Introdução


A Ideia do Monumento de Mafra


Arquitectura e Hermetismo

 

Segunda Parte

 

Introdução

 

Naquele dia, oráculo de Javé, uma algazarra de alaridos se fará ouvir a partir da Porta dos Peixes, um uivo da Cidade Nova e grande barulho a partir das colinas.

SOFONIAS I, 10

 

De há muito tempo se sabe, entre os astrólogos, que o signo de Portugal é Peixes; mas cumpre-nos averiguar isto outra vez, e ver qual o grau de Pisces que ascende em Portugal e prepara o seu destino.

FERNANDO PESSOA, Esp. 90(4) - 9

 

Convoquei noutra ocasião (61) testemunhos de heterogénea índole demonstrativos da assunção da Europa, essa região cujo olhar enxerga longe (62), como detentora de um corpo com cabeça, tronco e membros. Presumo ter definitivamente esclarecido que não cabe a Fernando Pessoa, ao invés do que por aí ainda se lê e ouve dizer, a responsabilidade da invenção de uma tal imagem, nem tão pouco a Camões que também a adoptou na sua epopeia (63).

É milenar e veneranda a tradição à qual ambos fazem jus. Segundo ela, às nações da cabeceira do Velho Continente e, mais notoriamente, ao Estado Galaico-Português anda reservada uma missão escatológica, uma vez curado "da gafa ideológica" que o perverteu, conforme o sibilino alerta lançado por António Sardinha, tão válido hoje quanto o era em 1924 (64).

Capaz de tudo transfigurar, o "olhar esfíngico e fatal" do rosto da Europa surge, assim, qual émulo da tebana alimária, como agente de uma transmutação radical: a do próprio ocaso em nascente, pois que nenhuma outra tradução da expressão pessoana "ocidente, futuro do passado", é tão conveniente quanto a de Ocidente, novo Oriente!

Não se entenda, todavia, o exposto como mera metáfora, porquanto as deslocações do pólo magnético e as inversões da polaridade terrestre são fenómenos que a antiguidade clássica credita e a geofísica contemporânea sustenta. Esta regista, nos últimos quatro milhões de anos, pelo menos nove inversões magnéticas, detectáveis pela orientação dos eixos de fractura das rochas, de cristalização dos filões minerais ou até pelo curso da deriva dos continentes (65).

Ao referido fenómeno, associado à migração do Apogeu Solar do hemisfério boreal para o hemisfério austral - aceite pelos caldeus, segundo o testemunho de Beroso (séc. III d. C.) e pelos indús, conforme a lição do Surya-Siddhânta, tratado astrológico cujo argumento os sábios Massudi e Al Biruni asseguraram constituir crença enraízada entre os Brahmanes -, se ficam a dever a concomitante alteração do sentido de rotação do planeta, bem como a inevitável reordenação dos quatro horizontes ou oito ventos. Uma sucessão de cataclismos (66) antecede, então, inexoravelmente, o surgimento no hemisfério oposto àquele em que no ciclo precedente ela teve o seu acúmen, de uma renovada civilização, manifestada, em função da tectónica geral, por nação-chave, a qual encarna nova tónica civilizacional e biótipo humano (67).

Autores clássicos consignam nas suas obras o nascimento do Astro-Rei a Ocidente. São dignos de menção, entre outros, os nomes de Eurípedes (Orestes e Electra), Sófocles, Platão (Político e República) (68), ou Heródoto, o qual chega a afirmar que os sacerdotes egípcios lhe haviam assegurado que o Sol "mudara quatro vezes o seu curso" no decurso de 341 gerações (c. 11340 anos).

Afinal, não garante Herder que "a história é geografia em movimento"?

Vivemos hodiernamente um desses cruciais momentos de transição. Do papel de superlativa notoriedade no contexto das nações cometido à europeia finisterra dá conta Nostradamus (Centúria, III, 35):

 

Do mais profundo do Ocidente da Europa,

De pobres gentes um rapazinho nascerá,

Que por sua língua seduzirá grande grupo,

Sua fama no reino d' Oriente mais crescerá.

