CronoBiblioteca


 

1735

Na Biblioteca Sousana (Colecção dos Documentos, Estudos e Memórias da Academia Real da História Portuguesa, 1735) dá o 4º Conde da Ericeira notícia do modo como foi feita a catalogação da Livraria Real, repartida pelas bibliotecas das Necessidades e de Mafra: a D. Francisco Xavier de Meneses coube a catalogação do acervo relativo às matemáticas e às artes; a D. Manuel Caetano de Sousa, a parte relativa à Bíblia e aos seus expositores; a João da Mota e Silva, os livros de Teologia; a Francisco Xavier Leitão, as obras de filosofia e medicina; ao Marquês de Alegrete, a parte referente à filosofia; ao Marquês de Abrantes, as obras de história (ver Silvestre Ribeiro, História dos Estabelecimentos Científicos, Literários e Artísticos em Portugal, v. 1, p. 177-179).

 

1736

Frei Matias da Conceição inicia a elaboração da Biblioteca Volante, colecção de folhetos (47 dos quais cópias manuscritas) encadernados em 164 volumes. Servindo de exórdio ao primeiro volume da sua colecção, afirma: "Damos a este género de escritos a denominação de Biblioteca Volante, pela celeridade com que depois de impressos desaparecem; pois antes de um ano de existência não é fácil achá-los, senão em as mãos de alguns curiosos, que por preço algum os querem largar. Para se alcançarem os que neste e em outros tomos ofereço aos leitores se multiplicaram as diligências e se fizeram as indagações mais esquisitas. Deste trabalho não espero nem vitupério, nem louvor; louvor, não, porque não o mereço nem o procuro; vitupério, também não, porque o estilo e assuntos desta obra nada é meu. Porém, se a implacável austeridade dos leitores começar a roer, perguntando para que é esta papelada na Livraria? Responderei que a minha tenção não é obrigar aos Zoilos e Aristarcos a que gastem o seu tempo em os ler. Se não gostarem da lição, fechem o livro, restituam ao seu lugar, que não faltarão outros de ânimo mais sincero, que gostem do que eles se enfadam e colham fruto do que se julga por inútil, escusado".

 

1744

Ignora-se o destino que Dom João V tencionava dar à sala onde foi posterior e definitivamente instalada a Biblioteca. Corre por tradição que se destinaria à recepção de embaixadores. Contudo, Guilherme de Carvalho Bandeira na sua Relação do Convento de Santo António de Mafra, encetada em 1730, afirma que a livraria com carácter provisório se acha instalada em duas grandes casas do 3º pavimento, "por não estar acabada a principal com o último adorno, que fica no 5º e último plano, no lance onde se completam os quatro dormitórios e ainda se acha muito imperfeita". Acrescenta que o tecto se encontra revestido de "mármore branco de distintos lavores".

 

1751

Frei João de São José do Prado descreve a "famosa Casa da Livraria" já na actual localização (, p. 133-134), desconhecendo-se quer a forma como se achava organizada, quer qual a disposição da estanteria.

 

1754

Março 2 - A Bula Ad perpetuam Rei Memoriam do Papa Bento XIV, lança a excomunhão sobre todos quantos tirem, emprestem ou subtraiam livros à Livraria de Mafra.

 

1755

Frei António de Cristo dá início à organização do catálogo das duas livrarias então existentes, regidas cada uma por seu bibliotecário: a de Frei António de Cristo, situada nas duas casas posteriormente chamadas Secretaria, para as quais se entra por um grande pórtico existente na escada da Fonte das Almas, e a de Frei Matias da Conceição, nas dependências do 3º pavimento por cima da despensa e Porta do Carro.

 

1758

Frei António de Cristo conclui a elaboração do catálogo de ambas as livrarias.

 

1760

Frei Matias da Conceição dá por concluída a sua Biblioteca Volante.

Setembro 15 - José Marco António Baretti visita Mafra, afirmando: "Tem o convento duas livrarias. Uma já está cheia de livros e a outra vai-se enchendo. Nesta todas as estantes de um lado contêm obras portuguesas em um número talvez de duas mil [...]. Na outra biblioteca, que já está de todo cheia de livros, observei, de corrida, que os há bons em grande quantidade [...]".

 

1766

O general francês Charles François Dumouriez, autor do État Présent du Royaume de Portugal (Lausana, 1775), regista a existência em Mafra de "uma biblioteca bem escolhida" (livro IV, cap. VIII).

 

1771

Maio 3 - Os Cónegos Regrantes de Santo Agostinho da Congregação de Santa Cruz de Coimbra tomam posse do Convento de Mafra. Transferem os livros das duas livrarias para duas salas contíguas à da actual biblioteca, uma a Sul e outra a Norte, enquanto aguardam a conclusão das estantes encomendadas ao arquitecto Manuel Caetano de Sousa. Da Relação do que se acha na Casa do Livreiro (i. e., a oficina de encadernador) constam, para uso de 3 encadernadores (mestre livreiro, obreiro e aprendiz): 2 prensas de aparar com seus engenhos e ferros, 7 ditas de apertar, 2 maços de ferro de bater, 2 xífaras [chifras] de raspar, 2 ferros com o feitio de SS, 3 tesouras, uma que serve de cortar latão, 2 martelos, 1 bigorna, 4 facas, 2 serrotes para os livros, 1 compasso ordinário, 2 cepilhos de ferro, 2 viradores de ferro de dar lustro, 6 viradores de fios, 4 rodas de latão, 78 ferros de dourar, 2 abecedários, 2 alicates, 2 bancas armadas para coser livros, 2 tachos de arame, 2 fogareiros de cobre, 2 dobradeiras de latão fundidas, mais duas ditas, 4 afiladores, 4 mesas, 2 caixas dos abecedários, estante, 100 réguas de apertar, 42 tabuleiros entre grandes e pequenos, 3 tábuas de pinho para afinar os livros, 4 réguas de bronze para afinar os livros, 5 ditas de pau para o mesmo, 2 pedras de raspar os couros, 1 dita de bater livros com sua tampa, 1 serra pequena, 1 goiva pequena, 1 enxó, 3 bancos, 2 quebradores de claras, 4 pincéis para várias tintas, 6 cabos de ferro para os ditos pincéis (Arquivo Histórico do Ministério das Finanças, fl. 52-54). O piso em tijoleira é, entretanto, substituído por mármores.

Cerca deste ano, Frei José Pereira refere que a "[...] famosa Casa da Livraria está situada na frontaria do Palácio da parte do Nascente e ela ocupa quase toda a frontaria e esta está no mesmo olivel do Palácio Real de tal sorte que suas Majestades podem ir a ela sem descomodo algum [...]". Informa ainda que, segundo os arquitectos, a Biblioteca poderia albergar 100.000 volumes (Principio e fundação do Real Convento de Mafra, e sua grandeza, e sua sustentação e luxo [BPNMafra: ms., fl. 102-103]).

 

1777

Maio 14 - Chega a Lisboa o redactor de um manuscrito encontrado na biblioteca do Duque de Chatelet e cuja autoria continua sendo muito controvertida. De Mafra só a livraria conventual merece simples referência (Voyage du ci-devant duc de Chatelet en Portugal, Paris, 1801).

