Introdução


A Ideia do Monumento de Mafra


Arquitectura e Hermetismo

 

Primeira Parte

 

Introdução

 

A magnanimidade é a virtude pela qual alguém deseja grandes honras a si devidas. Esta virtude é necessária ao rei. Sendo a dignidade real suma e suprema entre todas as dignidades temporais, deve o próprio rei desejar, sempre, fazer obras ilustres e grandes feitos e não deve ocupar-se dos negócios pequenos que são próprios de homens de menos categoria e qualidade. Pelo contrário, deve realizar coisas grandes e admiráveis, como grandes edifícios, templos, torres, castelos, etc., que havendo de durar perpetuamente, sirvam de lição à posteridade e testemunho de sua vida. Não faça estas grandes obras por causa da aura popular, ou para pesar na simpatia da multidão ignara, mas porque são dignas de um varão e dum príncipe magnânimo.

DIOGO LOPES REBELO

 

 

O Monumento de Mafra apresenta-se simultaneamente como uma imensa antologia de artes plásticas e um enigma.


Há, todavia, pelo menos três asserções relativas aos seus primórdios cuja verosimilhança se torna indispensável averiguar previamente, porquanto, apesar de incessantemente alegadas e tacitamente aceites, não assentam em outro critério de verdade senão uma tradição que, não obstante a sua respeitabilidade, parece, à semelhança de outras tradições respeitáveis e consabidamente falsas, carecer de fundamento.


Ao contrário do que uma literatura tão prolífica quanto monótona, por repetitiva, assevera, continuam por apurar de forma inequívoca:

 

1) O móbil de D. João V na origem da edificação, pois a erecção dela não é crível, à luz da documentação disponível, tenha resultado de um voto para obter sucessor;


2) A identidade do responsável ou responsáveis pelo projecto do edifício tal qual hoje se nos apresenta, uma vez que dos três (porventura quatro) "projectos" sucessivamente aprovados pelo Magnânimo, apenas o primeiro é imputável a Ludovice;


3) A razão por que foram as imediações da Vila de Mafra o local eleito para a edificação do Convento de Santo António.

 

Em suma, motivos por si só mais do que suficientes para revisitar sistematicamente estes e outros labirintos subjacentes à Obra Magna do Luso Rei-Sol.