Memória dos seis Raios - D. Joaquim da Assunção Velho


Observações Físicas por ocasião de seis raios, que em diferentes anos caíram sobre o Real Edifício junto à vila de Mafra

 

D. Joaquim da Assunção Velho

 

A natureza e propriedades da matéria eléctrica, em que tanto abunda este nosso Globo, e que é princípio tão extenso de tantos, e tão admiráveis efeitos, é ainda um dos interessantes objectos dos exames e indagação da ciência da natureza. Os fenómenos da Electricidade quanto mais se multiplicam, mais se admiram, deixando-nos contudo bastante escuridade, e confusão para não a podermos distinguir, e conhecer completamente. Como porém o único meio que nos resta para adiantarmos nesta matéria os nossos conhecimentos, e a observação, e o exame dos efeitos que ela nos apresenta, devemos não deixar em esquecimento aqueles que por novos, e singulares, podem concorrer para este fim. Este Edifício de Mafra nos oferece este género, alguns fenómenos desta ordem, e que nos podem dar ocasião a algumas reflexões úteis.

Uma descrição miúda, e circunstanciada da parte do Edifício, que pode ter alguma relação com a electricidade das nuvens: os factos desta electricidade nos raios que sobre ele têm caído; e algumas reflexões, que me pareceram interessantes, completarão toda esta memória.

Este grande, Real e magnífico Edifício junto à Vila de Mafra, assenta num terreno mais alto que a superfície do mar 681 pés (1) o plano deste Edifício, é um quadro quase regular de mil palmos (2) de lado: a elevação da obra até à platibanda dos espaçosos terraços, é de 120 palmos: os corpos que se elevam acima dos terraços, são os dois torreões, as duas torres, e o zimbório: estes cinco corpos ornam a fachada do poente, que é a principal do Edifício. Os dois soberbos torreões sobem acima do plano dos terraços até à altura de 100 palmos, são inteiramente de cantaria, não têm metal algum na sua construção, e acabam num pequeno ornato de pedra. O formoso zimbório é igualmente de cantaria; a sua elevação acima dos torreões é de 177 palmos, e acaba numa cruz de bronze com o varão de ferro, que a sustenta, e com os seus outros ornatos, pesa 200 arrobas (3): a mais quantidade de metal que está espalhada, e desligada por toda a cúpula, e a lanterna chega a 800 arrobas. Porém toda esta quantidade de metal, está espalhada, e desligada por toda a extensão do grande zimbório, sendo a maior porção junta, a da cruz já mencionada. As duas grandes e formosas torres, elevam-se acima do plano dos terraços 194 palmos: a sua construção é também inteiramente de cantaria, e acabam numa cruz de ferro, que sobe além da última pedra das suas cúpulas 33 palmos. Esta cruz com os ornatos que lhe pertencem, pesa 226 arrobas: em cada uma das torres há por um cálculo diminuto 14.500 arrobas de diferentes metais: esta enorme quantidade de metal, está toda repartida, e comunicada do modo seguinte.

O grande varão de ferro que enfia a cruz e mais ornatos, em cada uma das torres, passa ao interior da cúpula, e é aí atarracado por uma larga chapa de ferro, esta chapa divide-se em quatro faixas, que descem pelos quatro cantos da cúpula, até encontrar uma forte grade de ferro, que liga o corpo quadrado da torre, em que assenta a cúpula: sobre esta grade e nuns valentes cachorros de bronze, descansa uma grande trave de ferro de 20 palmos de comprido, palmo e meio de alto e três quartos de palmo de largo, dividindo ao meio o alto da torre. Nesta trave está suspenso o sino que soa as horas, o qual por si só pesa 800 arrobas. Por baixo deste sino, na distância de algumas polegadas, fica uma espécie de andaime formado de grossas traves de pau cavilhadas, e chapeadas de ferro, e cobertas de chumbo. Os dois sinos dos quartos estão logo por baixo deste andaime, suspensos numa trave também de ferro, e de volume igual àquela que sustenta o sino das horas. Cada um destes sinos tem o seu martelo, de peso proporcionado, o que bate as hora pesa 20 arrobas. Estes martelos são puxados por três grossos arames de ferro, que atravessando os andares das torres acabam no mais inferior, onde prendem no admirável jogo dos relógios. Por baixo dos dois sinos, que soam os quartos, estão dispostos em quatro ventanas 6 sinos. A distância que há nas bordas inferiores destes sinos de umas a outras, é de dez palmos, e os arames que puxam os três martelos das horas, e dos quartos, passando encostados a um ângulo das torres, distam cinco palmos dos dois sinos, que lhe ficam ao lado. Os nove sinos deste superior andar das torres, as duas traves de ferro, a grande chapa, cruz, e seus ornatos, pesam juntamente 4.500 arrobas.