 

1782

Dezembro 1 - Don Francisco Perez Bayer, arcedíago da Catedral de Valência e Bibliotecário-Mor da Real Biblioteca de Madrid, visita Mafra, percorrendo demoradamente a livraria que, segundo lhe terão dito, possui cinquenta e três mil volumes divididos por duas casas devido às obras que prosseguem na destinada para esse fim, ainda sem estantes. Acompanhado pelo bibliotecário e por diversos professores do Real Colégio de Mafra, esquadrinha diversas preciosidades bibliográficas, mostrando-se muito agradado (O Arqueólogo Português, v. 24, 1919-1920, p. 166-168 e O  Concelho de Mafra, 5 Julho 1942).

 

1787

Agosto 27 - William Beckford desloca-se a Mafra, afirmando que "a colecção de obras que se compõe de mais de 60 mil volumes está agora encerrada numa série de casas que comunicam com a Livraria" (Carta n. 22, in Italy with sketches of Spain and Portugal, Londres, 1834).

 

1792

Maio 12 - Por deliberação de D. Maria I os Arrábidos substituem os Cónegos Regrantes na posse do convento. Desde o ano de 1777, estes haviam gasto réis 24.084$325 com a biblioteca, não incluindo os ordenados do arquitecto Manuel Caetano de Sousa, orçados em réis 1800$000. No inventário realizado já se não acham na Casa do Livreiro: 2 prensas de aparar com seus engenhos e ferros, 1 fogareiro, 28 ferros de dourar. Inclui, no entanto, 1 candeeiro, 2 raspadeiras de aço, 2 pedras de moer tintas, que não constam da Relação de 1771.

 

1794

É solicitada autorização ao rei para colocar os livros nas novas estantes, apesar de inacabadas (na douradura e nos retratos dos painéis). O Padre Mestre Frei João de São José, que detém o cargo de bibliotecário, transfere os livros para as ditas estantes, sem, contudo, lhes dar qualquer ordenação sistemática.

 

1797

Início da elaboração de novo catálogo pelo bibliotecário e guardião do convento, Padre Mestre Frei Joaquim da Conceição (vulgo Vila Viçosa), responsável pela primeira classificação dos livros por temas.

 

1798

Agosto 18 - Morre Frei Joaquim da Conceição sem haver terminado a catalogação que encetara.

 

1800

A livraria de Mafra desperta a curiosidade do arqueólogo espanhol Don José Andres Cornide y Saavedra, encarregado por Godoy, mas alegadamente pela Academia Espanhola, de estudar as antiguidades do nosso país. Refere que ao tempo dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho chegara a possuir quarenta e cinco mil volumes, muitos dos quais haviam sido transferidos para S. Vicente de Fora quando os Arrábidos regressaram ao Convento de Santo António (Estado de Portugal en el año de 1800, cap. III, artigo 2º).

 

1801

Setembro 21 - O sacerdote sueco Carl Israel Ruders visita Mafra, considerando os catálogos da livraria conventual "mais explícitos que os da Biblioteca Real de Lisboa" (Portugisisk Resa, Beskrifven: Breftill Vanner, Estocolmo, 1805).

Novembro 4 - Grande festa em acção de graças pela paz geral durante três dias, havendo serenata todas as noites na casa imediata à livraria, onde cantam Crescentini, Angeleli, Persegil e outros músicos italianos. Na terceira noite participa a famosa Catalani, de São Carlos. Eusébio Gomes regista nas Memórias de Mafra (1800 a 1833): "Na Livraria armou-se um tablado, onde depois desta função fez o Pinetti muitas habilidades em uma só noite. O aperto era tanto que não podia passar a mais, e os frades tinham tido permissão para poderem ir gozar destes divertimentos, porém os que lá foram sofreram insultos muito atrevidos dos seculares; ali cada um parecia que estava em sua casa".

 

1803

Verão - O Conde de Lavradio narra nas suas Memórias que, em criança, assistira "sentado num grande livro, tirado para este efeito de uma das estantes [da biblioteca do Paço de Mafra], a uma serenata [...] dada ao Príncipe Regente e mais família real pelo Infante de Espanha, D. Pedro Carlos". A sala da Livraria achava-se muito bem iluminada tendo cantado as célebres Catalani e Gaforini e, entre outros, os cantores Valdi, Crescentini, Fioravanti, encontrando-se também presente João Cordeiro, o velho mestre da Capela d' El-Rei e professor de música das irmãs do memorialista (Ângelo Pereira, Os Filhos d' El-Rei D. João VI, Lisboa, 1946, p. 17, nota).

 

1807

Entre 1792 e 1807 os arrábidos terminam pequenos detalhes da Biblioteca, obras que custaram 2642$415 mil réis ao Erário.

A fl. 140 do v. 1 do catálogo de frei João de Santa Ana lê-se a seguinte nota, acrescentada à descrição da Biblia sacra cum universis de Francisco Vatabli (Paris, 1729, 4 vols.): "Falta o 1º tomo que estava no Quarto do Príncipe Real o Senhor Dom Pedro de Alcântara, e como este com a Família Real precipitadamente se ausentaram para o Brasil em 1807, por causa da invasão dos franceses, foi o dito livro no seu fato e quando se procurou já o fato tinha ido para bordo".

 

1809

Frei João de Santa Ana é nomeado bibliotecário da Livraria do Convento de Mafra. A ele se fica a dever a colocação nas estantes dos pergaminhos assinalando os temas nelas contidos, a organização sistemática ainda vigente, bem como o catálogo onomástico, constituído por 8 volumes manuscritos (315 x 210 mm). Tem como colaboradores Frei Manuel da Sacra Família e Frei Manuel de Santa Escolástica. O Reverendo James Wilmot Ormsby publica em Londres An account of the operations of the British Army, and of the state and sentiments of the people of Portugal and Spain, during the campaigns of the years 1808 and 1809, fazendo-se eco de uma notícia segundo a qual os invasores franceses haviam roubado da biblioteca "as obras mais valiosas e os mais antigos e preciosos manuscritos" (v. 1, carta III, p. 47). É exagerada a afirmação, no entanto, devido à retirada após a batalha do Vimeiro, alguns livros não terão sido restituídos, conservando-se, ainda em 1880, os respectivos recibos de empréstimo (Júlio Ivo, Os Franceses em Mafra, in O Concelho de Mafra, 27 Junho 1908).

Janeiro / Março - Caixotes com livros de Mafra, que não haviam sido embarcados quando Dom João VI partiu para o Brasil, terão seguido viagem durante este período (AHMF: Casa do Infantado, liv. 2979), crê-se que secretamente.

 

1816

Agosto 7 - Por carta, Louis François de Tollenare narra a excursão que realizara a Mafra. O Palácio encontra-o desguarnecido de móveis e ornamentos. Quanto ao Convento, a sua atenção dirige-se por inteiro para a biblioteca que estima corresponder a cerca de metade da de Santa Genoveva de Paris, tendo constatado a existência de muitas obras em língua francesa, de que destaca a Encyclopédie par ordre de Matiéres, a qual o padre bibliotecário, por sua vontade, destinaria à fogueira (Notes dominicales prises pendant un Voyage en Portugal et au Brésil en 1816, 1817 et 1818, Paris, 1971-1973).

 

1818

George Landmann, oficial de Engenharia no exército inglês, publica em Londres as Historical, Military and Picturesque Observations in Portugal,  obra na qual relata a sua visita a Mafra em cuja livraria observa uma excelente colecção das melhores publicações inglesas. Sublinha que antes da invasão francesa de 1807 o número de livros era superior aos 25 mil então contabilizados.

 

1819

Frei João de Santa Ana empreende a cópia do catálogo.

Agosto 11 - Por determinação de Dom João VI, João António Salter de Mendonça remete a João Lourenço de Andrade, na qual, além da nomeação de Frei Manuel de Santa Escolástica, comunica diversas outras deliberações régias  relacionadas com a Biblioteca (Anais das Bibliotecas e Arquivos de Portugal, s. 1, v. 1, 1915, p. 44).

