Padre Alberto da Fonseca Rebelo


Padre Alberto da Fonseca Rebelo

Catálisis ou assolação da cidade de Lisboa pelo terramoto do primeiro de Novembro de 1755 com a preservação do Real Convento junto à vila de Mafra

 

 

[...]

 

Canto IV

Na preservação do Real Convento de Mafra

 

1

Pára já pobre Musa fatigada

A teu Leitor não dês maior tristeza

Se necessitas de ser aliviada

Busca-lhe algum alívio, e com presteza

de Deus a Providência compensada

com o favor  faz a pena por grandeza

do seu justo governo, e no castigo

tão bem mostra ser Pai e ser Amigo.

 

2

Tem o motivo da dor sido penoso

Na história que contaste lastimosa

vê que outro motivo tens para o gozo,

em uma preservação tão milagrosa,

O fatal terramoto portentoso,

que arruinou a cidade mais famosa

deixou depois de ser tudo assolado

em Mafra o Real Convento preservado.

 

3

O Convento quem ignora ser factura

mui nobre de grandeza mui notável

com um Templo de tão bela arquitectura,

A satisfação de um voto mais louvável

do Monarca que morto sempre dura

nos corações dos povos mais amável,

a Memória, o Amor, a Saudade,

pelo zelo, Religião e Piedade.

 

4

A empenhos da devoção quis levantar

ao supremo Rei dos Reis no mundo

muito digna habitação para lhe dar

louvores com o respeito mais profundo.

No Templo que levantou quis imitar

ao Rei Salomão sendo o segundo

na grandeza no primor e no asseio

maravilha lhe chamo, e sem receio.

 

5

Adónia se preparou com perfeição

E com tal engenho, e arte que pudesse

grande alívio motivar, e admiração

a qualquer, que no templo entrar quisesse

o gosto sempre ali terá e a devoção

matéria muito grata, sem que houvesse

até que quem tal louve com ternura

esta obra de notável formosura.

 

6

Das pedras o diverso colorido

dos olhos é objecto mais mimoso

sendo rija matéria, e bem polido

O Louvor que há nelas o faz custoso.

O empenho dos Mestres era subido,

Ao empenho do Monarca obsequioso

que os Régios Tesouros fez patentes

pasmo do mundo, admiração das Gentes.

 

7

Na Basílica Régia estamos vendo

altas colunas, pórticos famosos

tribunas e estátuas todas sendo

de grande corpulência, em que os pasmosos

Artífices a bela arte exercendo

mostraram que os seus cortes primorosos

vencer podem a matéria ainda que dura

e contá-la com mui nobre formosura.

 

8

O zimbório foi milagre de engenho

de altura pasmosa e de lindeza

tão agradável à vista com o empenho

o principal do gosto e da grandeza

em termos adequados, já não tenho

para dizer a perfeição e a firmeza

desta obra tão Real tão peregrina,

não parece que de humana, mas divina!

 

9

Quando por fora a vês admirado

ficarás, vendo assim tão levantada

a fachada soberba e sublimado.

O pórtico de uma obra delicada

duas torres o fazem respeitado

da melhor  arquitectura e apurada

cento e quatorze sinos nela tocam

o gosto as belas vozes nos provocam.

 

10

Dois palácios de igual magnificência

um da parte sul, outro do norte

ambos dos Reis para sua residência

o templo compreendem, e desta sorte

mostram com mui boa providência

que ao decoro lhe servem e ao forte

fazendo o Frontispício respeitado

mais seguro, formoso, e dilatado.

 

11

Aos padres da Arrábida penitente

Dignos filhos do Serafim chagado

quanto o Rei os amava fez patente

no Convento por eles habitado.

Com real devoção com zelo ardente

foi a Maria Santíssima dedicado

e ao Santo Português António digo

deixando-lhe a conservação e o abrigo.

 

12

Outro Rei temos mais José primeiro

Fidelíssimo Augusto e Poderoso

do Augusto Pai Retrato verdadeiro

Pacífico, Liberal e Piedoso

Agora ocupa o Trono como cordeiro

das virtudes do pai, pois cuidadoso

não falta à devota comunidade

na contínua protecção e piedade.

 

13

Dela muito dignos são, são a credores

Pela suma perfeição teor de vida

Os padres do Convento habitadores

da mais pura observância bem sabida.

A Deus continuam os seus louvores

nas sagradas funções nas quais convida

A todos do seu canto o primor grato

das cerimónias o modo tão exacto.

 

14

Até no número é grande e notável

Desta casa a Família Franciscana

de trezentos é o numero incontrastável

A soberba infernal cruel e insana

na humildade e concórdia muito amável

na caridade entre eles soberana

Assim se fazem com a maior propriedade

retratos da virtude e santidade.

