Ludovice, Arquitecto ou Capataz?


Outra questão não menos intrigante e polémica, apesar de geralmente havida por indiscutível, prende-se com a identidade do responsável ou responsáveis pelo plano do edifício tal como se nos apresenta, uma vez que dos três (porventura quatro) riscos sucessivamente aprovados pelo Magnânimo apenas o primeiro é imputável a Ludovice.

No nosso tempo, foi justamente Ayres de Carvalho quem primeiro duvidou da capacidade de Ludovice para empreender uma obra da envergadura da de Mafra, questionando uma atribuição que desde há cerca de duas centúrias se tornara quase consensual (19).

Já em pleno século XVIII Vieira Lusitano acusara Ludovice da usurpação do título de Arquitecto: "[...] E que da rústica esfera / De Fabro não excedendo / Contra a natureza o nome / Pode usurpar de arquitecto [...]" (20). Chegando mesmo a afirmar em carta remetida a Agostinho Ratti:

 

[...] Io quasi resto in Mafra perché l'aria se confà alla mia complessione, Di Mafra già ne avrete notizia, perché molti artefici v'hanno lavorato e si sono impiegati nel regio edifizio, che vi fere il re antecessore, dove un capo maestro genovese per nome Carlo Battista fu l'architecto che a lui se deve il buono che v'è perché il cognominato Federico che aveva il titolo d'architectto era di professione orefice e di nazione tedesca, che ciò basta per saperli di buon grado [...] (21).

 

De resto, o antigo director do Palácio Nacional de Mafra publica no D. João V e a Arte do seu tempo uma carta, datada de 22 de Junho de 1717, subscrita por António Rebelo da Fonseca em nome do Rei e enviada para Roma ao Marquês de Fontes, que conclui: "[...] e outrossim fica S. Magestade certo de que a planta de Thomaso Matey se aprefeiçoará muito com as direcções de VE. Sobretudo deseja muito S. Magestade ver a VE restituído a esta Corte" (22).

O desenho em causa relaciona-o Ayres de Carvalho com o do futuro edifício. Não obstante, ainda a 28 de Janeiro do ano seguinte D. João V decretava que fosse lavrada escritura referente à obra da Igreja e Convento de Mafra com o Mestre Pedreiro e Arquitecto Carlos Baptista Garvo, a qual obra seria executada "pela planta do Arquitecto João Frederico Ludovice" (23).

Qual, no entanto, a viabilidade de determinar em que consistiu exactamente essa planta, uma vez que não subsiste (salvo o das grades para as Capelas da Basílica do serralheiro francês Garnier) qualquer desenho arquitectónico que permita sustentar a evolução da traça do edifício (24)?

Duas possibilidades se deparam, pelo menos.

Em 1717 foram lançadas nos alicerces da basílica 12 medalhas (4 de ouro, 4 de prata e 4 de bronze) expressamente cunhadas, três das quais ostentavam numa das faces o prospecto da obra tal como então se encontrava projectada. Tais medalhas, de que se não conhece qualquer exemplar, foram descritas por Frei João de S. José do Prado (25), e por Frei Cláudio da Conceição. O texto deste cronista vale uma citação:

 

[...] a Imagem de Santo António colocada em uma nuvem sobre o Altar, e ElRei de joelhos diante dele, com as mãos levantadas, e na circunferência esta letra: In Coelis regnat, invocatur in patria. Da outra parte estava o sumptuoso Templo, que se lhe consagrava, mostrando na perspectiva duas altas torres nas ilhargas, no meio o zimbório, as portas do Templo para o Poente, e o Convento da parte esquerda, por assim estar nesse tempo delineado [...] na circunferência esta letra: Divo Antonio Ulyssiponensi dicatum. No pórtico do Templo se lia esta inscrição: Joannes V. Portugalei Rex mandavit Mafrae 1717 (26).

 

Dispõe-se ainda de outro documento que com bastante aproximação surpreende o conjunto Palácio-Convento delineado por Ludovice. Socorro-me na circunstância de uma estampa reproduzindo um medalhão (cerca de 3500 x 4600 mm), "pintado de claro escuro iluminado a ouro", que esteve exposto na Igreja de Santo António dos Portugueses, em Roma, quando da celebração ali das solenes exéquias de D. João V, ordenadas por seu filho e sucessor, D. José I (27).

