Memórias Paroquiais de Santo André de Mafra


 

Memórias Paroquiais (1758)

De Santo André de Mafra

 

ANTT: Memórias Paroquiais, v. 22, maço 28, p. 177-186

O padre Francisco Gonçalves, vigário da lgreja colegiada de Santo André desta Vila de Mafra, satisfazendo aos interrogatórios na forma que pelo Eminentíssimo Senhor Cardeal Patriarca lhe é mandado, o faz na forma seguinte:

1. Esta paroquial igreja da vila de Mafra fica na província da Estremadura, no patriarcado de Lisboa, comarca da vila de Torres Vedras e é termo sobre si.

2. Esta vila de Mafra não tem donatário e é de El-Rei e o foi sempre (1).

3. Tem esta vila, com o bairro da Boa Vista, em que ficam as casas da Câmara, cadeia, açougues e praça da mesma, compreendendo-se também nela o distrito da Real Obra e seus subúrbios, cento e noventa vizinhos e, toda a freguesia, quinhentos e oitenta e nove vizinhos, incluindo-se neste número os cento e noventa acima ditos, sendo o número de todas as pessoas que há de comunhão na vila e freguesia três mil pessoas e quinhentas de sete anos para baixo.

4. Acha-se a vila situada entre dois pequenos rios, um chamado Gordo, outro dos Couros, que correm de Nascente a Poente, ficando-lhe os lados um ao Sul e outro ao Norte, o qual passa por dentro da quinta do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Visconde de Vila Nova de Cerveira, a qual compreende em si vários pomares, vinha a uma notável mata e a ela têm vindo e costumam vir a recrearem-se as pessoas reais nas ocasiões que vêm à vila, da qual, na sua freguesia e termo, se descobrem os lugares do longo da vila e alma. Da mesma sorte se descobre a vila de Sintra e toda a sua serra na distância de três léguas, e muitos lugares do termo da dita vila de Sintra, que ficam entre a mesma e esta de Mafra na distância de uma até duas léguas.

5. Tem esta vila termo o seu próprio, que se estende mais de uma légua para Norte e Poente, para o Nascente meia e menos de um quarto para Sul, confinando por esta parte com o termo da vila de Sintra e também do Nascente, do Norte com o termo da vila de Torres Vedras e, do Poente, com o termo da vila de Cheleiros, Reguengo da Carvoeira, mar e termo da vila da Ericeira que, nalgum tempo, foi lugar do termo desta vila de Mafra e freguesia da mesma, compreendendo o mar dois fortes junto ao mar, um e São Pedro do Milreu, outro de Santa Susana, e outra freguesia do orago de Santo lsidoro na distância de uma légua e, parte da dita vila da Ericeira, que é de São Pedro, que também fica em outra igual distância, e ambas sufragâneas de Santo André e matriz desta vila de Mafra, a qual tem as povoações seguintes: o Casal da Quinta da Silveira, o Casal do Pombal, o lugar do Carido, com cinco vizinhos; o lugar da Quinta Nova, com cinco vizinhos; os Casais das Vilãs, com dois vizinhos; o lugar da Ribeira de Miciel Forro (2) com doze vizinhos; o lugar de Almada, com seis vizinhos; a Quinta do Arquitecto, o lugar do Longo da Vila, com dezoito vizinhos; um morador mais ali perto no sítio da Bemposta, dois casais chamados do Oiteiro, outro mais chamado das Courelas, o lugar dos Gorcinhos, com sete moradores; o lugar dos Gonçalvinhos, com treze vizinhos; os casais de Monte Godel, com três vizinhos; o Casal da Campa, os Casais das Fontainhas, com dois vizinhos; o lugar do Quintal, com oito vizinhos; o lugar dos Murtais com três vizinhos; o lugar de São Zoiros (3), com onze vizinhos; o lugar das Casas Velhas, com oito vizinhos; o lugar do Zambujal, com quatorze vizinhos, o casal da Fancaria, com dois vizinhos; o lugar da Relva, com cinco vizinhos; os Casais da Serra, com cinco vizinhos; o casal de Vale de Porco, o casal da Rebenta, com dois vizinhos; o moinho do Paúl, o lugar dos Caeiros, com onze vizinhos; o sítio da Cova da Raposa, com dois vizinhos; o casal de Vale de Carreira; o casal da Lagariça, com dois vizinhos; o lugar da Fonte Santa, com seis vizinhos; o lugar do Sobreiro, com dezassete vizinhos; o casal da Saibreira, com quatro vizinhos; o casal de Murgeira, o casal do Cortido, o Casal Novo, o Casal dos Salgados, o casal de Mourão, com dois vizinhos; o casal da Quinta do Castanho, o moinho do Pizão, com dois vizinhos; o casal da Póvoa de Baixo, com dois vizinhos; o lugar da Póvoa de Cima, com sete vizinhos, o casal da Torre, o lugar do Calado, com quatro vizinhos; o casal da Mangacha, o casal da Arriota, o casal da Ervideira, o casal da Carvalhinha, o lugar da Amoreira, com dois vizinhos; o casal do Zambujeiro, os casais de Mato de Cima e de Baixo, o lugar da Zucheira, com oito vizinhos; o lugar da Cachouça, com sete vizinhos; o sítio do Porto da Serra, com doze vizinhos; o casal da Samouqueira (5), com dois vizinhos; o lugar da Murgeira, com vinte e três vizinhos; o casal do