 

1820

Frei Cláudio da Conceição publica o volume oitavo do Gabinete Histórico, obra onde se acha descrita a livraria (cap. XXXVII, p. 317-323), adiantando que "[...] tinha Sua Majestade [D. João VI] chaves, para poder entrar nela a todo o tempo, sem dependência do convento, nem perturbação da comunidade".

 

1821

Frei João de Santa Ana dá por concluída a reorganização da livraria conventual, tarefa em que foi secundado pelos bibliotecários Frei Manuel da Sacra Família e Frei Manuel de Santa Escolástica.

 

1825

Dezembro 5 - Alvará de Dom João VI institui o depósito legal em Mafra, tornando extensivas à sua livraria as disposições constantes no de 30 Dezembro do ano anterior, que determinava fosse remetida à Biblioteca Pública de Lisboa um exemplar de todas as obras impressas no Reino (cf. Colecção de todas as leis..., 1826, 1º semestre, fl. VI, p. 20).

 

1827

O 2º Tenente da Marinha, Ajudante Arquitecto da Casa do risco das Obras Públicas e Director das do Régio Palácio e Convento de Mafra, Amâncio José Henriques, oferece à Biblioteca as plantas do Monumento de Mafra, por si levantadas, explicadas no Real Edifício visto por fora e por dentro de Frei João de Santa Ana.

 

1828

Frei João de Santa Ana compõe o Real Edifício Mafrense visto por fora e por dentro, apresentando minuciosa descrição da Biblioteca (fl. 420-425).

 

1830

A livraria deixa de receber um exemplar de todas as obras impressas no Reino, conforme estipulava o Alvará de 5 de Dezembro de 1825.

 

1834

Março 7 - Procede-se ao inventário da BPNMafra a fim de verificar a sua integridade, tendo sido inquiridas para o efeito 5 testemunhas idóneas: Gaspar Carlos da Silva (durante mais de 41 anos habitante do mosteiro, onde foi guardião), Frei Joaquim de Nossa Senhora das Dores, Frei António da Purificação e Frei Brás do Sacramento (religiosos conversos) e Lourenço Justiniano Torcato (durante 42 anos aparelhador de carpinteiro no mosteiro). No Inventário número 246 dos Conventos Suprimidos constam na Casa do Livreiro apenas 2 prensas e 1 ferro de aparar.

Setembro 17 - Nesta data o regente mandou expedir ordens ao Prefeito da Província da Estremadura, "para dar as providências que julgar oportunas sobre o objecto de que tratava a sua Representação de quatro do corrente mês, relativamente à posse que tomou o Provedor do Concelho da Vila de Mafra das Cercas, Livraria, Baterias de cozinha e outros objectos que existiam no extinto Convento [...]" (Anais das Bibliotecas e Arquivos de Portugal, s. 1, v. 1, 1915, p. 45).

 

1836

O Conde de Canarvon, Henry John George Herbert, publica, em Londres, Portugal and Gallicia, obra que se reporta à biblioteca de Mafra.

 

1837

Novembro 7 - Ao presumir que a Biblioteca de Mafra não passara de uma livraria conventual de instituição régia (e não "de propriedade real"), a Comissão Administrativa do Depósito das Livrarias dos Extintos Conventos (Registo das actas das sessões,p. 68-69 [BN: AC/INC/DLEC/12/Caixa 02-02]) coloca em risco a sua sobrevivência. Tal intuito é evidenciado pela Acta 7 da CADLEC: "[...] na impossibilidade de recorrer a documentos por não existirem (ao menos a seu alcance) consultara pessoas respeitáveis e com profundo conhecimento da História antiga e moderna do País; as quais afirmaram que a Biblioteca da Mafra fazia uma parte integrante do convento, e que tendo este sido feito em cumprimento de um voto do Senhor Rei Dom João V fora por ele doado aos frades que o habitaram, os quais desde então estiveram sempre na livre posse e gozo da mesma livraria como propriedade sua" (ver 1840 e 2001).

 

1839

C. W. Vane, Marquesa de Londonderry, considera a "magnífica biblioteca [...] com 29 mil volumes na melhor ordem" um dos mais valiosos pertences do Palácio de Mafra (A steam voyage to Constantinople, by the Rhine and the Danube, in 1840-41 and to Portugal, Spain, etc., in 1839, Londres, 1842, v. 2, p. 143).

 

1840

Novembro 13 - Portaria do Ministro do Reino,  Rodrigo da Fonseca Magalhães, declara a Biblioteca de propriedade régia e, consequentemente, fora da alçada da Comissão Administrativa do Depósito de Livros dos Extintos Conventos (CADLEC), abonando-se, para o efeito, no argumento de "que pelos esclarecimentos até agora chegados a este Ministério, tudo induz a fazer acreditar que tanto a biblioteca da extinta Casa das Necessidades de Lisboa, como a do Convento de Mafra, são de propriedade real" [cf. Portarias relativas às actividades da Comissão Administrativa do Depósito das Livrarias dos Extintos Conventos [BN: AC/INC/DLEC/01/ cx. 01-01] e Copiador de portarias e ofícios relativos à actividade da CADLEC, p. 130 [BN: AC/INC/DLEC/04/cx. 01-02]).

 

1841

O escritor polaco Karl Dembrowski faz estampar em Paris a obra Deux ans en Espagne et en Portugal (1838-1840), onde considera magnífica a livraria conventual.

 

1842

O Príncipe Felix Lichnowsky visita Mafra, afirmando que a biblioteca "é mantida com uma ordem exemplar por dois velhos eclesiásticos, um dos quais está concluindo um excelente catálogo" (Portugal Erinnerungen aus dem Jahre 1842, Mogúncia, 1843).

Maio 25 - O Padre Inácio da Purificação é nomeado bibliotecário, com o ordenado de réis 360$000 anuais.

 

1843

George Borrow afirma que em Mafra "existe a mais bela biblioteca de Portugal, possuindo livros sobre todas as ciências e em todas as línguas, adequada à dimensão e grandiosidade do edifício que a contém" (The Bible in Spain, Londres, p. 5).

 

1852

William Edward Baxter publica, em Londres, The Tagus and the Tiber, onde descreve a sua chegada proveniente de Torres Vedras e afirma: "o principal motivo de atracção em Mafra é a biblioteca, contendo um número extraordinário de livros em todas as línguas, designadamente sobre assuntos religiosos, mas também históricos, jurídicos, filosóficos, poéticos e relacionados com diversos outros géneros literários. Os volumes estão elegantemente encadernados e notavelmente bem arrumados" (v. 1, cap. III, p. 53).

 

1854

Lady Emmeline Stuart Wortley dá à estampa, em Londres, A Visit to Portugal and Madeira, sublinhando a magnificência da biblioteca e o seu esplêndido acervo, o qual calcula corresponder a cerca de 30 mil volumes, metade do número avançado por Beckford que o terá, não intencionalmente, exagerado (p. 122-123).

 

1855

Maio 2 - Por morte do anterior bibliotecário do Paço Real de Mafra, o Padre António da Purificação Morais Cardoso e nomeado responsável pela livraria (Diário do Governo).

 

1866

Agosto 26 - A Gazeta do Campo inclui missiva subscrita por Um estudante, intitulada Frei Tomé das Chagas e o bibliotecário d' esta villa, da qual sai manifestamente prejudicada a imagem do Padre António da Purificação Morais Cardoso, acusado de não facultar aos investigadores "nem a vista do catálogo, nem a proximidade da galeria", alegando até a inexistência no acervo de certos autores, supostamente para impedir a sua consulta.

