da Tropa


 

Anedotas de caserna

 

O tenente R. foi um dos oficiais que o Ministério da Guerra, em 1888, mandou para Mafra, conjuntamente com o tenente Vergueiro, para darem começo à construção da carreira de tiro da Escola Prática de Infantaria.

O tenente R. tinha um soldado impedido, o Leonardo, muito deligente, bem comportado e razoável cozinheiro. Por estas qualidades o tenente R. era-lhe afeiçoado.

Terminado o tempo de serviço, o Leonardo recebeu guia para retirar para a sua terra mas, antes de partir, fez as suas despedidas, com os olhos arrasados de lágrimas, ao tenente R. que, vendo-o muito impressionado, lhe diz:

- Adeus Leonardo, desejo-te felicidades. Quando quiseres vem cá a Mafra fazer-me uma visita.

- Sim, meu tenente, eu quero qualquer dia vir a Mafra visitar o cavalo.

(In O Concelho de Mafra, 21 Mar. 1943)

 

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Carta de um soldado à sua noiva

Minha querida Rosa

Muito hei-de estimar que estas duas regras te vão achar no gozo de uma saborosa saúde. Eu ao fazer d'esta melhor m'acho das maleitas que d'ahi truve.

Rosa. Aí te mando incluso o meu camarada nº 24 da 2ª, o qual, tendo recebido baixa, volta para a nossa térrinha, e te entregará sobrescritos e papel tarjados de preto, afim de que, se eu morrer no combate que breve vai travar-se, me possas escrever com todos os sinais de luto, como manda a incivilidade e a indecência.

(In O Mafrense, 16 Set. 1888)

 

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Parecer o cavalo do Tenório

Há muitos anos vivia em Mafra o senhor Tenório, pessoa bastante conhecida e estimada devido ao seu feitio. Trabalhava na antiga Remonta por onde passaram muitos dos mais conhecidos cavaleiros militares portugueses. O senhor Tenório estava encarregado de tratar um cavalo que pertencia a um oficial. Como nem sempre o cavaleiro podia sair com ele, era o tratador que diariamente o passeava. Ora, por essa época havia na vila de Mafra mais de 40 estabelecimentos que vendiam vinho a copo, dos quais o senhor Tenório era um frequentador assíduo. Não dispensava essa prática nem quando dava a sua voltinha a cavalo, normalmente até à Achada ou Ericeira. No caminho o senhor Tenório lá ia parando de vez em quando, na Paz, nos Salgados, no Sobreiro, etc., etc., para beber o seu copinho, deixando cá fora o cavalo. Um dia o oficial disse-lhe que lhe apetecia dar uma volta com o cavalo. E foi. Quis o destino que ele seguisse pela estrada nacional em direcção à Ericeira. Quando chegou à Remonta mandou chamar o senhor Tenório e disse-lhe que não sabia o que se passava com o animal, pois de Mafra à Ericeira este parava frequentemente, sendo difícil retomar a marcha. De então para cá, quando se anda a passear e se pára com frequência para ver montras ou qualquer outra coisa, há sempre alguém que se lembra de dizer: Pareces o cavalo do Tenório.