O segundo andar é um confuso tecido de sinos, badalos, martelos e arames. Os sinos são 48, dispostos pelas ventanas, e no interior das torres suspensos em grossas vigas de pau chapeadas. O primeiro sino na grandeza, pesa além da porca e ferragens 666 arrobas, os outros vão diminuindo no volume, e peso, conforme é preciso para fazerem a admirável consonância, que se experimenta quando tocam os relógios e carrilhões. Cada um destes sinos tem além do badalo, dois, três e quatro martelos de peso proporcionado. Todos estes badalos e martelos estão ligados com arames de latão, mais ou menos grossos, que vão prender nos diferentes jogos dos relógios e carrilhões. Os 48 sinos deste andar com as suas porcas, ferragens, e badalos, com 144 martelos, dos quais muitos de muitas arrobas, com mais de 200 grossos e compridos arames, com um sem número de molas, chapas, etc. pesam, segundo a mais exacta averiguação, 7.000 arrobas.

De todos os martelos deste segundo andar descem arames, que vão prender nos chamados papagaios, ou teclas, no admirável jogo dos relógios, que assentam no andar inferior das torres, no plano dos terraços. O grande jogo destes relógios, representa um ordenado montão de bronze, aço e ferro, que quanto mais se examina mais se admira, até pela magnífica superfluidade da sua riqueza e ornatos. Toda esta máquina se move, puxada por três grandes pesos de chumbo, que equivalem a 650 arrobas. Estes três pesos puxam outros tantos grossos calabres de linho cânhamo, descendo por duas calhas até o inferior das torres. Neste andar é mais difícil calcular o peso dos metais, por serem todas as peças deste admirável jogo diferentes e de figuras irregulares, contudo na presença ninguém duvidará que este andar contenha até 3.000 arrobas de metal.

Consta desta descrição: 1º que as duas torres são os corpos mais elevados deste grande Edifício, subindo acima dos terraços quase 200 palmos; 2º que cada uma das torres encerra em si 14.500 arrobas de metal; 3º que esta enorme porção de metal, está toda ligada e comunicada entre si; 4º que o zimbório é menos elevado que as torres; 5º que a porção de metal no zimbório não passa de 800 arrobas e que este metal está todo desligado e separado.

Estes resultados hão-de ser atendíveis nas reflexões que se seguem aos factos que vou a expor.

Desde o ano de 1717 em que se assentou a primeira pedra deste Edifício, até ao presente de 1786, têm caído sobre ele 6 raios, de que pude alcançar notícia certa. Existem ainda hoje nesta terra algumas pessoas que se lembram de todos estes raios, ainda que perderam inteiramente a lembrança do ano e dia dos três mais antigos. O primeiro caiu ainda muito no princípio da obra, no sítio que serve hoje de Capela do Sacramento, e matou um homem dos que aí trabalhava. O segundo caíu sobre a torre do Sul já depois do ano de 1731, não fez outro estrago mais do que abalar muito pouco algumas lajes do pavimento, em que assenta e se crava o jogo do relógio. O terceiro caiu sobre a mesma torre. Deste pude alcançar notícias mais individuais, porque achei ainda neste Mosteiro pessoas, que bem a seu pesar, estavam na torre quando foi acometida. Numa trovoada desfeita junto à meia-noite, estavam repartidos nas duas torres dezasseis Donatos dos Reverendos Padres da Província da Arrábida, antigos habitadores deste Mosteiro. Estes Donatos faziam dobrar todos os sinos do andar superior das duas torres, com o fim de afugentarem os raios, segundo o antigo prejuízo. Na torre do Sul estavam 8 Donatos, neste penoso e então perigoso exercício. Passou a este tempo a nuvem electrizada e fez a sua explosão sobre a torre com um clarão e estampido horrível. Imediatamente se viram os pobres Donatos cercados de fogo e acometidos por largas e compridas espadanas do mesmo fogo, que saía das bordas inferiores dos sinos, que eles largaram logo, precipitando-se em confusão pela escada da torre abaixo, um só caiu assombrado, porém sem outro dano. A torre ficou inteiramente ilesa, e o raio se consumiu todo nos seus metais.