Casalinho, o lugar de Casal Vieiro, com oito vizinhos; Casal dos Simões, o lugar da Da Perra, com quatro vizinhos; o lugar da Portela da Vila e lavandeira, com oito vizinhos; o lugar do Pinheiro com treze vizinhos; o lugar dos Cabeços, com dez vizinhos; o sítio da Forca, com sete vizinhos; a Quinta dos A[r]ciprestes, com três vizinhos; e, além destes, os cento e noventa vizinhos da dita vila, Bairro da Boa-Vista, destrito da real obra e seus subúrbios, e os casais que se não declaram vizinhos, se entende ter somente um, cujos vizinhos que aqui se declaram respeitam somente a freguesia desta vila e, os mais do termo, constarão das declarações dos párocos respectivos.

6. A freguesia desta vila se acha situada dentro na mesma; os lugares casais e sítios que a compreendem vão todos pelos seus nomes declarados no quinto e antecedente interrogatório, onde também se declara o número dos vizinhos compreendidos nos ditos lugares, casais e sítios.

7. A freguesia desta vila é a única que tem o do orago do apóstolo Santo André mártir com duas anexas a saber: uma no termo, de Santo lsidoro, outra na vila da Ericeira, do apóstolo São Pedro, como já se declarou no quinto interrogatório. A igreja da freguesia desta vila tem três altares, a saber: o maior e dois colaterais, um de Nossa Senhora do Rosário e outro de São Sebastião. Tem a dita igreja seis naves, a saber: três por cada banda, e duas irmandades: uma do Santíssimo Sacramento, outra das Almas, ambas com compromissos aprovados e confirmados pelo ordinário e, além das ditas irmandades, tem as confrarias seguintes: a de Santo André, Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora do Rosário, do Santíssimo Nome de Jesus, São José, São Sebastião, Santo António, Santa Luzia, Nossa Senhora da Graça novamente junta e festejada pelos estudantes do Colégio do Real Convento, que fica junto a esta vila.

8. O pároco desta colegiada igreja de Santo André se intitula vigário e era anexa esta igreja à conezia da antiga Sé da cidade de Lisboa, intitulada de Mafra, por cujo cónego era apresentada e o foi ainda o vigário actual e, hoje, consta que a apresentação pertence ao Eminentíssimo Senhor Cardeal Patriarca, por se achar extinto e dito canonicado. O rendimento do dito pároco se acha, ao presente, com muita diminuição, pela razão de se empreender na Real Tapada que Sua Magestade, que Deus guarde, mandou fazer contínua ao Real Convento que fica junto a esta vila, no âmbito da qual se compreende uma grande parte do melhor território desta freguesia, que ficou carecendo dos dízimos que dele lhe provinham e, por isso, o rendimento do dito pároco que agora tem, será de duzentos mil réis, com pouca diferença.