 

 

A comparação com ela do esquisso de Ludovice, datável de 1715, o primeiro e único que sem contestação lhe pode ser atribuído, parece dar razão aos comentadores que descobrem paralelismos entre o seu programa para a Basílica de Mafra e o da Igreja do Gesú, em Roma, constituindo, porventura uma prova de gratidão pela protecção que a Companhia de Jesus lhe prodigalizara (28).

Será conveniente, ainda assim, apurar:

1. Por que razão e em que circunstâncias viu Ludovice a sua planta ser preterida por D. João V, ele próprio "[...] profundo sabedor de geometria, principalmente na parte que compreende a arquitectura civil e militar [...]" (29);

2. O motivo porque continuou a ser-lhe imputada uma paternidade que, apesar de não lhe caber, ele ou seus descendentes jamais enjeitaram (30).

Uma resposta plausível à segunda das questões enunciadas obtém-se por comparação com o que ocorreu relativamente à alegada autoria do projecto concretizado na Baixa Pombalina, demonstradamente concebido e subscrito por Carlos Mardel e, no entanto, até há poucos anos atribuído sem contestação a Manuel da Maia, supostamente por ser ele quem superintendia na equipa encarregada pelo Marquês de Pombal de erguer a nova Lisboa. Por outras palavras, os projectos de arquitectura, mesmo os saídos de ateliers contemporâneos, vinculam apenas quem detém o alvará e o prestígio que este confere!

No que concerne às circunstâncias da preterição da planta de Ludovice, tudo leva a crer possam estar relacionadas, com a chegada a Lisboa, proveniente de Roma, em Abril de 1718, do Marquês de Fontes com planos arquitectónicos ali gizados.

Tratar-se-ia dos planos definitivos para Mafra, como pretende Ayres de Carvalho (31)?

É improvável, porquanto, em Setembro de 1728, o monarca novamente decidia alterar (pela quarta e derradeira vez) o programa e as dimensões do edifício (32), provocando que os jardins da cerca do Convento, a que António Rebelo da Fonseca terá dado início por volta do mesmo ano de 1718, tivessem de ser arrasados (33).

Quando muito os desenhos trazidos de Roma terão originado aquilo que o botânico Merveilleux, o primeiro estrangeiro que teve a dita de observar a obra, descreve, em 1726:

 

[...] à direita do edifício [da Basílica] está um vasto palácio para o rei, família real e os grandes oficiais da corte, à esquerda há outro soberbo palácio para o patriarca e seus vinte e quatro bispos fingidos [...] (34).

 

E a quem atribuir tais desenhos?

Com bastante verosimilhança a Tommaso Mattei, o qual sob as directrizes do Marquês de Fontes e a colaboração de Carlos Gimac, terá aperfeiçoado um desenho de Carlos Fontana, arquitecto régio romano da Corte portuguesa (35).

Fica, todavia, por explicar como se chegou ao edifício definitivo.

Quase indubitavelmente adaptando as propostas apresentadas por Juvara para a Patriarcal que D. João V tencionara erguer no alto de Buenos Aires, na zona da actual Lapa, em Lisboa. Aliás, hipótese considerada por Brinckmann (36), depois perfilhada por Ayres de Carvalho e Bazin (37).

Entretanto, ao ourives da prata Frederico Ludovice sobrava a tarefa, mais competente para capataz que para Arquitecto (que efectivamente só logrou tornar-se por decreto régio de D. José I, de 11 de Setembro de 1750), de coordenar a actividade da Casa do Risco, debuxando plantas, perfis e ornatos e fiscalizando o andamento geral da obra Mafrense (38). De outra forma como é possível conciliar a sua alegada autoria com a contínua recepção de projectos e planos, provenientes de Roma, encomendados pelo Magnânimo ? (39)

 

NOTAS

(19) José Teixeira admite que "um manto polémico recobre a qualidade do seu préstimo na definição do programa arquitectónico de Mafra". J. F. Ludovice: as marcas da ourivesaria, in Actas do I Congresso Internacional do Barroco, v. 1 (Porto, 1991), p. 527.

(20) O Insigne pintor e Leal Esposo Vieira Lusitano, Lisboa, 1780.