O quarto, e mais notável pelo seu estrago, caiu no zimbório a 18 de Fevereiro do ano de 1765, pouco depois das seis horas da tarde. O trovão e relâmpago que acompanharam este raio foram horrorosos, até ao ponto de derrubar algumas pessoas que a esse tempo passavam pelas praças que cercam o Edifício. A sua actividade parecia incrível, a não se demonstrar pelos seus efeitos. A formosa e grande lanterna é a parte do zimbório que sofreu todo o seu ímpeto. Esta peça não caiu, porém ficou inteiramente danificada. Eu ainda cheguei a ver e observar este estrago antes que se reparasse a cruz, os seus ornatos e a grande pedra que coroa a lanterna ficaram intactas. Esta pedra é inteiriça e é atravessada em toda a sua grossura pelo varão de ferro que sustenta a bola, cruz e mais ornatos de bronze. Desta pedra para baixo não pude descobrir uma só outra em toda a lanterna que não ficasse, ou fora do seu lugar, ou aberta e lascada ou feita em migalhas, ou tudo juntamente. Parecer-me-ia impossível se não visse, que uma peça tão destroçada e despedaçada se sustentasse, conservando o seu prumo. As lascas, que pelo vão da grande cúpula caíram na Igreja, carregaram depois vinte carros, quando foi preciso limpar aquele entulho. Algumas pedras de muitas arrobas foram despedidas com tal força que saltando os terraços, caíram muitos centos de passos longe do Edifício. Depois deste estrago na lanterna, o resto do raio visitou toda extensão da grande cúpula, deixando sinais bem sensíveis da sua presença em muitas pedras lascadas e chamuscadas e no sem número de vidros que despedaçou, em todos os grandes caixilhos que são de ferro. Daqui espalhou-se por toda a igreja e nos lugares mais distantes deste espaçoso Templo se acharam os seus efeitos, maiores ou mais pequenos: na Capela Mor e na do Sacramento, que então era no Cruzeiro, consumiu os fios de metal que ornavam as borlas, que pendiam dos fundos das 14 lâmpadas que alumiavam estes dois altares. Uma grande vela de uma grande tocheira que estava no pavimento da Capela Mor, saltou com ímpeto do cachimbo que a segurava. Como a Igreja estava deserta a este tempo, nenhuma pessoa perigou neste terrível fenómeno (4).

O quinto caiu na torre do Norte no ano de 1772, a 4 de Dezembro, pelo meio da tarde. A trovoada era forte e iminente: alguma curiosidade me levou a uma janela do Mosteiro, onde julgando-me em segurança podia observar bem as duas torres e o zimbório. Já nesse tempo se tinha passado ordem para que se não tocassem os sinos por ocasião de trovoadas. Esta novidade foi desagradável ao povo e neste dia se lhe fez sumamente pesada. Dois oficiais desta obra que ainda hoje aqui existem, levados de um zelo indiscreto, introduziram-se na torre do Norte, ajustados a dobrar o sino chamado de Santa Bárbara. Não tinham tocado meio quarto de hora, quando uma nuvem electrizada descarregou sobre a torre o raio. Eu vi distintamente romper-se a nuvem e acometer a seta de fogo o mais alto da torre. O sino parou imediatamente e a sorte dos que o tocavam me assustou e consternou. Procurando mandar-lhe algum socorro, achei que tinham descido por seu pé e me atestaram que se viram cercados de fogo, como se a torre toda por um instante se inflamasse. Porém que não sentiram em si outro algum efeito mais, do que o de um grande susto e perturbação. Visitei e examinei no outro dia a torre, não achei nela novidade alguma que parecesse efeito do raio.