 

Nos considerandos apontados se acha alguma luz que ilumine a circunstância, cada vez mais evidente, de se assistir, na medida em que tem vindo a eliminar as suas próprias clivagens nesse particular domínio, à transformação de Portugal no interlocutor privilegiado do diálogo Norte-Sul.

Não se trata de uma qualquer presunção patrioteira. Um pensador francês, Raymond Abellio, não se coibiu de propalar tal evento:

 

Em nenhuma parte melhor que em Portugal a existência aparece assim como o exílio do ser. Em nenhuma parte se sente melhor que a história tem que acabar e, para tanto, arrastar o homem até ao mais baixo e, quando ele aí chegar e terminar com ela, dar lugar a um estado de homem que, não só não decorre dela, mas também a remete para o nada que constantemente testemunhou (69).

Mas, apesar de a nossa época ser de crise, uma extraordinária série de, chamar-lhe-ei, coincidências faz dela um tempo de eleição.

De facto, face aos dados tradicionais disponíveis, é legítimo concluir que se assiste na actualidade ao concomitante definhar de um Manvantara, de um Grande Ano, da Idade de Ferro, da Era Precessional do signo de Peixes e do Ciclo de Daniel.

 

Em suma, é preferível habituar-mo-nos à ideia de que nos achamos todos,  estejamos ou não cônscios disso, no limiar de um drama cósmico.

A concepção cíclica subjacente distingue-se do ponto de vista que tem por postulado-príncipe a imperfeição das espécies e a consequente busca de uma perfeição progressiva em que a luta pela sobrevivência ocupa um lugar proeminente. Refiro-me, é claro, à hipótese transformista. O tempo é por esta concebido como uma linha recta, a qual Victor Hugo, numa imagem feliz, chamou parede dos séculos, tangente à roda cósmica, estendendo-se indefinidamente a partir do ponto de tangência e suscitando a angústia do devir, naturalmente inerente à ideia de caminhar às cegas ao longo de um tempo rectilíneo, indiferenciado e do qual foi irradicada toda e qualquer transcendência (70).

Pelo seu lado, o observador que pretenda avaliar o tempo circular, cuja substância apenas permitirá fundar sucessivas metamorfoses, terá de se colocar no centro dos Tempos, a partir de onde lhe será dado observar todos os acontecimentos projectando-se num mesmo arco de círculo, de modo idêntico àquele como percepciona os astros quando contempla os Céus. "Um homem de quarenta anos, desde que possua algum talento, viu todo o passado e todo o futuro na identidade do presente", afirma Marco Aurélio, num registo estóico.

Note-se que o Saudosismo não é senão o sentimento que emana da vivência do Eterno na derradeira forma descrita, a qual a Esperança proposta pela revelação cristã extinguiu com a sua depreciação da Heimarméne e do Fatum (71).

De resto, a ideia de progresso, tal como toma forma no século XVIII para atingir a depuração máxima nos sistemas do século seguinte, é uma faceta secularizada da tensão histórica fundada na Esperança cristã, a mundanização da antiga concepção agostiniana que pode ser assacada a Bossuet (72).

Os promotores da teoria do progresso que havia de se substituir, com os resultados hoje, mais do que nunca, patentes, à da Providência activa, não compreenderam, decerto devido à sua postura polémica, o quanto dependiam do inimigo que adversavam.

Na supracitada perspectiva ciclológica, paradigma ontológico das sociedades tradicionais que concebem a história como uma Queda, um processo involutivo geral da humanidade (73), a conquista sucessiva do fogo, da roda, dos metais, da escrita, do vapor, da electricidade ou da energia atómica não representa propriamente um sinal do progresso, antes uma certa compensação face à progressiva perda de prerrogativas espirituais e dos poderes conferidos por estas. Por outras palavras, tal compensação consiste numa solidificação ou materialização que busca os poderes técnicos como sucedâneo para os poderes naturais perdidos.