(21) Bottari-Ticozzi, Lettere sulla Pinttura, Scultura, Architecttura, v. 6, Roma, 1767, p. 281-284. Citado por Pier Paolo Quieto, Ob. cit., p. 72.

(22) BN: cod. 157 da Pombalina, fl. 214.

(23) Ver instruções do contracto, Ayres de Carvalho, Ob. cit., II, p. 345-347.

(24) Robert C. Smith advoga, sem razão, a existência de um desenho representando a fachada Sul do Monumento de Mafra num portfolio proveniente da Academia de Belas Artes de Lisboa depositado no MNAA. João Frederico Ludovice, an eighteenth century Architect in Portugal, in The Art Bulletin, v. 18, n. 3 (Set. 1936), p. 311. As plantas, alçados, detalhes de capitéis e colunas, balaustres, etc., que o 4º Conde de Mafra, Tomás de Mello Breyner, garantiu ter visto nuns gavetões de uma arrecadação do Palácio Real, instalada na outrora Casa da Convalescença dos frades, e que ainda em Setembro de 1910 eram observados por D. Manuel, evaporaram-se por completo. Memórias [...], 1880-1833, Lisboa, 1934, p. 126-127 e Manuel J. Gandra, Mafra Barroca (Iconografia), Lisboa, 1989, nº 1.

(25) Monumento Sacro, Lisboa, 1751, p. 7.

(26) Gabinete Histórico, v. 8, Lisboa, 1820, p. 107-108. D. José de Castro, Ob. cit., baseado em documentos do Arquivo Secreto do Vaticano (Nunz. di Port., v. 74, fl. 186), afirma que de um lado da Basílica (com 300 palmos) se ergueria o convento e do outro o palácio real.

(27) Trabalho do pintor Ginnesi suspenso num dos arcos em que sustenta o zimbório (o do corpo da igreja fronteiro ao da capela-mor). Exéquias feitas em Roma [...], Roma, 1751, fl. XI, est. XIV [BN: HG 5795 A].

(28) E continuou a prodigalizar, segundo Yves Bottineau, através da corte da Rainha D. Mariana de Áustria, em cuja comitiva veio para Portugal o jesuíta alemão Antoine Stieff. Ver Le Gout de Jean V: Art et Gouvernement, in Bracara Augusta, v. 27, n. 64 (76), Actas do Congresso A Arte em Portugal no século XVIII, t. 2, p. 343. Robert Smith prefere explicar a escolha do projecto de Ludovice pela "constante imitação de S. Pedro". Ver Ludovice, an eighteenth century Architect in Portugal, p. 317.

(29) Barbosa Machado citado por Ayres de Carvalho, Ob. cit., v. 1, p. 45-46. Acrescenta ainda que "[...] eram perfeitos os planos que [o Rei] desenhava e regulares as praças que traçava". Corrobora-o o Marquês de Valença, D. Francisco de Portugal.

(30) Leopoldo Humberto Frederico Ludovice chegou a insurgir-se por carta contra as legítimas dúvidas de Ayres de Carvalho, suspendendo, por sua iniciativa, a assinatura do jornal O Concelho de Mafra. Ver número de Novembro 1958.

(31) Ob. cit.,  v. 2, p. 307.

(32) Cláudio da Conceição, Ob. cit., p. 143. Em Roma constava ser seu desejo que a Basílica tivesse as dimensões da igreja de Santo Inácio da Cidade Eterna. Arquivo Secreto do Vaticano: Nunz. di Port., v. 74, fl. 395v e 402; v. 75, fl. 189.

(33) Idem.

(34) Charles Frederic de Merveilleux, José Gorani e o Duque de Châtelet afirmam que o plano de Mafra fora "encomendado em Roma". Joaquim da Conceição Gomes equivoca-se ao garantir que o traçado fora modificado apenas nas fachadas laterais do edifício. Afirma que pelo ângulo reentrante que se vê em cada uma das faces laterais seria fácil conjecturar como ele ficaria se não tivesse havido alteração. Boletim da Associação dos Arqueólogos, n. 12 (1890).

