João Jorge de Carvalho


João Jorge de Carvalho

 Gaticanea, ou Cruelíssima Guerra entre os Cães e os Gatos, decidida em uma sanguinolenta batalha na Grande Praça da Real Vila de Mafra

 

[...]

Nasci na régia Mafra, a mais famosa,

Que de Apolo circunda a luz formosa,

Não somente por sua antiguidade,

Mas também pela rara majestade

De seu grande edifício, que primeiro

Tem lugar entre os mais no mundo inteiro.

 

Ele tem quatro frentes, ou fachadas,

Com janelas tão grandes, e rasgadas,

E feitas com tal arte, que por belas

Um pórtico parece qualquer delas.

 

Em duas ordens postas em redondo

Tão bela perspectiva vão compondo,

Que na primeira vista o palmo ordena,

Que nem as louve a voz, nem pinte a pena.

Tal comprimento tem qualquer dos lados,

Que os grandes Canzarrões  mais alentados,

Vistos dum no outro extremo mais, ou menos,

Cachorrinhos parecem muito pequenos.

 

No frontispício, a bela arquitectura

Brilha com tão distinta formosura,

Que julgo ter, (e nisto bem me fundo)

Maravilha maior de todo o mundo.

 

As ordens tosca Dórica, e Composta,

A Jónica, a Coríntia bem disposta,

Tudo se vê com gosto executado

No grão mais singular, mais levantado.

 

Colunas de grandeza portentosa

No pórtico maior a vista goza

Nas três portas soberbas, que na entrada

A perspectiva formam da fachada.

 

Mil estátuas de mármores, polidos,

O chão todo em xadrez com embutidos,

As torres, que nos lados vão subindo,

Mil sinos pelos ares retinindo,

Que sendo por mão desta ali tocados,

Os minuetes foram bem treinados.

Distinguem-se também nesta fachada,

Por maravilha grande, e sublimada,

Dois grandes torreões, que na grandeza

Outros não têm a vasta redondeza.

 

Um zimbório soberbo, e sumptuoso,

Que na Região Etérea do ventoso,

E sublime Hemisfério vai tocando

As nuvens, que nos ares vão girando.

 

De festões adornado, e belas flores

Formadas em diversas lindas cores,

De pedras muito finas, e polidas,

Na região do vento suspendidas.

 

Senhor, que erigiu este edifício,

Nos mesmos torreões do frontispício,

Mandou, que Paço Régio se fizesse,

Que a seu grande poder correspondesse;

No qual respira, sem contradição,

A grandeza de um Régio coração,

Que a fama há-de cantar com gosto, e glória,

Enquanto neste mundo houver memória.

 

Uma soberba praça está pegada

À frente principal desta fachada,

De excessiva grandeza, e tão formosa,

Que vence a narração do verso, e prosa.

 

Pretende nela o General potente,

Que a ti me envia, ou manda, Cão valente,

Formar da Guerra o campo, que em verdade

Tem para a nobre acção capacidade;

Na qual se podem ver muito bem formados

Um milhão de milhões de bons soldados.

 

O sítio é muito alegre em todo o ano,

Vê-se de longe o grande mar oceano,

No qual se perde a vida, ou se termina,

Onde Febo morrendo a luz inclina.

 

Um senhor muito sublime, e muito ilustre,

Da nobreza maior, portento, e lustre,

Nesta vila uma Quinta grande, e nobre

Tem, que de bosques fresca sombra cobre.

 

Magníficos Jardins muito bem lançados,

De soberbas estátuas adornados,

E cristalinas fontes de repuxo

Borrifando de longe o verde buxo;

E logo mais abaixo um manso rio

Correndo vai com brando murmúrio.

 

Tem praças, lagos, tanques, e capelas,

E ruas tão formosas, que por elas

Podem correr cem Cães emparelhados

Dos que do corpo são agigantados.

 

A todas vai cobrindo fresca rama,

Que nem do Sol penetra a viva flama.

Mil diversos contentes passarinhos,

Pendurados nos troncos, e raminhos,

Festejam com suave, e doce canto

Da rubicunda Aurora e rosto santo.

 

Este lugar tão majestoso, e belo

É de um grande senhor, que alto desvelo

Lhe pôs na sua penetrante ideia

A poderosa mão da sábia Astreia;

Da qual o grão poder a sorte guia,

Até onde em berços de ouro nasce o dia.

 

Na formosa cozinha bem lançada

Do paço desta Quinta, a desgraçada

Contenda sucedeu, que foi motivo

De se abraçar Maluco em fogo activo,

Desejando acabar num só momento

A quantos Gatos põem seu rabo ao vento.

 

Carroça tem por nome o Cão brioso,

Que do Gato sofreu o ardor furioso,

E que buscou no grande Maluco invicto

Vingança a mais cruel deste conflito.

 

Este forte Maluco destemido

Nas grandes forças é tão destemido,

Que nunca as gentes viram no tamanho

Tão desconforme bruto, e tão estranho.

É grande, como um touro, e dois carneiros

Somente numa ceia mama inteiros;

Tem dois palmos, ou mais, qualquer orelha,

Parece um Leão bravo na gadelha,

A cauda tem dez varas de comprido,

Os montes faz tremer o seu latido.

 

As portas lá do Inferno o grande Cérebro

Não guardaria nunca horrendo, e fero,

Se primeiro o terrífico Plutão

Soubesse deste grande Canzarrão.

[...]

 

 

 

Gaticanea ou cruelissima guerra entre os cães, e os gatos, decidida em huma sanguinolenta batalha na Grande Praça  da Real Villa de Mafra. Escrita por [...]. Lisboa, Oficina Patr. de Francisco Luís Ameno, 1781, p. 43-48.