O sexto foi de todos o mais notável, por ser duma força extraordinária, pelo estrago que fez não só no Edifício, mas nas pessoas que se acharam no seu alcance e pela circunstância de acometer a Igreja ao tempo de uma acção solene, em que a Capela Mor estava cheia de ministros e o grande Cruzeiro de numeroso povo. Num Domingo, 19 de Março deste presente ano de 1786, dia de S. José, justamente ao tempo que dobravam numa torre quatro grandes sinos e repicavam outros tantos na outra fazendo o último toque solene para Vésperas, estando já juntos no coro em comunidade oitenta Cónegos, principiando esta hora com a solenidade competente, segundo a ordem do dia, achando-se já no Cruzeiro quase 200 pessoas das que vinham concorrendo para o sermão, que devia seguir-se às Vésperas. Justamente nestas circunstâncias, uma nuvem negra, espessa e muito rasteira, puxada por um tempestuoso vento de NO., fez a sua explosão em distância considerável do Edifício, por cima do meio da praça que lhe fica ao poente, e despediu juntos dois raios em direcção oblíqua à torre do Sul, com um trovão e estampido horroroso. A gente que vinha ao largo caminhando para a Igreja, viu distintamente romper-se a nuvem e disparar juntamente com duas setas de fogo e acometerem ambas a mesma torre, entrando uma pelo mais alto dela e a outra por um grande arco, que lhe fica debaixo. Esta mudou aí de direcção, buscando um grande cancelo de ferro que fecha o átrio da Igreja. Estalou e arrancou ao pé deste cancelo algumas lajes e lascou uma pequena porta. No alto do cancelo partiu e afastou uma pedra em que descansa a verga de ferro do mesmo cancelo. Junto a esta verga fica a fresta da calha por onde sobem e descem dois grandes pesos de chumbo, que puxam o jogo do relógio, por meio de dois grossos calabres de linho cânhamo, e esta algumas horas depois, exalava um fétido bem característico do raio. Por aqui julgo se comunicou acima à torre, juntando a sua actividade àquela do raio que ao mesmo tempo a acometeu pelo alto. A cantaria, e madeiramento da torre ficaram ilesos, os três grossos arames que puxam os martelos dos quartos e das horas, quebraram no mais alto junto aos anéis. Quebraram muitos dos outros arames, e outros saltaram fora dos seus lugares: nove homens que dobravam os sinos viram-se cercados de fogo, porém não tiveram outro mal que o de um grande susto.

A matéria que se não pode cevar e absorver nos metais da torre, dirigiu-se para uma escada, que dá serventia à mesma torre. Quebrou a porta desta escada, que por estar aberta se encostava sobre peças de metal. Demoliu e despedaçou quinze degraus de pedra desta escada, arrombou uma forte parede de cantaria ao lado da escada, partiu ao meio quase de alto a baixo uma coluna da ordem composta de 32 palmos de alto, que se encostava a esta parede, abalou e afastou dos seus lugares pedras de peso enorme. Contíguo ao lugar deste estrago fica o terraço que cobre as Capelas do corpo da Igreja. Este terraço é forrado de chapas de chumbo por entre a abóbada e ladrilho em toda a sua extensão. No lugar do estrago saltaram as pedras e tijolos, que cobriam esta chapa, e junto das grandes janelas, que dão luz para o cruzeiro da Igreja, estão também estalados e arrancados os tijolos, até se ver a chapa. Os caixilhos destas janelas são inteiramente de ferro. Neles o raio moeu e fez em pedaços todos os seus vidros e por eles entrou na Igreja.