 

15

Das Letras, que direi e da Ciência

destes religiosos tão perfeitos

Um colégio do Rei e Providência

fundou para criar sábios sujeitos

o intento logrou com evidência

que assim discorrem todos nos conceitos

que formam e confessam igualmente

ser melhor a virtude que é ciente.

 

16

Nesta de Minerva residência

[?]ou sábia Academia se exercita

o engenho no estudo da ciência

nem de auxílio estranho necessita

das artes literárias a excelência

irem os sábios da corte muito incita

arguir nas conclusões em cada ano.

Sendo o acto vistoso e soberano.

 

17

Foi  preciso falar a pobre Alma

como pode com estilo limitado

de um Convento Real, pois não recusa

de o expor dasruínas preservado.

Semelhante notícia não se escusa

por fazer o sentimento aliviado,

que a todos penetrou no lamentável

estrago de Lisboa o mais notável!

 

18

A tempo, que os padres celebravam

a Missa principal, no mesmo dia

igualmente com o povo se assustavam

do trovão que em toda a parte se ouvia

quando as pedras do Templo se abalavam,

então julgaram todos que caía.

O abalo foi mui grande e foi de sorte

que logo indubitável fez a morte!

 

19

Como notável é a corpulência

Da[s] máquina[s] que compõem o Templo Augusto

nele então era maior a violência

que se sentia deste [terra]moto tão robusto.

A todos assim mostra a experiência

ser o combate maior, máximo o susto,

em contrários mais fortes e alentados

nas Lutas, nos Combates porfiados.

 

20

Crescia cada vez mais o perigo

nas abóbadas o eco retumbava

pelo horroroso estrondo que consigo

trazia o terremoto que assombrava

fugia o povo buscando algum abrigo.

Aos ministros do altar afugentava

este espantoso abalo repentino

este caso, que dispôs alto destino.

 

 

 

Canto V

 

 

1

À maneira de nau, que na tormenta

muitas vezes se abate e sobe ao alto

para um lado se inclina e experimenta

para o outro, do vento novo assalto.

Os mastros faz ranger, a tudo intenta

submergir entre as águas, assim falto

de valor o piloto larga o leme.

A Deus misericórdia então só pede.

 

2

Assim se via a Igreja flutuando

já de um, já de outro lado combatida

o mui alto zimbório já vergando

e a máquina das torres perseguida

Já o Real Convento suportando

do terramoto a fúria tão temida

supondo que o mundo se acabava

com fervor cada um a Deus clamava.

 

3

Neste rigoroso aperto tão evidente

assustados os bons religiosos

recorrem ao Celeste Pai,  Pai clemente

e aos Santos em Deus só milagrosos.

Em devota Procissão e penitente

súplicas repetem, rogos piedosos

acompanhando o povo assaz medroso

e suplicando o auxílio poderoso.

 

4

Mas da força maior, mais poderosa

que a oração, que a Deus obriga e rende

pois, nem empresa qualquer dificultosa

deixa de conseguir como pretende.

Já o sol fez parar, cousa pasmosa!

Orando Josué como é evidente

se a penitência à oração faz companhia

logo a tristeza se volta em alegria.

 

5

No monte ao Senhor, Moisés orava

e do Senhor alcançava o que queria

com os braços levantados debelava

orando, ao forte inimigo, que cedia.

Porém, quando cansado os baixava

aquele logo então prevalecia.

Orando assim Moisés a penitência

e a oração nos mostra sem violência.

 

6

De modo semelhante então usaram

os bons religiosos, e a mais gente

nem o Convento, nem o Templo perigaram

compadecido o Senhor Omnipotente.

A Palavra Divina a ele pregaram

o povo se mostrou mui penitente

tudo eram Conversões, tudo clamores

tudo enfim penitências, e rigores.

 

7

Dizei árvores, as que então aí faziam

nessa Cerca os varões tão penitentes

os golpes em seus corpos repetiam

contra si se mostravam inclementes

Com jejuns suas carnes consumiam

Eram as rogativas permanentes

mas vós arbustos mudos insensíveis

Se as pudesseis dizer, seriam incríveis.

 

8

Patente fez logo o Céu a piedade

de armas, assim tão fortes já rendido,

por mais que do abalo a crueldade

queria o Real Convento destruído.

Combatia o [terra]moto, mas debalde

por ser o Sagrado Templo protegido

da Rainha do Céu a Protectora

e de António tão aceito da Senhora.

 

9

Outro motivo temos bem fundado,

vendo livre assim por alto destino,

um convento, e um Templo consagrado

somente a Deus, e a seu culto divino.

De que Deus assim o teve conservado

para prémio do zelo, e amor fino

do Rei, que no seu culto mais cuidava

e a todos os mais Reis exemplo dava.