Platão, certamente inspirado no ensinamento pitagórico, recupera tal concepção no Timeu e na República, cabendo, por seu turno aos neoplatónicos, designadamente a Plotino (Eneada III, liv. 1, cap. 2), mas também a Porfírio, Proclo, Simplício ou João Philipon, o desenvolvimento das doutrinas de Arquitas de Tarento.

Aristóteles relacionará a ideia geral do Grande Ano com o seu sistema racional na Física e Meteorológicos (liv. I, cap. 2), referindo-se a um movimento que se reproduz periodicamente, idêntico a si mesmo, provocando o retorno do Céu ao mesmo estado e precisamente os mesmos efeitos na esfera sublunar. Terá, todavia, o cuidado de atenuar os efeitos das configurações planetárias, recusando seguir a Heraclito e Empédocles na sua crença em cíclicas destruições e renascimentos integrais do mundo.

Uma das grandes teses dos estóicos será a da periodicidade do universo ritmado pelo Grande Ano (Séneca, Da Natureza dos Deuses), com um abrasamento geral inaugurando cada grande Verão e um dilúvio cada grande Inverno (Séneca, Questões Naturais). Varrão e Virgílio (Bucólicas, IV, 34) introduzirão o conceito em Roma de onde passará aos Padres da Igreja.  Minúcio Félix, S. Clemente, Arnóbio e Orígenes (Contra Celso), entre outros, consideravam inspirada na Bíblia a hipótese do dilúvio e do abrasamento expostos pelos estóicos, declarando, apesar de tudo, a doutrina da estrita repetição incompatível com o livre arbítrio humano. Já Santo Agostinho condenará o Grande Ano, que faz do mundo um ser eterno e periódico, consagrando integralmente ao assunto o Livro quinto da Cidade de Deus.

Não sujeitos a semelhantes constrangimentos, autores muçulmanos recuperarão o tema, o qual deixarão exarado em obras muito difundidas durante a Idade Média. Merecem especial referência os De conjunctionibus planetarum (sobre o papel das conjunções Júpiter-Saturno) e De Revolutionibus Anno Mundi (trad. João de Sevilha, Veneza, 1493) de Messalah (séc. VIII), o De Temporum Mutationibus de Alkindi (séc. VIII-IX), os Introductorium in Astronomiam e De Magnis conjunctionibus Annorum Revolutionibus (Augsburg, 1489 e Veneza, 1515) de Albumazar (776-885) (74).

Será, no entanto, o averroísmo latino, surgido cerca de 1230 com as traduções de Miguel Escoto dos comentários de Averróis (1126-1198) ao De Caelo e De Anima de Aristóteles, o responsável pelo pendor que há-de assumir entre eruditos como Sigério de Brabante (1235-c. 1284), Pedro d' Abano (1250-1316) (75), Guido Bonato (76), Cecco d' Ascoli (1269-1327) (77) ou Pedro d' Ailly (1350-1420), em cujas Concordantia se mostra persuadido da existência de um paralelismo, regulado pelas conjunções Júpiter-Saturno, entre os factos astronómicos e os históricos (78).

Nicolau de Cusa far-se-á eco de idêntica postura acerca de tal conjunção e do movimento do Apogeu do Sol (79), partilhada por legião de outros como: Jerónimo Cardano (1501-1576), Guilherme Postel (1505-1581), Giordano Bruno (1548-1600), Giovanni António Magini de Bolonha (1555-1617), Robert Fludd (1574-1637), Pierre Turrel (1498-1547) - no seu O Período, ou o Fim do Mundo, contendo a disposição das coisas terrestres pela virtude e influência das coisas celestes (Lyon, 1591) -, Tycho-Brahe (1546-1601), Johannes Kepler (1571-1630) (80), David Origano (Novae Motum, 1609), o seu contemporâneo Jean-Baptiste Morin de Villefranche (1583-1656), nomeadamente no Sobre as Constituições Universais do Céu, François Allaeus (1593-1687) no Fatum Universi (1654) (81), William Lilly (1602-1681), astrólogo de Carlos I de Inglaterra e, definitivamente, o jesuíta Henry de Boullainvillier (1658-1722), derradeiro grande expositor da astrologia mundial e celebrado autor de uma História do Movimento do Apogeu do Sol (82).