Neste espaçoso lugar tomou diferentes direcções: viram-se passar faíscas por muitas partes e nos lugares mais distantes ficaram sinais certos de ter aí chegado. O povo que estava espalhado pelo grande Cruzeiro, foi acometido por diferente modo e força: cinco homens e uma mulher ficaram prostrados, de sorte que, por muito tempo, se não puderam suster de pé; três homens que estavam sentados num banco foram arremessados ao chão por impulso do mesmo banco, todos estes ficaram mais ou menos ofendidos em alguma parte do corpo e muitos tiveram parte dos vestidos chamuscados. A cena no Coro foi a mais trágica. Viu-se distintamente entrar uma faísca na direcção do grande lampadário do altar mor, que é de ferro e bronze. Dois Cónegos dos paramentados com pluviais inteiramente de seda, que estavam no plano do Presbitério imediatamente por baixo do lampadário, foram feridos por uma faísca, que daí saltou e que os fez cair de costas sobre os degraus do Presbitério. Um deles ficou mortal e passou mais de um quarto de hora primeiro que desse sinais de vida e só depois de 24 horas é que tornou a si inteiramente. Os seus ornamentos e vestidos ficaram intactos, menos o sapato do pé direito, que teve o talão todo despedaçado. A cara e mais corpo deste Cónego ficaram muito queimados: o lado direito, e as costas, tinham vergões e listas como se tivesse sido assado numas grelhas; uma cura bem dirigida lhe conserva a vida e o vai restabelecendo. O outro não chegou a perder os sentidos. Foi acometido pelas pernas, em que lhe faltou inteiramente o vigor. Achou-se queimado na curva da perna esquerda e junto ao sangradouro do braço direito. O sapato do pé esquerdo ficou rasgado desde a pala por todo o comprimento do pé. Nas duas mangas da véstia e túnica do braço direito, no lugar correspondente à queimadura, havia um pequeno buraco crestado em roda, como se fosse feito, por um arame em brasa. O primeiro destes Cónegos é de estatura bastante alta, estava muito próximo a uma das lâmpadas, de onde lhe saltou a faísca. Esta lâmpada apagou-se e ficou como crestada num pequeno ornato por onde despediu a faísca. Os vestidos destes dois Cónegos e a mesma carne ofendida exalavam um fétido e fartum eléctrico, sumamente activo e sufocante. Em toda a Igreja e em todas as mais pessoas que foram tocadas, ou no corpo, ou nos vestidos, continuou por muito tempo este fartum. O pavimento de mármore que correspondia aos pés destes dois Cónegos, ficou com alguns pequenos buracos e duas alcatifas que cobriam o Presbitério foram aí mesmo retalhadas. Toda a mais Comunidade ficou mais ou menos assombrada, quase todos os Cónegos da parte da Epístola, sentiram algum mau efeito.

Consta de todos os factos que acabo de referir: 1º que no espaço de 60 para 70 anos tem sido este Edifício de Mafra acometido 6 vezes pelos raios; 2º que estes raios têm sempre aí procurado os corpos mais elevados; 3º, que têm sempre buscado e seguido os metais, com preferência a outro qualquer corpo.

Este Edifício de Mafra tem sido ferido pelos raios 6 vezes no espaço de 60 para 70 anos. Não será fácil achar em todo Portugal um só Edifício, que dentro deste tempo tenha padecido igual número destes desastres. Mas também é certo que nenhum outro está igualmente exposto a estes casos: a grande elevação do terreno em que assenta este Edifício, o muito que as suas torres sobem pela atmosfera acima, a enorme quantidade de metal que em si encerram, são disposições singulares, naturais e as mais próprias para desafiar os raios das nuvens. Neste caso é sumamente receável que toda a nuvem electrizada que passar iminente, ou muito próxima do Edifício despeça sobre ele os seus raios, o que não sucede sempre, nem ainda com frequência nos outros que não estão nestas circunstâncias. Esta diferença notável não pode ser atribuída à disposição particular do sítio: o distrito de Mafra tem muitos edifícios, contam-se dois até três, que foram feridos uma vez pelos raios. As minhas observações metereológicas dão dez, até doze trovoadas no ano, e em poucos há mais de duas próximas. As iminentes são muito raras. No espaço de 15 anos em que habito este Mosteiro ainda aqui não houve uma só estacionária: donde se segue, que este sítio não pode ser notado de tempestuoso e sujeito a trovoadas. As disposições próprias do Edifício e principalmente as suas torres têm toda a influência nestes casos. Este Edifício é bem comparável ao da Catedral de Santo Estêvão em Viena de Áustria. Aí a torre domina excessivamente não só a Igreja, mas toda a Cidade. A altura desta torre é de 434 pés (5) de Viena, o que dá em palmos quase 650, o fecho da torre é uma muito aguda pirâmide cónica, que com o seu ornato faz quase metade da altura. Esta torre encerra também em si uma grande porção de metal, além do grande e magnífico ornato de uma dobrada Águia, e de uma dobrada Cruz de bronze dourada, que sai muito acima da última pedra da torre. Há na parte superior e central da pirâmide uma grossa barra de ferro de 63 palmos de comprido, que firma o ornato e liga as grossas cintas de ferro, que de espaço a espaço seguram a ponta da pirâmide. Esta torre é acometida dos raios frequentemente: contam-se poucos anos, em que não tenha algum desastre. No ano de 1776, a 2 de Julho, caíram sobre ela dois raios, em menos de um quarto de hora; e em 1782, a 2 de Junho, três dentro do mesmo tempo. Esta torre excede em altura às de Mafra, mais do dobro; em Viena de Áustria há trovoadas, mais frequentes, mais fortes, e mais importunas que em Mafra. Se esta razão é o excesso de frequência de raios, que aquela torre tem sobre estas. Mas que efeitos funestos não faz recear este triste exemplo sobre as torres de Mafra e ainda sobre todo o Edifício? Desgraçadamente os seis factos já referidos confirmam o quanto este receio é bem fundado.

