um soco de pedra azul, junto ao qual de uma e outra parte estão outros tantos cachorros de pedra branca como nas paredes laterais e sobre estão os assentos e próximos a estes estão de cada parte oito mesas do mesmo tamanho, feitio e qualidade de pau que as outras.

Há portanto em todo o refeitório 36 mesas.

A teia é da mesma qualidade de pau preto e encarnado, com painéis de uma e molduras de outra, sacados fora que formam uma espécie de almofadas que ficam nas costas dos assentados. E a teia serve de espaldar. Os assentos são cortados defronte dos espaços que há entre umas e outras mesas, para mais comodamente se poder entrar para eles. A teia junto aos topos deixa espaço suficiente para se poder passar para um e outro lado do Refeitório e por isso principia e acaba em distância das paredes dos topos necessária para se poder passar para uma e outra parte. As almofadas de pau vermelho que tem de ambos os lados são cercadas de frisos e molduras de pau amarelo.

Em linha recta sobre a teia estão suspensos nove famosos candeeiros de quatro luzes cada um que dão luz para todo o Refeitório. Estão suspensos em cadeias de ferro pendentes em roldanas e estas estão fixas na abóbada. Tem cada um de alto cinco palmos. São de latão amarelo e do mesmo são cobertos os pesos de chumbo que para fazerem o equilíbrio estão nas extremidades das cadeias, as quais no meio são atravessadas de um ferro para este prender nas roldanas e não virem abaixo as cadeias se escapar alguma quando se tiram os candeeiros. Há esta providência para evitar o trabalho que haveria se caísse alguma, por ser a casa muito alta e as roldanas em que elas estão suspensas estarem presas na abóbada. Todos estes candeeiros estão em linha recta com os das casas seguintes designadas na planta pelos números 96, 98 e 101 que são por todos catorze, os quais fazem uma lindíssima iluminação e tão brilhante que acendendo-se todas as luzes ficam as casas tão iluminadas como se fosse o mais claro dia.

E toda a iluminação se goza debaixo de um ponto de vista ou do princípio ou do fim da linha dos 14 candeeiros, sem que sirvam de impedimento os portais intermédios, porque todos são iguais ao do Refeitório e, por conseguinte, muito altos e largos.

Todo o pavimento do refeitório é de pedras brancas octângulos e de pedras azuis quadradas. Na parede dele na face que olha para o corredor da cozinha tem uma grande porta que fecha um grande armário no qual os Padres que servem à Mesa a El-rei, ao Príncipe e Senhores Infantes, quando estes no dia de N. P. S. Francisco jantam com os religiosos, costumam arrecadar a louça, comer, guardanapos e o mais que sobejou e serviu os mesmos Augustos Senhores, porque tudo isto costuma ficar para quem lhes serve à mesa.

Todos os portais desta casa e das seguintes, por onde do corredor das Aulas se entra para elas têm de alto com todo o seu ornato de cantaria 25 palmos e de largura 13" (fl. 104-109).

Comunica com a cozinha pela porta chamada Ministra.

 

 

Refeitório dos Pateiros

 

Os pateiros eram religiosos leigos, que realizavam serviço na cozinha conventual de Mafra. Tinham Refeitório próprio, descrito no Real Edifício de Mafra, na casa ali designada pelo n. 166: "Para este fim há na casa as mesas necessárias, e uma janela, que deita para o pátio n. 67 que dá bastante luz, e por vidros, que tem sobre a porta a comunica também para a casa n. 165" (Frei João de Santa Ana, fl. 170).