 

NOTAS

(61) A Europa tem Rosto?, in Revista Portugueses, n. 6-7 (Fev.-Mar. 1989), p. 43-47.

(62) Semântica autorizada pelo epíteto de Euruopa ou Euruopé (Eurus = amplo, vasto + ops = olhar) aplicado na Odisseia a Zeus, pai dos Deuses.

(63) António Salgado Júnior, Camões e a visão humanística da geografia da Europa de quinhentos, in Ocidente, v. 36 (1949), p. 281-296.

(64) António Sardinha, A Aliança Peninsular: antecedentes e possibilidades, Lisboa, 1972, cap. Cabeça da Europa, p. 267: "Curada da gafa ideológica que nos perverteu, a Península será na Europa, não só a sua cabeça, mas a sua salvadora".

(65) No ano de 1965 o pólo Norte magnético situava-se nos 78.5 graus Norte e 69.1 graus Oeste. Sobre a teoria do deslocamento espiralóide dos pólos e suas supostas relações com o glaciarismo, ver Conde de la Vega del Sella, Teoria del glaciarismo cuaternario por desplazamientos polares, Madrid, 1927.

(66) Dupuis, Dissertation sur les grands cycles et sur les catastrophes qui les terminoient, in Origine de tous les Cultes ou Religion Universelle, t. III, Paris, ano III da República, p. 154-183. Nostradamus escreverá numa Carta endereçada a Henrique II (14 de Março de 1557): "[...] e [no fim dos tempos] a um eclipse do Sol (11/8/1999) [devido à conjunção do Sol e da Lua] sucederá o mais escuro e tenebroso Verão que jamais existiu desde a criação até à Paixão e morte de Jesus Cristo e de lá até este dia, e isto será no mês de Outubro quando uma grande translação se produzirá de tal modo que julgarão a Terra fora de órbita e abismada em trevas eternas".

(67) A nenhum vivente actual será lícito arrogar-se o privilégio de narrar aos netos como decorreu o advento dos Novos Céus e da Nova Terra, porquanto a transição para eles, com maior soma de razões no presente caso, não ocorre instantaneamente (a transição de um ciclo a outro é sempre instantânea, portanto cataclísmica e não progressiva, excepto num ciclo menor como o Manvantara ou numa das suas subdivisões, o Grande Ano). Como ensina Joaquim de Fiore, as diferentes idades entrelaçam-se. Ainda uma não se encontra completamente esgotada e já outra se acha em fase de germinação, para frutificar apenas alguns séculos e muitas gerações mais tarde. Toynbee, corrigindo a sua tese segundo a qual as religiões são consideradas como crisálidas do processo cíclico de reprodução das civilizações (A Study of History), afirma em Civilization on Trial: "A religião é uma carroça. Parece que as rodas sobre as quais avança para o céu podem ser a destruição periódica das civilizações sobre a Terra. O movimento delas é cíclico e recorrente, enquanto que o da religião parece seguir uma linha isolada, contínua e ascendente. O movimento contínuo e ascendente da religião é talvez mantido em tensão e originado pelo movimento cíclico das civilizações que giram no círculo do nascimento, morte, nascimento".