 

1873

Lady Jackson contabiliza cerca de 25 mil livros e alguns raros manuscritos na biblioteca (Fair Lusitania, cap. XVI).

 

1875

O Almanach Burocratico de Aristides Abranches apresenta António da Purificação Morais Cardoso como bibliotecário da Biblioteca do Paço Real de Mafra.

 

1878

Joaquim da Conceição Gomes publica A Bibliotheca Real de Mafra (In Bol. da Real Assoc. dos Architectos Civis e Archeologos Portuguezes, t. 2, n. 7, p. 102 e n. 8, p. 118-119).

 

1882

Novembro - Por morte do Padre António da Purificação Morais Cardoso a administração da biblioteca passa para a responsabilidade do Almoxarifado do Paço.

 

1883

Jane Leck visita Mafra que descreve nos Iberian Sketches (Glasgow, 1884). A propósito da biblioteca, de que trata sumariamente, sublinha que "[...] faria o coração de um bibliófilo sangrar ver o estrago realizado nas esplêndidas encadernações de pergaminho e carneira pelos implacáveis e não molestados insectos".

 

1887

Possidónio Narciso da Silva destina à Biblioteca elevado número de publicações artísticas e científicas contemporâneas.

Agosto 14 e 21 - O Jornal de Mafra insere artigo de Joaquim da Conceição Gomes, intitulado Monumento de Mafra: Bibliotheca.

Setembro 4 - Fica concluída a publicação do artigo supracitado de Joaquim da Conceição Gomes.

 

1888

Os irmãos Francisco e Hermenegildo Giner de los Rios não se decidem quanto ao número de volumes existente na biblioteca, se 25 ou 30 mil (Portugal: impresiones para servir de guia al viagero).

 

1889

Julho 17 - Dom Luís recebe do arquitecto Joaquim Possidónio Narciso da Silva a doação de uma colecção de obras artísticas e científicas (cerca de 1330 livros) com destino à biblioteca de Mafra (O Monumento de Mafra, in O Mafrense, 12 Jan. 1890).

 

1894

O arquitecto Possidónio Narciso da Silva manifesta a Joaquim da Conceição Gomes o seu agradecimento pela ordenação do acervo que doara à biblioteca do Paço e pela elaboração do respectivo catálogo (o qual não corresponde à ordem actual das publicações).

 

1895

Na Sala de Sua Majestade El-Rei da Exposição de Arte Sacra Ornamental, promovida pela Comissão do Centenário de Santo António, figuram peças de Música Sacra da Biblioteca do Paço Real de Mafra (Catálogo, p. 86-90).

 

1898

O Catálogo de Frei João de Santa Ana é revisto pelo capitão de infantaria João Correia dos Santos.

 

1900

Novembro 6 - Aires Augusto Braga de Sá Nogueira e Vasconcelos é nomeado bibliotecário por Portaria da Administração da Fazenda da Casa Real, sucedendo ao Almoxarife do Palácio que desempenhara o cargo desde 1882.

 

1901

Julho 7 - O Correio de Mafra (artigo intitulado Real Bibliotheca de Mafra) elogia o desempenho de Aires de Sá como bibliotecário, anotando que a biblioteca tem "recebido dia a dia grande quantidade de obras dignas de menção". Encontra-se aberta ao público diariamente, no período compreendido entre as 11 e as 16 horas.

 

1902

Agosto - O Diário de Notícias relata uma demorada visita de D. Carlos à biblioteca, durante a qual teve oportunidade de observar muitas das suas preciosidades.

 

1904

Março 6 - O francês Gaston Spira Thaun furta da biblioteca 3 obras quinhentistas, a saber: o Cancioneiro Geral Espanhol (edições de 1527 e 1573) e a Chronica del Famozo Cavalleiro Cid Roy Diez Campeador (1593). O Diário de Notícias (12, 13, 17 e 25 Março) e O Correio de Mafra (17 Março, 3, 10 e 17 Abril, 1 Maio) acompanham o episódio, narrando a detenção do ladrão no Porto, sua entrega à justiça e julgamento, numa série de artigos intitulados O larápio das Bibliothecas  (assinados A. P.) e O Roubo dos Livros da Biblioteca do Real Convento, respectivamente. A correspondência e demais documentos relativos ao processo, recebidos pelo Administrador do Concelho de Mafra, arquivam-se actualmente no Arquivo Histórico de Mafra.

Agosto - O japonês Katisako Aragwisa visita Mafra na companhia do humorista Mardel. Termina o périplo do edifício pela biblioteca onde é apresentado a Aires de Sá. Impressionado pela sua grandiosidade e magnificência, recorda que ouviu dizer tratar-se da mais bela biblioteca de todo o mundo (Alfredo Gallis, Cartas de um Japonez, Lisboa, 1907, p. 223-224). Aires de Sá apresenta na revista A Caça (a. 6, n. 1, p. 2-4) o folheto da Biblioteca Volante [PNMafra: 2-55-7-22] intitulado Relação em que se dá conta da jornada que fizeram suas magestades e altezas e a maior parte da nobreza da corte a ganhar o santo jubileu á Real Basilica de Mafra, e copia do breve por onde elle foi concedido, para cujo fim concorreu grande concurso de pessoas de todos os sexos d' este Reino. Dá-se noticia do numero das pessoas que se confessaram e comungaram, e das que crismou o excellentissimo bispo de Macau e da caçada real que suas magestades fizeram, e do numero de rezes que mataram (Lisboa, 1752).

Setembro - Aires de Sá transcreve longo excerto do folheto supra (El-Rei D. José em Mafra, in A Caça, a. 6, n. 2, p. 22-23).

 

1905

Agosto / Setembro - Aires de Sá edita excertos de um opúsculo anónimo da Biblioteca Volante [PNMafra: 2-24-8-9], intitulado Relação da plausivel jornada que Suas Magestades Fidelissimas com toda a familia Real fizeram ao seu magnifico Convento da Villa de Mafra pela festividade do grande patriarcha S. Francisco n' este anno de 1750 [...] (El-Rei D. José em Mafra, in A Caça, a. 7, n. 1, p. 7-9 e n. 2, p. 19-21).

 

1908

Walter Crum Watson considera a biblioteca uma das melhores dependências do Monumento de Mafra (Portuguese Architecture).

 

1910

G. Le Roy Liberge publica Trois Mois en Portugal (Paris) onde, a propósito da biblioteca, escreve: "todos os volumes estão encadernados a branco" (p. 100).

Outubro 5 - Aires de Sá demite-se do cargo de bibliotecário no próprio dia da implantação da República. A biblioteca fica a cargo do Administrador do Palácio, todavia, na prática, a tarefa será desempenhada pelos fiéis do edifício, situação que se manterá até 1937.

 

1912

Junho 4 - Júlio Dantas visita a Biblioteca conventual na companhia do Ministro do Interior. Entrevistado, coloca como hipótese a sua integração no quadro das bibliotecas e arquivos dependentes da instrução pública e consequente extinção, destinando as obras mais vulgares à criação de um fundo de livraria a colocar em Beja ou Faro, uma vez que a BPNMafra se acha "num lugar isolado e de difícil acesso, está reduzida à condição de um simples museu, em que há entregues à guarda insuficiente de um velho criado do paço trinta mil volumes que ninguém utiliza, em cento e cinquenta estantes, onde ninguém toca" (O Século).

