Géneros e Vitualhas Monásticas
Géneros consumidos durante a Semana Santa pela comunidade conventual de Mafra
Peixe - 102 arrobas [cada arroba 14, 688 Kg];
Peixe fresco - 9 arrobas (para uma refeição)
Peixe seco - 1 quintal (para uma refeição);
Fava - 400 arráteis [cada arrátel 459 g];
Galinhas - 124;
Perú - 63;
Cabrito - 32;
Cebola - 100 dúzias;
Chicória - 45 dúzias;
Couve murciana - 6 dúzias;
Alface - 45 dúzias;
Nabo - 80 dúzias;
Aletria - 1 arroba (para uma ceia);
Castanha pilada para caldo - 1 alqueire [cada alqueire 13,800 litros];
Arroz - 2 alqueires e meio;
Laranja da China e demais fruta - 550;
Amêndoa coberta - 319 meios arráteis;
Manteiga - 1 barril cada dez dias;
Passa para a colação - 70 arráteis;
Figo passado para a mesma - 60 arráteis.
Géneros necessários ao sustento anual da comunidade conventual de Mafra
Vinho - 120 pipas [cada pipa 420 litros];
Vinagre - 60 pipas ou 19 almudes [cada almude 16,800 litros];
Azeite - 70 pipas ou 24 almudes;
Arroz - 13 moios ou 33 arrobas e 24 arráteis;
Vaca - 600 rezes ou 169 arrobas e 19 arráteis (9 arrobas para uma refeição);
Galinhas - 2353;
Frangos - 322;
Vitela - 30 arrobas;
Frangãos - 11;
Toucinho - 22 arrobas (1 arroba para uma refeição);
Doce - 14 arrobas;
Leite de cabra - 21 almudes;
Leite de burra - 7 almudes;
Queijo flamengo - 8 para uma refeição;
Pimenta - 9 arráteis;
Açafrão - 3 quartas [cada quarta 114, 750 g];
Aguardente - 7 almudes;
Milho - 4 moios e 3 alqueires;
Açúcar branco - 20 arrobas e 17 arráteis;
Açúcar mascavado - 4 arrobas;
Manteiga - 12 arrobas e 30 arráteis;
Cevada - 1 moio e 1 saco de três alqueires;
Ovos - 93 dúzias e meia;
Ameixas passadas - 4 alqueires;
Chocolate - 4 arráteis;
Chá - 1 arrátel;
Banha de porco - 10 arráteis;
Frutas - 2340 frutas;
Farinha coada - 2 alqueires.
A lenha necessária para os fogões atingia os 1850 côvados anuais, podendo no entanto variar, tal como os valores dos géneros supramencionados.
Empada
Quando a Comunidade conventual de Mafra comia empadas, consumia os seguintes géneros:
Farinha - 6 alqueires;
Ovos para as dourar - 6 dúzias;
Limões azedos - 400;
Peixe - 7 arrobas;
Toucinho - 70 arráteis;
Azeite para a massa - 9 canadas [cada canada = 1,400 litro];
Açúcar - 6 arráteis.
Pastel de Carne
Sempre que a Comunidade conventual de Mafra comia pastéis de carne eram consumidos os seguintes géneros:
Farinha - 6 alqueires;
Vaca ou carneiro - 100;
Toucinho - 16 arráteis;
Ovos - 6 dúzias;
Limões azedos - 200;
Manteiga - 50 arráteis;
Açúcar - 6 arráteis;
Azeite - 2 canadas.
Razões do Coração
Romance de paixões acontecidas em Mafra ocupada pelos franceses no ano de 1808, da autoria de Álvaro Guerra.
Dedica diversos parágrafos às tarefas conventuais atinentes à gastronomia: "[...] Mas em tudo há uma ordem natural, as tarefas distribuídas por especialidades, sem atropelos. Frei Inácio de Belém tem a seu cargo a preparação dos presuntos. Frei Francisco do Rosário, o boticário, dedica-se com rigores alquímicos, usando mesmo a balança da sua farmácia, ao tempero dos enchidos, manipulando doses de louro, de segurelha, de beldroegas, de colorau, de pimenta verde e preta, em três alguidares distintos, um para o chouriço vermelho, outro para o sangue, um terceiro para a farinheira, enquanto frei Policarpo das Chagas lava as tripas a enchumaçar com aqueles sábios recheios, tendo a seu lado seringas para as encher. Frei Paulo de Santa Maria colecciona o material para o cozido - o presunto, a beiça, a orelheira, o toucinho entremeado, o entrecosto, comentando para Raimundo: Bicho santo, tudo se lhe aproveita! Três outros monges, sentados em banquinhos, diante de alguidares de cobre, descascam as batatas, lavam as couves, raspam os nabos, que hão-de compor a obra de Frei Paulo." (p. 97). "A sineta anuncia a hora da ceia e os frades passam pela casa do lavatório, antes de formarem em coluna de dois a procissão que pára na casa De profundis, onde rezam aos finados, passando depois pelo refeitório. Ali abancam a duas mesas de pau-brasil cobertas por toalhas brancas de linho, sob as vistas de Cristo e dos Apóstolos na última ceia, única decoração daquelas imensas paredes que dantes albergavam à larga os seus trezentos convivas, espaço agora demasiado vasto para os dezoito frades e dois convidados. Cada um tem diante de si um jarro de vinho e outro de água, os talheres de cabos de chifre, os pratos e as canecas de barro. Logo desembocam da porta da cozinha Frei José dos Mártires e Frei Lúcio do Menino Jesus com duas travessas de cozido fumegante. Seguem-se o entrecosto, as febras, as papas de sarrabulho, a sopa do cozido e o remate angelical do arroz doce acompanhado de copinhos de aguardente de pêra" (p. 98).