(68) Político (272c-273d): "[...] Dans ce renversement, le monde se trouva lancé à la fois dans les deux directions contraires du mouvement qui commence et du mouvement qui finit, et, par la violente secousse qu' il produisit en lui-même, il fit périr encore une fois des animaux de toute espèce [...]". República: "[...] Cet Univers, qui est le nôtre, tantôt la Divinité guide l' ensemble de sa révolution circulaire, tantôt elle l' abandonne à lui-même, une fois que les révolutions ont atteint en durée la mesure qui sied à cet Univers; et il recommence alors à tourner dans le sens opposé, de son propre mouvement [...] Le changement de direction est accompagné de catastrophe que suit ultérieurement une régénération paradoxale".

(69) Prefácio a O Quinto Império de Dominique de Roux, Lisboa, 1978, p. 12.

(70) Sobre a tese transformista, actualmente bastante abalada pela constatação de que grande número das suas provas paleontológicas (Piltdown, Java, Pequim, etc.) não passam de  fraudulentas mistificações, Jean Phaure, Le Cycle de l' Humanité Adamique, Paris, p. 91-113.

(71) Segundo o doxógrafo Diógenes Laércio foi Heraclito o introdutor do conceito que havia de adquirir a sua máxima extensão no período helenístico, apesar de combatido pela Escola de Epicuro. A heimarméne ou desejo conatural do Universo quando abandonado por Deus às suas próprias forças, é criticada por Santo Agostinho na Cidade de Deus (XII, 20). Na Carta 198 (a Hesychius), o Bispo de Hipona, comentando Actos, I, 7 (Não é da vossa conta saber os tempos nem os momentos que o Pai reservou ao seu poder), estabelece uma distinção semântica entre Kronos e Kairós, para afirmar a existência de dois planos relativamente à nossa ignorância do Dia do Juízo: "No que respeita o tempo (Kronos) essa ignorância é absoluta: não possuímos qualquer meio de calcular ou adivinhar o dia e a hora [...]; pelo contrário, no que concerne ao Kairós (momento), é-nos permitido pesquisar a partir de quando o fim dos tempos é possível, senão inevitável".

(72) Discurso sobre a História Universal, parte III, cap. VIII.

(73) De acordo com a própria natureza do Tempo qualificado, a Queda não é uniformente acelerada, mas pontuada por subciclos ordenados no interior de ciclos maiores, sujeita a crises brutais seguidas de destruições e de retornos a idades de ouro relativas.

(74) Foi o mais célebre astrólogo de Bagdad, também autor do Olouf (In Flores Astrologiae, Augsburg, 1488), tratado no qual recorda que a criação do mundo teve lugar quando os sete astros do sistema solar se achavam conjugados no 1º grau do Carneiro e há-de cessar quando se encontrarem no último grau de Peixes. Nota ainda que o cristianismo não deveria durar mais de quinze séculos e a religião do Profeta apenas cinco.

(75) Joaquimita, autor do Lucidator astronomiae. Foi pioneiro na elaboração de uma exegese histórica à luz dos ciclos planetário e precessional e pai da moderna noção de Idade de Aquarius. Advoga que cada astro do septenário rege 354 anos e 4 meses, movendo-se a esfera dos fixos à velocidade de um grau em cada 70 anos. O seu Liber de imaginibus Astrologicis consta do Index de 1561.

(76) Autor do Liber Astronomicus (Augsburg, 1491), considerado o mais importante tratado de astronomia trecentista, incluído no Index de 1561.

(77) Francesco Stabili, joaquimita, astrólogo em Bolonha e Florença e autor do In Sphaeram mundi enarratio (Veneza, 1499), etc. Foi queimado vivo pela Inquisição, sob a acusação de heresia.

(78) Em 1414 prevê que o ano de 1789 (Revolução francesa) será o da instauração do reino do Anticristo.

(79) Considera a história da humanidade constituída por 4 épocas: 1. desde Adão até ao dilúvio; 2. do dilúvio até Moisés; 3. de Moisés até Jesus; 4. de Jesus até ao fim do Mundo. Baseia os seus cálculos no computo dos jubiléus (ciclos de 50 anos = 7 x 7 + 1). Em 1452, ano em que escreve, haviam passado 29 jubiléus de um total de 34, os quais se achariam completos cerca de 1700. Em consequência, prognostica o Juízo Final para o período entre 1734 e 1750.