9. Tem, esta colegiada a igreja e freguesia de Santo André, cinco beneficiados que, ao presente, renderão, servidos pelos seus proprietários, cento e setenta mil réis, por também se acharem diminutos pela razão referida no interrogatório oitavo antecedente, cuja apresentação sempre foi da Sé Apostólica e, ao presente, o Eminentíssimo Senhor Cardeal Patriarca como delegado.

10. Acha-se nesta freguesia, junto a esta vila de Mafra, um convento real novamente edificado por ordem e à custa de Sua Magestade, da invocação de Nossa Senhora e Santo António, cujos religiosos são da província da Arrábida, sendo o dito convento a cabeça e casa capitular da dita província e tendo ao presente o número de trezentos religiosos que sustenta o mesmo Senhor, padroeiro do referido convento, para o qual dá tudo o mais necessário com abundância e, no mesmo, tem palácios para a Sua Régia acomodação, sendo estes, e o dito convento, um dos edifícios mais notáveis de toda a Europa.

11. Tem esta vila um hospital para os mendicantes passageiros, junto na ermida do Espírito Santo desta mesma vila, com um administrador da dita ermida e hospital, e com rendimento de pouco mais de vinte mil réis, cujo administrador, ao presente, é posto pelo provedor da Câmara.

12. Não há nesta vila Casa da Misericórdia e os pobres se provêm do modo possível, com as esmolas do hospital que nela há e se refere no interrogatório antecedente.

13. Há nesta freguesia cinco ermidas: uma do Divino Espírito Santo desta dita vila nela situada, que o administrador dela e hospital repara com as suas rendas; outra de Nossa Senhora do Socorro, situada na Quinta do Arquitecto que, o tenente coronel Manuel Nunes Sylvestre, dono da dita quinta a que pertence a dita ermida, a administra; outra de Santo António, na quinta do llustríssimo e Excelentíssimo Senhor Visconde de Vila Nova de Cerveira, que se arruinou em o terramoto do primeiro de Novembro de 1755 e se acha ainda por reparar, a qual administra o

mesmo Excelentíssimo Visconde; outra também da mesma invocação de Santo António no lugar da Perra, que administra o capitão Alexandre José de Mattos; e, outra, no lugar da Murgeira, da invocação de Nossa Senhora do Monte do Carmo e de Santo António, que administram os moradores do mesmo lugar, a qual é de actual romagem.

14. A ermida de Nossa Senhora do Monte do Carmo e Santo António, do lugar da Murgeira, que se refere no interrogatório antecedente, é a única de romagem que há nesta freguesia e, como dito fica no mesmo interrogatório, é actual a dita romagem, com grande frequência e devoção, sendo milagrosa a Imagem de Nossa Senhora.

15. Os frutos que os abitadores (5) desta freguesia colhem de suas fazendas com maior abundância é: pão de toda a espécie, legumes, vinho e algum azeite e, da mesma sorte, colhem com abundância frutas de todas as castas os que têm pomares.

16. Tem esta vila um juiz de fora, três vereadores e um procurador do concelho, do qual se compõe a Câmara dela, e um escrivão da mesma, que também serve de almotaceria, dois almotacés, dois escrivães do público, judicial, notas e orfãos, um dos direitos reais e jugadas e outro das sisas, um alcaide que serve também de carcereiro, um porteiro, dois quadrilheiros e cinco juizes da vintena, sendo o juiz de fora normalmente criado por Sua Magestade e apresentado pelo mesmo senhor que, também, preside de propriedade [?] os ofícios de escrivães e alcaide e assina as pautas dos vereadores, e tesoureiros do concelho e, da mesma sorte, dá ao ofício de juiz dos direitos reais e jugadas, que também há nesta dita vila, por não ter donatário. Os almotacés, carcereiro, porteiro, quadrilheiros e juizes da vintena se fazem e nomeiam pelo Senado a Câmara, cujo governo é independente das justiças de outra terra, sendo esta vila uma das mais antigas do reino, como se mostra do seu foral e de vários autores que dela tratam, como também, o é a sua matriz e colegiada de Santo André, em que há tradição ter sido reitor o Sumo Pontífice João vinte e dois (6), que criou os benefícios dela, demitindo de si meia renda com que os dotou.