(35) A opinião é partilhada, entre outros, por Ayres de Carvalho, ob. cit.; Yves Bottineau, À propos des sources architecturales de Mafra, in Arquivos do Centro Cultural Português, v. 19 (Paris, 1983), p. 39-48; Pier Paolo Quieto, ob. cit., sendo igualmente expressa no Catálogo Le Triomphe du Baroque, Bruxelas, 1991, p. 184. Ayres de Carvalho (Ob. cit., v. 2, p. 363) atribui a Canevari (em Portugal de 1728 a 1732) a "cenográfica perspectiva do alçado principal da fachada da Basílica de Mafra, em que avultam as altaneiras e barrocas torres que só um discípulo de Bernini ou Fontana poderia delinear. No ano de 1726 são enviados de Roma uma série de modelos dos seus edifícios mais significativos, encontrando-se entre eles a Igreja de S. Pedro e a Fonte de Bernini (A.C., II, p. 304 e I, p. 264). Através da correspondência remetida de Lisboa para Roma, em 1712, de Merveilleux e de Francisco Xavier da Silva, fica-se a saber que agradava ao Rei e aos seus próximos a leitura das descrições dos mais belos monumentos romanos, redigidas por Lázaro Leitão e Carlos Gimac, também responsável por desenhos, planos, miniaturas e modelos que se conservavam no Paço da Ribeira. Em 1725 o antiquário e académico das relações de Juvara, Ottoboni Francesco Bianchini, dedica a D. João V a Descrizione delle cose piú notabili che vedesi in Roma a comodo dei viaggiatori e Re del Portugallo a fatta di suo ordine.

(36) Filippo Juvarra, Milão, 1937.

(37) Respectivamente: Ob. cit., v. 2, p. 338 e Les Palais de la Foi: le monde des monastères baroques, Friburgo, 1980, v. 1, p. 120. Aurora Scotti não detecta qualquer influência do italiano em Mafra, afirmando que "com Mafra encontramo-nos nos antípodas das soluções juvarianas", não deixando, no entanto, de sublinhar os paralelismos entre a Roma Imperial e a Lisboa do seu plano. L'Attivitá di Filippo Juvara a Lisbona - alla luce delle recenti interpretazione critiche della sua architectura con una appendice sui rapporti Roma-Lisbona, in Colóquio Artes, s. 2, n. 28 (Jun. 1976), p. 57. Os esquissos de Juvara no Museo Civico de Turim foram publicados por Emilio Lavagnino, L' Opera del genio italiano all' estero gli artisti in Portogallo, Roma, 1940 e Giuseppe Fiocco, L' Influenza del Rinascimento e del Barroco italiano nell' arte portughese, in Relazioni Storiche fra l' Italia e il Portogallo: memorie e documenti, Roma, v. 18 (1940). Segundo João Baptista de Castro (Mapa de Portugal), D. João V desistiu do projecto na zona de Buenos Aires devido ao seu custo e ao tempo que demoraria a concretizar (30 anos). Acrescenta que o soberano deixara, como David, a seu filho a tarefa de edificar o Templo.

(38) ANTT: Decretos remetidos ao Conselho da Guerra, maço 110, nº 8. Publicado por Sousa Viterbo, Dicionário de Arquitectos, v. 2, p. 101. Pais da Silva assegura que, a partir de 1731, as obras de Mafra foram "dirigidas" por Ludovice e António Baptista Garvo (Convento de Mafra, in Dicionário de História de Portugal, v. 3, p. 884). O processo de habilitação do Santo Ofício de João Pedro Ludovice, datado de 1734, dá-o como dirigente das obras de Mafra desde 1730. José Fernandes Pereira considera Ludovice o "responsável pela planificação global do edifício", o elaborador "da grande síntese que lograria imprimir unidade ao conjunto das referências colecionadas pelo Rei". Arquitectura Barroca em Portugal, Lisboa, 1986, p. 198 e 218-219.

(39) A correspondência trocada entre José Correia de Abreu e Frei José Maria da Fonseca e Évora revela que a demora de informações "tem atrasado muito o adiantamento da obra" (Carta de 6 Outubro 1729). Numa escritura de 22 Dezembro 1731 (celebrada com António Baptista Garvo e Manuel Antunes Feio) é ainda contemplada a hipótese de as obras já realizadas poderem vir a ser alteradas em função de novas providências.