(80) Muito interessado pela conjunção Júpiter-Saturno no Sagitário, signo de fogo, presságio do Juízo Final.

(81) No qual expõe um sistema de interpretação baseado no Thema Mundi. Cf. Les Cahiers Astrologiques, n. 7-12 (1939-1949). Colocado no Index pela Sorbonne. Insurge-se contra alguns adeptos, nomeadamente Rheticus (discípulo de Copérnico), das relações entre o Apogeu Solar e o destino dos impérios.

(82) Histoire du Mouvement de l' Apogée du Soleil ou Pratique des Règles d' Astrologie pour juger des événements généraux (1717), Editions du Nouvel Humanisme, 1947.

 

 

ANEXOS

 

MANVANTARA

Etimologicamente é um período ou Era entre dois Manus ou Legisladores. Tem um âmbito temporal de 64800 anos. O actual, o Ciclo Adâmico da tradição judaico-cristã-islâmica, é o sétimo do presente Kalpa, Dia de Brahma ou período de manifestação de um Mundo (constituído por um total de quatorze Manvantaras). O Purana de Vishnu e os Calendários Maia-Quiché e Tibetano-Chinês indicam o ano de 1999 como o do desfecho do Ciclo, respectivamente, no mês de Abril (IV, XXIV, 228: "quando o Sol, a Lua, Tishya [estrela da constelação de Cancer, segundo a astrologia sino-tibetana uma das 72 estrelas maléficas, denominada a Executora da Terra] e o planeta Júpiter se encontrarem na mesma casa, será restaurada a Yuga Krita [Idade de Ouro]), a 21 de Setembro (data designada 4 Ollin, que há-de corresponder à coincidência do ciclo solar anual com o do calendário religioso) e na transição do Ano do Coelho para o do Dragão. Não obstante, uma outra tradição indú situa esse termo em 2030, tal como Nicolau de Cusa (1401-1464), que calculou a mesma data, a qual dista dista apenas um ano da sugerida pela Profecia dos Papas (constituída por 112 divisas, desde Celestino II até Petrus Romanus, o derradeiro Papa. Tem o seu acúmen na 73ª divisa [Axis in Medietate Signi = O Eixo no Meio do Signo] de Sixto V [1585-1590]; visto que a profecia se iniciou em 1143, deste ano até 1587 contam-se 444 anos. Se se acrescentarem os mesmos 444 anos a essa data de 1587, obtém-se 2031). Seja como for, 1999 é o termo mais comumente aceite pela epilogística ocidental, na esteira de Nostradamus (Centúria, X, 72) e do Cabalista cristão do Renascimento, Pico della Mirandola, em cuja Nona Tese da Segunda Série (composta em 1485) sustenta "que o fim do mundo se produzirá 514 anos e 25 dias" a contar do preciso momento em que escreve (Cf. Jean Pic de la Mirandole, in Kabbalistes Chrétiens, Cahiers de l' Hermétisme, Paris, 1979, p. 176).

 

GRANDE ANO

Inaugurado pelo afundamento da Atlântida (dilúvio bíblico), é-lhe atribuído um âmbito de 12960 anos. Os planetas transsaturninos conferem ao fenómeno uma latitude que não possuía na antiguidade. O Grande Ano clássico consiste no período de tempo que separa duas conjunções sucessivas de todos os astros errantes no ponto equinocial da Primavera, constituindo uma Doriforia, a configuração protótipo do estado original do mundo ou Thema Mundi (questão muito popular, cuja fonte mais notável é o Sonho de Cipião de Macróbio, ilustrada em Portugal no ms. 619 da BPMPorto; cf. Lippincott Kristen, Giovanni di Paolo' s Creation of the world and the Tradition of the Thema Mundi in late medieval and renaissance art, in The Burlington Magazine, v. 132, n. 1048, Julho 1990, p. 460-468) e o fundamento de todas as unidades rítmicas em manifestação no cosmos, incluindo o Apogeu Solar e os 45 ciclos astrais do nosso sistema planetário.