Junho 11 - O Dr. Carlos Galrão publica artigo em O Século, criticando os argumentos avançados por Júlio Dantas para proceder à "vandálica extinção da Biblioteca de Mafra".

 

1913

Junho - José António Tavares entra ao serviço da biblioteca.

 

1914

Abril - A Enciclopédia das Famílias (a. 28, n. 328, p. 258) inclui artigo intitulado Monumentos Históricos: Bibliotheca de Mafra.

 

1915

É publicado A Biblioteca de Mafra: cópia de documentos do Arquivo da Administração da extinta Casa Real (Anais das Bibliotecas e Arquivos de Portugal, s. 1, v. 1, p. 44-45).

 

1916

Novembro 30 - João Paulo Freire assina com o pseudónimo Mário artigo intitulado Desleixo Criminoso ! - A bibliotheca de Mafra ao abandono ! - Para o sr. Júlio Dantas ler, meditar... e proceder (A Ordem).

 

1918

Fevereiro - Por falecimento de José Tavares António, no mês anterior, a guarda e conservação da biblioteca ficam a cargo de Eduardo de Sousa Gomes.

 

1920

Janeiro 12 - Na sequência do suicídio de Eduardo de Sousa Gomes (numa das dependências da biblioteca), o, à data, administrador (posteriormente conservador) do Palácio, José da Costa Jorge, assume a tarefa de zelar por ela. Organiza uma lista dos incunábulos que compõem o seu acervo.

Abril / Junho - É publicada uma lista composta por 21 Incunábulos da Biblioteca de Mafra (Anais das Bibliotecas e Arquivos de Portugal, s. 2, v. 1, n. 2, p. 137-138).

 

1921

Março 27 - O Liberal (artigo intitulado Biblioteca de Mafra) insere notícia relatando a visita de Raúl Proença, com o fim de fazer uma relação das obras portuguesas impressas no século XVI existentes na Biblioteca do Palácio, então sob a administração de José da Costa Jorge.

Abril / Junho - Raúl Proença publica o artigo Regras de Catalogação dum bibliothecario dos principios do século XIX (Anais das Bibliotecas e Arquivos de Portugal, v. 2, n. 6, p. 154-155), no qual estuda e transcreve os critérios adoptados por Frei João de Santa Ana para a classificação do acervo da livraria de Mafra.

 

1926

António Joaquim Anselmo publica Bibliografia das Obras impressas em Portugal no século XVI, com inúmeras referências ao acervo da BPNMafra (ver 1967).

Abril 15 - Armando Boaventura publica o artigo Alviçaras dão-se... - Onde pára um valioso manuscrito referente á vida de El-Rei D. Sebastião, e que pertencia á Biblioteca do Convento de Mafra ? - Uma visita ao grandioso mosteiro de D. João V - Portugal paiz de ... Turismo... - De Lisboa a Mafra ... - O Museu instalado no antigo Palácio Real - A Biblioteca - Depois da Republica ... - Á procura de uma chave ... - Uma entrevista com o director das bibliotecas municipaes de Coimbra - E o mais que se lerá ... (A Época). O manuscrito em causa fora consultado por Raúl Brandão quando cumpria o serviço militar em Mafra e, constava que tinha desaparecido da biblioteca.

 

1927

Janeiro / Dezembro - Pedro de Azevedo publica Alguns ex-libris manuscritos (Anais das Bibliotecas e Arquivos, s. 2, v. 8, n. 29-32, p. 155-157), artigo no qual reproduz, a partir de informação fornecida por Aires de Sá, exemplo subscrito por Joaquim José Freire, extraído do ante-rosto do Combate Espiritual (Lisboa, 1761) do Padre D. Lourenço Scupoli: "Se este livro for achado, / Caso venha a ser perdido / Para ser mais conhecido / Leva o meu assignado. / Se, a caso, for emprestado, / Para algum conhecimento, / Se lhe dê bom tratamento, / Quem houver de nelle ler, / Para que não venha a ser / O livro do esquecimento" (n. 17, p. 156).

 

1928

J. M. Cordeiro de Sousa publica O que levaram os caixões que foram para o Brasil (Notícias do Passado,  p. 59-60).

 

1930

A revista valenciana Armas de Colegio (a. 14, n. 150, p. 276) publica artigo sobre Mafra, no qual sublinha que "uma das peças mais dignas de ser visitada é a dilatada biblioteca com formosa abóbada e ricas estantes". O 4º Conde de Mafra, Tomás de Mello Breyner, narra nas suas Memórias (1869-1880) episódios ocorridos consigo, quando criança, na biblioteca, local ideal para a patinagem, de onde os príncipes e jovens cortesãos partiam para "dar a volta toda ao palácio sempre patinando" (p. 298). Recorda ainda os livros com estampas, algumas interditas aos visitantes da sua idade, que consultara demorada e repetidamente (p. 299-300). Aires de Sá publica Príncipe Real D. Luís Filipe (Lisboa), com interessante anotação sobre uma visita de D. Carlos à biblioteca do Paço (ver 1902).

 

1932

Paul de Laget publica En Portugal (Paris), obra na qual dedica capítulo a Mafra, onde se lê: "[Dom João V] fundou numerosas bibliotecas cujo fausto jamais foi igualado, tal como a da Universidade de Coimbra. A de Mafra merece uma visita" (p. 178).

 

1933

Junho 4 - Ernesto Soares publica O Terramoto de 1755 em Mafra, reproduzindo parcialmente o folheto manuscrito da Biblioteca Volante, intitulado Catalysis ou Assolação da cidade de Lisboa pelo terramoto do 1º Novembro de 1755 com a perservação [sic] do Real Convento junto à villa de Mafra, composta pelo Padre Alberto da Fonseca Rebelo Lisbonense, graduado na Faculdade dos Sagrados Canones pela Universidade de Coimbra (O Concelho de Mafra).

Setembro 24 - Carlos Galrão publica In Illo Tempore..., artigo no qual revela um documento de Dom José (27 Fevereiro 1761) arquivado nos reservados da Biblioteca de Mafra (O Concelho de Mafra).

 

1937

Outubro 23 - Graças ao empenho do Director Geral da Fazenda Pública, António Luís Gomes, e do Inspector Superior das Bibliotecas, Júlio Dantas, é publicado o Decreto-Lei n. 28107, que determina a abertura da BPNMafra à leitura pública, definindo também o quadro do seu pessoal: 1 segundo bibliotecário director, 1 aspirante, 1 contínuo de primeira classe e 1 contínuo de segunda classe (Crónica: Abre-se ao público a Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra, in Anais das Bibliotecas e Arquivos, v. 12, n. 49-50, p. 161-162). Doravante ficará administrativamente dependente da Direcção-Geral da Fazenda Pública e, tecnicamente, da Inspecção Superior das Bibliotecas e Arquivos. Transferido da biblioteca da Universidade de Coimbra, a cujo quadro pertencia, José Dias dos Santos Coelho é nomeado Bibliotecário-Director. Novembro - De acordo com ofício do Director, José dos Santos Coelho, é autorizada superiormente a construção "nesta biblioteca de um tanque em cimento armado, para aproveitamento da água das chuvas, destinada a prover este estabelecimento com a água necessária para a sua limpeza [...]".

 

1938

Janeiro 2 - A BPNMafra é aberta à leitura pública. Aproveitando a visita do Curso de Férias da Universidade de Lisboa é inaugurada uma exposição da camoneana do acervo.

Março - É inaugurada uma exposição de Livros de Medicina, por ocasião da visita do Auto Club Médico Português.