 

10

Deus no louvor perene que tributa

ao seu Nome e Família tão devota

cumprindo atenção do Rei a executa

de outro alheio cuidado bem remoto.

Além do prémio que no céu deputa

para estes seus servos, já denota

que quis ser este Templo preservado

para sempre por eles ser louvado.

 

11

Porque nem só agora Deus livrara

de tão grande perigo ao convento

outro também horroroso o assaltara

do qual edifício nenhum está isento.

No ano de trinta e cinco se armava

uma fúria de raios, ou um portento

sobre o grande edifício, e parecia

que de todo se arrasava e se perdia.

 

12

Em  Junho no dia oitavo, em que o Mistério

do Corpo do Senhor se celebrava

dos padres com mui nobre ministério

em procissão, pelo Templo já entrava.

Às seis da tarde se notou o mistério

cheio de espessas  nuvens, que assombrava

os ares muito grossos, e inflamados

horrendos os trovões continuados.

 

13

Não só uma não, mas outra tempestade

pelo norte e pelo sul se combatia

nenhuma foi maior na nossa idade

O Céu chamas de fogo despedia.

Todo o povo da vila à piedade

de Deus sacramentado recorria,

as suas casas deixando, se acolhiam

ao Templo, entendendo, que morriam.

 

14

Os raios eram tantos, caso estranho!

Que chovendo uns com outros pelejavam

o incêndio despedido era tamanho

que ser assim do mundo, assim julgavam

todos já, como tímido rebanho,

da morte o seu duro golpe aguardavam.

As gerais confissões ali faziam

do coração ao Senhor se convertiam.

 

15

Terminou-se com efeito a tempestade

que seis horas durou, sem que pudesse

a Régia obra ofender por ser vontade

do Altíssimo, que assim prevalecesse.

Resistiu do tremor a crueldade

Venceria, se ainda se atrevesse

contrário qualquer, sorte que seja

porque o Auxílio celeste mais se veja.

 

16

Louvado seja  Deus eternamente

pela consolação já concedida

ao Rei, que hoje reina tão clemente

e aos Padres do Convento a medida

do pesar, e da dor tão veemente

que tiveram na cidade destruída

por lhes deixar, por alta Providência

isenta a obra da geral violência.

 

17

Aqui forçoso é justo motivo,

para que a Musa os parabéns repita

ao Piíssimo Rei pelo incentivo,

do gosto, que mui grande se acredita

viva pois largos anos em plausivo

e em feliz Império, a cuja dita

Aspiram dos vassalos as vontades

os mais Leais em todas as idades.

 

18

Aos do Real Convento habitadores

Religiosos de exemplar piedade

parabéns dê a Musa e dê louvores

do gozo, que tiveram, e com verdade

de maiores encómios são credores,

pois na grande aflição da nossa idade

ao povo consolavam e acudiam

às almas, e aos corpos, tão bem como podiam.

 

19

Vive pois a feliz Comunidade

continua vossa vida inocente

executa tua muita piedade

cumpre com a profissão tão penitente.

Imita de Francisco a Santidade

e o Seráfico amor mais excelente

de ti se agrada o Senhor, a quem servindo

no céu te fica o prémio prevenindo.

 

20

Põe já termo, ó Musa envergonhada,

da pobreza desse teu fraco talento

mas parece seres só desculpada

conhecido, qual foi, de ti o intento.

Bem sentido, com dor, e magoada

da destruída Lisboa em um momento

quiseste te ajudar da Poesia

buscando em tanta mágoa companhia.

 

In laudem Regalis Templi Mafrensis Ejusdem Authoris Epigrama

 

Regisico Mafra quid Templo pulchrius extat?

Si melius quaris protinus astrapete

 

Catalysis ou assolação da cidade de Lisboa pelo terramoto do primeiro de Novembro de 1755 com a preservação do Real Convento junto à Villa de Mafra, composta pelo Padre Alberto da Fonseca Rebelo, natural de Lisboa e graduado na Faculdade dos Sagrados Cânones pela Universidade de Coimbra. A obra, da qual apenas é conhecida a cópia manuscrita integrada na Biblioteca Volante do arrábido frei Matias da Conceição [PNMafra: BibVolante 2-9-6-13 (17º)] é composta por cinco cantos divididos em estrofes de oitava rima e versos decassílabos. Ernesto Soares deu dela notícia em O Concelho de Mafra  (4 Jun. 1933). O poema devia terminar com um epigrama do mesmo autor, para o qual o copista destinou seis fólios que permanecem em branco, certamente por nunca se ter concretizado a cópia. A peça n. 18 desta miscelânea, do mesmo autor da Catálisis (?) e intitulada Eco do Terremoto na destruição e incêndio da Cidade de Lisboa no 1º de Novembro de 1755, terminaria com o mesmo epigrama, igualmente em falta.