 

IDADE DO FERRO

A Yuga Kali dos indús, a qual tem uma duração de 6480 anos. Nela se manifesta o quarto dos impérios do Sonho de Nabucodonosor (Daniel, II, 31-35): o Romano (o ferro das pernas, misturado com argila dos pés da estátua), conforme a interpretação de S. Jerónimo, já prejudicada pelas críticas de Jean Bodin e C. Horn (Arca Noae, 1666). Sobre as quatro Yugas ver Noticia Summaria do Gentilismo da Azia, cap. 34 (fl. 21v) a cap. 41 (fl. 24r) [BN: cod. 607].

 

ERA PRECESSIONAL DO SIGNO DE PEIXES

Se os ciclos dia-noite e anual são provocados pela rotação e translação do planeta Terra, respectivamente, um terceiro movimento, de pião, está na origem do fenómeno da precessão dos Equinócios, descoberto e descrito em 129 a. C. por Hiparco de Samos no Do comprimento do Ano, onde estabelece a distinção entre ano sideral e ano trópico. Duas consequências principais derivam da precessão: 1. a sucessiva substituição da Estrela Polar, actualmente a estrela alfa da Ursa Menor, que sucedeu há cerca de 5000 anos a uma estrela da constelação do Dragão que, por sua vez, substituíra há cerca de 10000 uma de Hércules e há cerca de 14000 a estrela Vega (da Constelação da Lira); 2. o contínuo e lento deslocamento do plano do equador terrestre relativamente ao plano da ecliptica, isto é a linha onde se projectam os pontos vernal (Equinócio da Primavera) e outonal (do Outono), motivo por que o Sol observado da Terra no dia 21 de Março se desloca ao longo da eclíptica, à razão de 50 segundos por ano, um grau cada 72 anos e 360 graus em 25920 anos (12 x 2160 anos). Diferentes autores medievais se preocuparam com o fenómeno. Entre eles Messallah, Al Fergani e Albumazar que lhe atribuem um âmbito de 36 séculos. Abraham Ben Ezra, no Liber Conjonctionum Planetarum et Revolutionum Annorum Mundi qui dicitur de Mundo vel seculo (1147), fala de uma revolução de 250 séculos, preconizando, tal como Pedro de Abano, o movimento de 1 grau cada 70 anos. Por seu turno, as Tábuas Afonsinas (1252) estimam a duração da precessão em 49000 anos. Serão, porém, Tycho-Brahe e Newton os responsáveis pelo cálculo definitivo do ritmo precessional.

 

CICLO DE DANIEL

Figurado pela estátua do Sonho de Nabucodonosor (Daniel, II, 31-35): cabeça de ouro, peito de prata, ventre e coxas de bronze, pernas de ferro e pés de ferro e barro. Os pés da estátua, com seus dez dedos, representam os dez reinos ou nações surgidas do Império Romano após a sua queda. De acordo com o modelo epilogístico proposto por Raoul Auclair e tomando o Sonho de Nabucodonosor, datável de 603 a. C., como início do Ciclo, este ter-se-à consumado em 1917. Isto de acordo com o esquema rítmico "um tempo, dois tempos, metade de um tempo" (Daniel, XII, 7), quer dizer: 360 anos para os impérios Assírio, Persa e Grego; 360 x 2 = 720 anos para o império Romano; 360 x 4 = 1440 anos para o Tempo das Nações. Os 2520 anos (360 anos x 7) que constituem o seu âmbito temporal assinalariam, assim, o final da 1ª Grande Guerra, a Revolução Russa, as Aparições de Fátima e a Declaração Balfour (2 de Novembro), anunciando o retorno de Israel à Palestina.