Abril 23 - O Regionalista (artigo intitulado Biblioteca de Mafra) publica carta de José Dias dos Santos Coelho (datada de 18) sobre o movimento da biblioteca, realçando as doações dos ilustres mafrenses, Júlio Ivo e Carlos Galrão. A Comissão Cultural do Sport Algés e Dafundo é recebida em Mafra, onde se desloca para visitar uma exposição bibliográfica organizada pelo director da Biblioteca.

Abril 26 - O Diário de Notícias informa que a Polícia de Investigação Criminal prossegue as averiguações sobre um importante furto de livros raros na BPNMafra, tendo detido como suspeito o almoxarife do Palácio, José da Costa Jorge, o qual recolhera aos calabouços do Torel.

Abril 27 - José da Costa Jorge, antigo conservador da Biblioteca é remetido ao tribunal da comarca de Mafra, implicado num furto de livros raros (Diário de Notícias, 28 Abr.).

Maio 1 - O Bibliotecário-Director concede entrevista a O Regionalista (O Roubo de preciosos volumes na Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra), na qual revela a ocorrência de um vultoso furto, alegadamente praticado por José da Costa Jorge, na BPNMafra.

Julho 22 - José Dias dos Santos Coelho remete à Direcção da Fazenda Pública ofício com o inventário dos cerca de 70 títulos furtados da BPNMafra, juntamente com número considerável de gravuras. A lista inclui seis incunábulos, jamais recuperados, que se julga (actualmente) poderem achar-se em Inglaterra: Comentários, de Júlio César (1469), Vitae philosophorum, de Diógenes Laércio (1475), Satyrarum opus, de Francisco Filelfo (1476), Livre de Baudouin conte de flandres et de Ferrãt filz au roy de Portingal (1478), Regimiento de los principes (1474), Leyes hechas por los muy altos e poderosos principes e señores dõ Fernãndo y la reina Dõna Isabel (1495).

Julho 27 - Encontra-se concluído o inventário dos jornais da BPNMafra, incluindo os doados por Júlio da Conceição Ivo (inédito).

Agosto - É inaugurada uma mostra de crónicas portuguesas, obras respeitantes a Ordens religiosas e encadernações notáveis.

Outubro - São devolvidos à biblioteca diversos manuscritos que lhe pertenciam, bem assim como as Obras do Doctor Francisco Saa de Miranda (1614) e as Obras de Luis de Camões (1669), volumes estes na posse de um particular que os detectara entre livros herdados.

 

1939

Janeiro 1 - Carlos da Silva Lopes publica A Biblioteca de Mafra (O Concelho de Mafra).

Janeiro - Exposição de livros raros e preciosos.

Março - São integrados no acervo da biblioteca os Forais manuelinos de Vila do Prado (1510) e de Terras de Bouro (1514), remetidos pela Repartição do Património da Direcção-Geral da Fazenda Pública.

Abril - Exposição de obras relativas à história da imprensa desde o século XV (cf. Uma admirável exposição bibliográfica, in O Concelho de Mafra, 7 Mai. 1939). José da Costa Jorge é condenado a dois anos de prisão pelo furto de livros da BPNMafra, alguns dos quais jamais serão recuperados.

Agosto - São incorporadas 26 obras de cariz religioso que se achavam numa arrecadação do Convento das Trinas.

Outubro 7 - O director da BPNMafra conclui a elaboração do catálogo das Obras quinhentistas de autores nacionais impressas no estrangeiro (inédito).

A arrumação é muito alterada no que diz respeito às obras guardadas nas estantes inferiores, mantendo-se apenas nas da Galeria.  Naquelas, "para se obter um efeito estético mais agradável à vista, os volumes foram dispostos por ordem crescente de alturas"!

 

1940

Agosto - É reincorporado na biblioteca o Real Edificio Mafrense visto por fora e por dentro (1828), obra manuscrita de Frei João de Santa Ana.

Agosto 21 - Até esta data apenas dezanove dos volumes furtados por José da Costa Jorge foram recuperados.

Outubro 14 - Exposição de obras de temática militar, cuja Relação (inédita) é elaborada por José Dias dos Santos Coelho. A. P. publica Leituras Militares na Biblioteca Nacional de Mafra (Infantaria, a. 7, n. 83, p. 554-560), incluindo o elenco das obras patentes.

 

1941

Janeiro 3 - Guilherme Assunção publica o artigo A Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra é, no género, uma das maiores do mundo (O Primeiro de Janeiro), onde faz o que chama "uma sucinta e modesta descrição da sua grandiosidade".

Maio 17 - Correia da Costa publica Política do Espírito: A Biblioteca do Mosteiro de Mafra (Diário de Lisboa).

Dezembro - Guilherme Assunção publica a introdução do catálogo Os Clássicos latinos da Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra (Ocidente, v. 15, n. 27, p. 417-421).

 

1942

António Ibot publica, em Madrid, Fuentes Historicas Españolas en la Biblioteca del Palacio Nacional de Mafra (Portugal). José dos Santos Coelho publica Uma Edição póstuma, antedatada, da obra "Concordia Liberi Arbitrii" (Anais das Bibliotecas e Arquivos, v. 15, n. 57-60, p. 43-46), reportando-se ao exemplar desta controvertida obra do jesuíta Luís de Molina existente no acervo, no qual detectou algumas discrepâncias que deixa anotadas.

Dezembro 6 - J. M. Cordeiro de Sousa publica Notícia de algumas Livrarias (O Concelho de Mafra), onde transcreve duas cartas de Dom Luís da Cunha comunicando a Dom João V as suas impressões sobre livrarias europeias que visitou, com vista à organização, presume o editor, da de Mafra.

 

1943

António de Andrade Rebelo substitui José Dias dos Santos Coelho.

Abril 4 - J. M. Cordeiro de Sousa publica Outra Carta de D. Luiz da Cunha (O Concelho de Mafra), sobre o assunto supra.

 

1944

Guilherme José Ferreira de Assunção publica Uma Bula do Papa Bento XIV para a Biblioteca de Mafra (Ocidente, v. 23, p. 164-173).

 

1945

Setembro - Exposição de obras sobre o Brasil.

Dezembro - Temporais danificam caixilharias da Biblioteca e salas anexas, "partindo-se mesmo alguns pinásios, sendo de 142 o número de vidros quebrados".

 

1946

Maio / Agosto - Carlos Galrão publica Um problema de cerâmica (Bol. da Junta de Província da Estremadura, s. 2, n. 12), artigo no qual, reportando-se à herança do Padre Alexandre António Duarte (sobrinho do cónego regrante Mariano António Duarte), informa que "muitos volumes eram da Livraria do Convento, de que tinham a marca" (p. 211).

Julho - Durante uma visita de inspecção à BPNMafra, o Inspector da Inspecção Geral das Bibliotecas e Arquivos, António Ferrão, emite o parecer de "que para melhor segurança das espécies, deviam dotar-se as estantes [inferiores] de portas, fechadas à chave, com rede de arame [...]"!

Agosto 16 - O parecer de António Ferrão é oficialmente comunicado a A. Luís Gomes, Director Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais.

 

1947

Abril - António de Andrade Rebelo compõe um elenco das Obras relativas à Cidade de Lisboa (inédito).

Abril 11 - É apresentada ao Director-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais uma proposta no sentido de ser estudada a instalação de alojamentos destinados ao Director da Biblioteca, uma vez que, por despacho de 17 de Janeiro, o Ministro das Finanças se dignara concordar com a ideia.