Os raios neste Edifício de Mafra têm sempre procurado os corpos mais elevados, as torres, o zimbório, este facto não é particular em Mafra. Todas as observações que temos sobre os raios dão esta preferência decidida aos corpos mais altos. A torre de Santo Estêvão em Viena de Áustria, de que acabo de falar, é talvez o Edifício mais elevado que se conhece na Europa, mas é também o mais frequentado e perseguido dos raios. O grande zimbório de S. Paulo e a torre de S. Marcos em Veneza, a torre da cidade de Siena e outros muitos corpos excessivamente altos e como insulados na atmosfera, são frequentemente feridos pelos raios na razão da sua elevação e do concurso das trovoadas naqueles sítios. As torres de Mafra, então indisputavelmente na ordem destes corpos, por isso é bem natural, que participem de uma preferência tão temível nas visitas dos raios. Um incidente casual, pode neste ponto dar alguma excepção. O zimbório neste Edifício está muito chegado às torres, é muito menos elevado que elas e contém muito menor porção de metal. Contudo, foi ferido pelo raio, com preferência às torres, este facto pareceu-me à primeira vista não concordar bem com a teoria conhecida da electricidade, as cruzes das torres por isso mesmo, que são mais elevadas, deviam primeiro entrar na atmosfera da nuvem electrizada, a porção de metal das torres, toda ligada e comunicada e excessivamente maior que a do zimbório, devia oferecer ao raio um meio diferente e absorvente mais próprio e preferível. Porém, eis aqui uma circunstância, que explica plenamente a dificuldade. Este raio caíu sobre o zimbório um quarto de hora depois de se acabar a função do segundo dia das 40 horas, que nesse ano ano foi o de 18 de Fevereiro. Em semelhantes funções ardem todo o dia na Igreja muitos centos de luzes, de tarde há um concurso numeroso de povo, e por muitas horas só a Comunidade dos Padres Arrábidos constava de 300 para 400 pessoas. Todo este concurso com grande número de luzes devia produzir uma extraordinária rarefacção no ar e obrigá-lo a sair com ímpeto por qualquer abertura que achasse. Ora em toda a Igreja não há passagem livre para o ar senão pelo alto do zimbório, este ar pois comprimido dentro da Igreja pela rarefacção, achando na saída um ar notavelmente mais denso e carregado, devia produzir um jacto pela atmosfera acima muito além das cruzes das torres. A nuvem electrizada passou justamente ao tempo em que acabavam de fumegar centos de murrões de velas e tochas apagadas. Este fumo misturado com o ar, juntamente com a imensa transpiração que acabavam de produzir tantos corpos, devia formar uma coluna de partículas bem capazes de conduzir o raio e de lhe oferecer caminho muito primeiro, que o mais alto do das torres.

Não é contudo certo, que todos os raios que houverem de cair sobre este Edifício hajam de procurar sempre as torres. Este Edifício é muito vasto e extenso para se lhe poder prometer esta segurança, o lado do nascente dista das torres mais de 900 palmos e há aí alguns corpos elevados. Não é possível determinar a distância à qual um corpo insulado e de uma dada elevação, ainda sendo um bom condutor, estende a sua virtude preservativa sobre aqueles a que domina: a grandeza da nuvem, a sua distância, o seu movimento, a quantidade de electricidade de que é carregada são circunstâncias tão variáveis, que fazem impossível fixar este ponto. Nas trovoadas há algumas vezes nuvens tão carregadas, que ao romper-se despedem dois e mais raios e estes recebem com a explosão diferentes direcções. O raio de 19 de Março proximamente passado, foi desta espécie, o seu estrago seria muito mais considerável se o movimento da nuvem viesse do nascente e encontrasse primeiro a face do Edifício desse lado. A nuvem vinha muito rasteira, é natural que fizesse a explosão sobre os primeiros corpos que aí lhe ficavam no alcance e não sendo estes capazes de absorver e consumir o raio, ou de o conduzir sem dano ao interior da terra, toda a sua actividade se empregaria em destruir e demolir o Edifício.