17. Tem esta vila de Mafra jurisdição ordinária e governo independente de outra alguma, por ter a Câmara e justiças que a governam, como se declara no interrogatório antecedente, com o que esta se responde.

18. Desta vila há notícia (o) Senhor (?) Domingos Nogueira de Araújo, dela natural, que faleceu desembargador na Relação da cidade de Lisboa; o Doutor José Soares de Faria, médico de boa nota; e Paulo de Barros, sargento-mor da Infantaria paga, que faleceu com grandes e muitos serviços que, em campanhas e ferros, fez à coroa deste regimento; e, presente, o Tenente, como parte do Regimento de Dragões, (é) residente na cidade de Évora, Manuel Nunes Silvestre.

19. Há, no sítio da Real Obra, junto a esta vila, uma feira cativa em dia do Apóstolo Santo André, orago da matriz e colegiada desta dita vila, que dura até ao dia seguinte e, no terceiro Domingo do mês de Julho, outra feira, três dias franca por procuração régia, no lugar da Murgeira, junto à ermida de Nossa Senhora do Monte do Carmo e Santo António do dito lugar, em cujo Domingo se costuma fazer a festa principal da mesma Senhora; em ambas estas feiras, principalmente na de Santo André, há ocorrência grande de gente e de mercadores de diferentes géneros de fazendas e mercadorias, gados e bestas e mais criações que vêm a vender à dita feira, e um grande número de ourives.

20. Há nesta vila correio que chega à Segunda-Feira de manhã e parte, no mesmo dia, ao jantar; torna à Sexta-Feira e parte ao meio-dia.

21. A cidade capital deste patriarcado é a de Lisboa, capital do Reino, e dista esta vila da dita cidade, cinco para seis léguas.

22. É esta vila antiga como já fica dito no interrogatório décimo sexto, com os foros e privilégios que a estes se costumam dar para o seu governo, e não memória de outros alguns.

23. É esta vila e seu termo abundante de águas, todas boas, e de salutíferos ares de soda que, como as ditas águas e ares, terem remediado muitas queixas e, por esta causa, algumas pessoas de distâncias e sinos, para as remediarem e recuperarem a saúde, têm vindo a suster por alguns tempos nesta vila, em que actualmente se acham algumas por esta razão.

24. Suposto o termo desta vila confine pelo Poente com o mar, como se declara no quinto interrogatório, lhe fica este na distância de uma légua, sem que tenha porto em que saiam embarcações.

25. É, esta vila, aberta sem muros ou castelo de que se defenda (7).

26. No terramoto do primeiro de Novembro de 1755 que, com grande ímpeto e veemência se sentiu nesta vila e termo, houve algumas ruínas ainda que não foram tamanhas como aconteceu por outras partes, sendo a maior a que padeceu a matriz e colegiada desta vila, a que logo se acudiu e se acha totalmente reparada e, as mais particulares, suposto também se acharem recuperadas a maior parte delas, ainda restam outras em alguns edifícios que se acham quase da mesma sorte que os deixou o dito terramoto, no qual, em toda esta vila e termo, não pareceu nem perigou pessoa alguma, sendo, neste sentido, uma das terras mais bem livradas.

27. Não há nesta vila coisa mais alguma que notável seja e, por isso, aqui se não descreve nem, tão pouco, serra ou rio digno de se referir, que por essa causa se não expõe, havendo assim por respondido aos interrogatórios que ficam em meu poder.

Mafra, o primeiro de Abril de 1758.

O Padre Francisco Gonçalves Vigário de Mafra

 

NOTAS

(1) Ao contrário do que o vigário declara, Mafra teve senhorio particular no séc. XII (diocese de Silves) e, a partir do séc. XIV, foi da família Aboim e, posteriormente, da família dos Sousas de Pombeiro.

(2) Actual Muchalforro.

(3) Localidade não identificada.

(4) Actual Samouqueiro.

(5) Habitantes.

(6) Correctamente seria João XXI.

(7) Ainda persistem vestígios da antiga muralha do castelo da Vila e, no séc. XIX, existia até um dos seus pórticos de entrada.