Setembro 3 - A obra de vedação das estantes da Biblioteca continua pendente.

Setembro / Dezembro - Guilherme Assunção publica Os Incunábulos da Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra (Bol. da Junta de Província da Estremadura, s. 2, n. 16, p. 393-407), descrevendo 17 cimélios.

 

1948

Fevereiro 3 -O Director de Serviços dos Monumentos Nacionais oficia ao engenheiro Director Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, informando-o "de que já se encontra colocada numa das estantes da BPNMafra, como amostra uma grade em madeira e rede, segundo, desenho junto [...]".

Março - A Biblioteca Municipal de Mafra envia à Biblioteca do Palácio a Bula do Papa Bento XIV que estipula a excomunhão para todos quantos dela retirem livros sem autorização.

Março 12 -  Ofício do Director de Serviços dos Monumentos Nacionais remetido ao engenheiro Director Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais informa "que para a execução de 536 grades para as estantes da BPNMafra se torna necessária uma verba de Esc.: 118.000$00".

Junho 6 - A propósito da publicação de Os Incunábulos da Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra, o periódico O Concelho de Mafra noticia que o mesmo autor tem prontos para publicação os três volumes da Biblioteca Volante de Frei Matias da Conceição.

Julho - O Professor Robert Smith é impedido de visitar a Biblioteca pelo contínuo Fernando da Cunha Oliveira, mandatado pelo Director da mesma.

 

1949

Fevereiro 2 - Ofício recebido pelo engenheiro Director Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais informa-o que a residência do Director da BPNMafra, poderia ser instalada na que estava destinada ao Conservador do Palácio.

Maio / Agosto - Guilherme Assunção dá à estampa A Biblioteca Volante de Frei Matias da Conceição: prefácio da obra com o mesmo título (Bol. da Junta de Província da Estremadura, s. 2, n. 21, p. 237-242) e tem prontos para publicação As Bíblias da Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra e Os Atlas da Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra (inéditos).

Junho 4 - Ofício estima em Esc. 97.950$00 a importância necessária para as obras da residência destinada ao Director da Biblioteca.

O bibliotecário apresenta o Esboço da participação da Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra e Biblioteca Municipal nas cerimónias a realizar por ocasião do duplo centenário da morte de D. João V. À BPNMafra competiria organizar um Sarau de Arte (de que constaria a representação do Auto da Fundação do Convento de Mafra, a declamação de poesias e panegíricos alusivos a Dom João V e um concerto de música de Câmara profana e sacra), uma Exposição de espécies bibliográficas e um ciclo de Conferências.

 

1950

Abril - Guilherme Assunção procede à catalogação dos Livros de Horas, elaborando,  igualmente, a descrição dos 4 Globos da Biblioteca do PNMafra (inédita).

Maio - Guilherme Assunção elenca as Obras relativas a São João de Deus (inédito).

Julho 30 - A Biblioteca e o Palácio Nacional, conjuntamente com a Biblioteca Municipal, inauguram diversas exposições bibliográficas e de arte, comemorativas do Bicentenário do falecimento de D. João V. No seu âmbito é editada uma brochura intitulada D. João V sua vida e obra: catálogo da exposição bibliográfica comemorativa [BN: B 3511 P].

 

1951

Setembro 15 - O projecto para a residência do Director da BPNMafra é abandonado, sendo-lhe atribuída a habitação do encarregado do pessoal menor, "acrescida de alguns melhoramentos".

Outubro 1 - Álvaro Ferrand de Almeida Fernandes é nomeado director da biblioteca.

O padre Ilídio de Sousa Ribeiro publica Frei Francisco de Santo Agostinho Macedo: um filósofo português e um paladino da Restauração (Coimbra, 1951), estudo no qual arrola as obras do biografado constantes do acervo da BPNMafra.

 

1952

Março 26 - Novo estudo para a habitação do bibliotecário é presente ao Arquitecto Chefe da Repartição Técnica da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais.

Exposição de livros militares e relativos à História de Inglaterra. Álvaro Ferrand de Almeida Fernandes conclui o catálogo das Obras de Medicina e Farmácia (inédito).

Julho 5 - Maria Brak-Lamy Barjona de Freitas publica a Arte do Livro no Convento de Mafra (A Voz), artigo no qual revela documentos setecentistas inéditos do Arquivo Histórico do Ministério das Finanças (inventários de 1771, fl. 52-54 e de 1792), descrevendo os objectos pertencentes à oficina de encadernador (Casa do Livreiro) do Convento de Mafra, bem como as encadernações-tipo que ali se realizavam: Carneira "atamarada" (sombreado castanho-claro, macio, geralmente obtido com soda cáustica muito diluída), cantos de metal presos por balmazios, 6 nervos, tendo na 2ª casa a seco letras (título) e na 5ª a palavra MAFRA.

Agosto 9 - Novo artigo de Maria Brak-Lamy Barjona de Freitas intitulado a Arte do Livro no Convento de Mafra. II - Estampilhagem  (A Voz), no qual narra a sua visita ao Palácio-Convento de Mafra (no dia 29 de Maio) com o intuito de observar as estampilhas metálicas utilizadas pelos religiosos do cenóbio para ornar livros existentes na Biblioteca.

Outubro - Uma infiltração no tecto da BPNMafra provoca a queda do estuque em diversos locais da abóbada apainelada, designadamente no lado nascente do cruzeiro. A resolução do problema arrastou-se até 1968, ano em que foram realizados alguns arranjos, porém não impedindo novas infiltrações, que haviam de repetir-se ciclicamente até às obras empreendidas na década de 1980.

 

1953

Março - As Obras de Joaquim Machado de Castro são inventariadas pelo director  (inédito).

Julho - Álvaro Ferrand de Almeida Fernandes tem concluído o catálogo das Obras contendo gravuras das cidades fundadas e conquistadas pelos portugueses fora da Europa (inédito).

Setembro - O director elabora o inventário das Obras relativas à Casa de Bragança (inédito).

 

1954

Março - Álvaro Ferrand de Almeida Fernandes conclui o catálogo das Obras de Santo Agostinho da BPNMafra (ver 1955).

Maio 13 - São incorporadas 90 obras de farmácia, na sua maioria edições dos séculos XVIII e XIX, doação de Jorge Pereira da Gama.

Junho 27 - Ayres de Carvalho publica Uma estátua equestre do Rei D. João V (Diário de Notícias), artigo no qual se ocupa de um opúsculo de João António Beline de Pádua, integrado na Biblioteca Volante [BPNMafra: 2-29-3-6].

 

1955

Abril / Junho -  A Revista Portuguesa de Filosofia (t. 9, v. 1, n. 2, Abril - Junho, p. 193-196) publica o Catálogo das obras de Santo Agostinho existentes na Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra, organizado por Álvaro Ferrand de Almeida Fernandes.

Georges Bonnant publica La Librairie Genevoise au Portugal du XVIe au XVIIIe siècle (in Genava, nova série, t. 3, p. 183-200).

Exposição sobre a História da Imprensa. A. Ferrand de Almeida Fernandes publica A Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra (Arquivo de Bibliografia Portuguesa, a. 1, n. 3, Julho - Setembro, p. 225-229; n. 4, Outubro - Dezembro).

 

1956

Carlos Azevedo publica em Londres Some Portuguese Libraries (The Connoisseur Year Book, p. 31-39).

Janeiro / Março - A. Ferrand de Almeida Fernandes conclui a publicação de A Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra (Arquivo de Bibliografia Portuguesa, a. 2, n. 5, p. 39-49).