Estes raios buscaram e seguiram sempre os metais com preferência a outro qualquer corpo: os três primeiros que caíram nas torres, são disto uma prova bem patente e incontestável. Todos sabemos o quanto um raio na sua primeira força arruína, despedaça e destrói as cantarias, os madeiramentos e os corpos humanos; tudo isto se acha nas torres fazendo um só corpo com os metais. Mas por beneficio deles tudo fica ileso em três raios sucessivos: a matéria eléctrica destes raios de tal sorte preferiu os metais, que neles se entreve e consumiu inteiramente. Estes factos são particulares nestas torres, pela singularidade de conter cada uma em si um recheio de 14500 arrobas de metal todo ligado e unido, o que se não acha certamente em outra alguma peça de Edifício. Este grande recheio das torres vem a ser a respeito do raio um receptáculo, ou depósito natural, que absorve, enfraquecendo a sua actividade na razão em que o divide. E quanto não prova isto mesmo a teoria e utilidade dos condutores eléctricos? Um condutor consta de uma simples barra de metal firme no mais alto do Edifício; de uma cadeia também de metal, que prendendo no pé da barra continua sem interrupção até entrar num grande lago, num poço, ou no interior da terra na camada onde é perene a humidade, o que propriamente não é outra coisa mais que um todo disposto a oferecer caminho natural ao raio e a conduzi-lo a uma substância própria para o receber e absorver e consumir. Ora os metais e a água são indubitavelmente os mais próprios para este fim. Eis aqui justamente o que faz cada uma das torres. As suas cruzes 33 palmos mais elevadas que as últimas pedras, apresentam ao raio um corpo em que naturalmente se ceva, e para que tem uma tendência decidida e incontrastável, a grande porção de metal que há no interior das torres faz com as cruzes um todo ligado e não interrupto, aqui temos por uma singular casualidade um verdadeiro condutor, ou mais propriamente um depósito, ou sumidouro dos raios.

Contudo a grande porção de metal em cada uma das torres não é ainda bastante para todos os casos do fogo eléctrico: este fogo aumenta-se e acumula-se nas nuvens até um ponto que não podemos ainda determinar: há trovoadas que disparam globos de fogo de uma actividade imensa. Para estes casos de que temos tristes exemplos, não é suficiente um condutor, ou absorvente limitado: 14500 arrobas de metal bastam para entreter e confundir um raio ordinário e de pouca força, como provam os três factos de que falo; porém, esta mesma porção já não é suficiente para um raio multiplicado, ou para um meteoro de maior força, como experimentámos no facto de 19 de Março proximamente passado. Seria felicidade para o Edifício e para os feridos neste triste desastre, se as duas torres estivessem ligadas e comunicadas por algum meio metálico; nesse caso uma dobrada porção de metal seria suficiente para entreter e absorver um dobrado raio; mas na presença do perigo é que mais lembram os meios de os evitar.

Os raios dos anos de 1765 e de 1786, não achando nos primeiros corpos que acometeram, porção bastante de matéria própria a absorvê-los e consumi-los, andaram mais caminho, seguiram diferentes direcções e saltaram de uns corpos a outros de distância consideráveis; porém em todos estes passos buscaram sempre os metais, com preferência aos outros corpos. O de 1765 descendo pela grande coluna de fumo e vapores, etc., que lhe preparava o caminho para o zimbório, acometeu esta peça pelo mais alto: a Cruz, e os seus ornatos e a grande pedra que fecha a lanterna ficaram ilesos; esta pedra é formada em pirâmide de 16 palmos de alto. Apesar de ter sido a mais exposta a todo o ímpeto do raio, não teve dano algum, ao mesmo tempo que todas as mais que por baixo dela formavam a lanterna ficaram sumamente destroçadas e despedaçadas. Mas esta pedra [que] faz a peanha da Cruz e mais ornatos é atravessada, em toda a sua altura, pelo grosso varão de ferro, que enfia a mesma Cruz, e ornatos; eis aí o que a livrou do estrago; eis aí também uma prova bem sensível da preferência que dá o raio aos metais sobre os outros corpos. Nesta pedra acaba a primeira porção de metal no zimbório, os grandes caixilhos de ferro tanto na lanterna, como cúpula, estão inteiramente separados e destacados: o raio os visitou todos e descendo ultimamente à Igreja aí se dividiu em dois ramos principais na direcção dos grandes cancelos do cruzeiro, destes saltou aos lampadários e daí, ultimamente, às banquetas e tocheiras dos altares.

O raio de 1786, que acometeu o alto da torre, seguiu o caminho já trilhado que lhe preparavam os metais comunicados e unidos: o que entrou pelo arco fez caminho novo dirigido pelo cancelo de ferro, que primeiro lhe ficou no alcance. A direcção com que este raio entrou no arco afastava-o do cancelo, porém, na sua presença, em distância de 15 palmos, mudou de rumo para o buscar por um ângulo quase recto: as lajes lascadas e estaladas ao pé, aos lados e no alto do cancelo são disto uma prova bem segura. Deste lugar até à altura do primeiro pavimento da torre não há estrago algum que seja próprio de um raio na sua primeira força, por essa razão julgo que o raio seguiu a calha dos pesos que fica próxima ao cancelo e que lhe oferecia 350 arrobas de chumbo e dois calabres de linho cânhamo, bastantemente molhados pela grande humidade desses dias, o fartum eléctrico que esta calha exalava ainda muitas horas depois, não é a menor prova de que o raio proferiu este caminho. Na passagem que fez o raio da torre para a Igreja mostrou ainda melhor o quanto o caminho dos metais é o seu próprio: fez um grande estrago na cantaria onde acabaram os metais, mas seguiu logo a chapa de chumbo que forra o terraço das capelas. Este terraço tem 137 palmos de comprido e 36 de largo, a chapa está entre a abóbada e ladrilho, fazendo um só corpo, junto ao lugar do estrago, no princípio do terraço e no fim dele junto às janelas do cruzeiro, estão alguns tijolos estalados e arrancados, em toda a mais extensão do terraço ficaram os tijolos tão firmes como estavam antes. Parece certo que se da torre continuasse, sem interrupção, alguma matéria metálica até à chapa, se pouparia o estrago na cantaria. O raio na Igreja dividiu-se visivelmente em muitas porções, todas as faíscas que que se viram correr dirigiam-se para corpos metálicos. O grande cancelo do coro, os lampadários e banquetas dos altares do cruzeiro e Capela-mor tudo foi visitado, até um pequeno apagador de latão, que estava separado e escondido por detrás de uma coluna das da Capela-mor, não escapou ao raio, calcinou nele e reduziu a pó branco o verniz preto de que estava coberto.

Estes factos e reflexões tão patentes e óbvias à sábia Comunidade que possui este Mosteiro a determinaram ultimamente a pedir a Sua Majestade o seu Real beneplácito para guarnecer todo o Edifício com os condutores eléctricos competentes, dignando-se Sua Majestade não conceder o beneplácito pedido, mas aprovar a obra. A mesma Comunidade em Cabido pleno unanimemente a determinou, encarregando-me a sua direcção e pronta execução. Eu terei a honra de apresentar à Real Academia uma descrição exacta e circunstanciada destas peças, logo que forem postas e executadas.

 

NOTAS

(1) A altura média do barómetro em Lisboa junto ao mar é p / 28, l / 2, d / 0, a mesma altura em Mafra é p / 27, l / 5, d / 5, a diferença entre estas duas alturas, calculada segundo o método de Mr. Luc dá longitude de 338.0 (25289,1) e longitude de 329.5 (25171,9), diferença: 00117,2 multiplicada por 6 = Pés 703,2. O calor médio em Mafra é 55 graus da graduação de Farenheit, o que corresponde quase a 10 da de Reaumur, descontando pois 22,6 de 703,2, restam 681,14.

(2) O palmo que mede esta obra, vale 82,26 de pé de Rei de Paris.

(3) A arroba vale 32 libras de 16 onças cada uma.

(4) Os quatro raios que acabo de referir, caíram ainda no tempo em que os Reverendos Padres da Província da Arrábida habitavam este Mosteiro; os dois que se seguem, são já depois que os Cónegos Regrantes o possuem por doação do Senhor Rei D. José I.

(5) Ingen-houz Professor em Gottingen, Nouvelles experiences ... de Physique, p. 69.