Fevereiro 18 - Manuel dos Santos Estevens profere na sala da biblioteca conferência subordinada ao título Evolução das Bibliotecas eruditas em Portugal.

Exposição de obras ostentando marcas de posse.

Abril - Álvaro Ferrand de Almeida Fernandes estabelece o indículo das obras do acervo sobre o Beato Nuno Álvares Pereira (inédito).

Junho 23 - Alberto Iria profere conferência (a 3ª do ciclo) sobre O Congresso de Biblioteconomia do Recife [1954]: alguns aspectos, problemas, soluções e sugestões, sendo apresentado por A. Ferrand de Almeida Fernandes (Anais das Bibliotecas e Arquivos de Portugal, s. 3, v. 1, p. 261-303).

Dezembro 20 - O Arquivo Histórico Ultramarino oferece 149 espécies bibliográficas e 52 cartas manuscritas.

 

1957

Janeiro / Junho - O director publica Notícia sobre o exemplar da Copilaçam de todalas obras de Gil Vicente, da impressão de 1562, existente na Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra (Arquivo de Bibliografia Portuguesa, a. 3, n. 9-10, p. 10-15), descrevendo esta raridade bibliográfica e anotando as censuras e advertências manuscritas do censor inquisitorial a quem fora confiado o seu expurgo.

Maio 20 - A. Ferrand de Almeida Fernandes suspende transitoriamente o desempenho das suas funções de director, sendo substituído interinamente por Francisco Xavier Martins.

Junho 12 - É inaugurada uma exposição de obras de temática bíblica, cuja Relação (inédita) tem data de 21 de Maio.

 

1958

Guilherme Assunção publica Um grande bibliotecário dos começos do século XIX (in À Sombra do Convento, p. 77-84). O carmelita frei Elias Maria Cardoso dá à estampa A Bibliografia Condestabriana (Roma), onde regista os exemplares do acervo da Biblioteca que interessam ao tema.

Março 14 - São enviados para o Paço Ducal de Vila Viçosa cerca de um milhar de volumes, na sua maioria romances de literatura francesa, que haviam pertencido a Dom Carlos e à Rainha Dona Maria Pia.

E. J. F. Sampaio publica os artigos Contribuição para o estudo da entomofauna do livro em Portugal e Situação sanitária das bibliotecas e Arquivos (Anais das Bibliotecas e Arquivos de Portugal, s. 3, p. 376-382 e 383-394, respectivamente). No primeiro destes artigos descreve os bibliófagos-xilófagos detectados na Biblioteca de Mafra: Nicobium Castaneum Ol. e Anobium Punctatum Deg. (papel e lâminas de madeira das encadernações); Anthrenus Verbasci L. e Attagenus Sp. (cabedais); Stegobium Paniceum L. (zonas de colagem).

 

1959

Julho 29 - Por ocasião da visita do Imperador da Etiópia, Heilé Seilassié, é inaugurada uma exposição de obras relativas àquele país, cujo Elenco (inédito) é elaborado por Guilherme Assunção.

Novembro - Francisco Xavier Martins compõe os inventários das Obras do Padre Manuel Álvares e de Frei Gregório Baptista (inéditos).

 

1960

A. Fontoura da Costa publica A Marinharia dos Descobrimentos, com referências a obras da Biblioteca.

Dezembro 31 - Álvaro Ferrand de Almeida Fernandes abandona definitivamente o cargo de director, deixando inéditos, entre outros trabalhos, os catálogos: Obras sobre História de Portugal, Obras de Manuel Almeida e Sousa, Obras de Anatomia, etc.

 

1961

Georges Bonnant publica La Librairie Genevoise dans la Peninsule Ibérique au XVIIIe siècle (in Genava, t. 9, p. 103-124).

Março 3 - Com a saída de Francisco Xavier Martins, o aspirante Guilherme Assunção torna-se responsável pela biblioteca.

Março 7 - Guilherme Assunção tem concluído o Catálogo das Bíblias em Português (inédito).

Agosto 23 - É inaugurada uma exposição de obras de temática militar.

 

1964

Abril / Junho - Guilherme Assunção publica Obras de tipografia belga na Biblioteca de Mafra, século XVI (Bol. Internacional de Bibliografia Luso-Brasileira, v. 5, n. 2, p. 260-270).

Junho - Para assinalar a visita de Oficiais e Cadetes das Academias Militares de Espanha e de Portugal é inaugurada uma exposição de livros militares. É elaborado um resumo da história e situação da biblioteca, destinado ao Roteiro das Bibliotecas Portuguesas.

Julho / Setembro - Guilherme Assunção publica Obras de tipografia francesa na Biblioteca de Mafra, séculos XV e XVI (idem, n. 3, p. 453-481).

Outubro 22 - Carlos Taveira oferece 14 livros religiosos e históricos do século XVIII.

Outubro / Dezembro - Guilherme Assunção publica Obras de tipografia austríaca, holandesa e portuguesa na Biblioteca de Mafra, século XVI (idem, n. 4, p. 635-639).

 

1965

Janeiro / Março - Guilherme Assunção publica Obras de tipografia espanhola na Biblioteca de Mafra, século XVI (Bol. Internacional de Bibliografia Luso-Brasileira, v. 6, n. 1, p. 135-148).

Abril - Guilherme Assunção elabora o elenco das Obras de Manuel Fernandes Vila Real (inédito).

Outubro - As Obras de Gil Vicente são alvo de inventário (inédito) elaborado por Guilherme Assunção.

 

1966

Janeiro - Por ocasião da visita do Ministro da Guerra do Brasil é organizada uma mostra de livros sobre aquele país e sobre assuntos militares. Guilherme Assunção tem elaborado o indículo das Obras do Cardeal César Barónio (inédito).

Janeiro / Março - Guilherme Assunção publica Obras de tipografia alemã na Biblioteca de Mafra, séculos XV e XVI (Bol. Internacional de Bibliografia Luso-Brasileira, v. 7, n. 1 p. 71-89)

Abril / Junho - Guilherme Assunção inicia a publicação de O Brasil nas obras da Biblioteca de Mafra (idem, n. 2, p. 310-362).

Julho / Setembro - Fica concluída a publicação de O Brasil nas obras da Biblioteca de Mafra (idem, n. 3, p. 474-511).

Outubro / Dezembro - Luís de Matos referencia as obras de António de Gouveia (Comédias de Terêncio, Paris, 1552 e Opera Iuris Civilis, Lyon, 1562) pertencentes ao acervo (Sobre António de Gouveia e a sua obra, in idem, n. 4, p. 557-583).

 

1967

Para assinalar uma visita cultural dos Amigos de Lisboa são expostas obras sobre esta cidade. É ainda organizada uma mostra de livros militares, subordinada aos temas: Infantaria, Artilharia, Engenharia, Ética e Disciplina Militar e Cavalaria.

Janeiro / Março - Guilherme Assunção publica Obras de tipografia italiana e suiça na Biblioteca de Mafra, séculos XV e XVI (Bol. Internacional de Bibliografia Luso-Brasileira, v. 8, n. 1, p. 70-103).

Abril / Junho - Guilherme Assunção dá início à edição de Os Folhetos da Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra (idem, n. 2, p. 136-181).

Julho / Setembro - Prossegue a publicação de Os Folhetos da Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra (idem, n. 3, p. 319-334). No mesmo Boletim, Guilherme Assunção inclui uma nota sem título, destinada a indicar algumas obras erradamente dadas como existentes na Biblioteca de Mafra por J. A. Anselmo (ver 1926) e a corrigir descrições de outras (p. 104), reproduzindo facsimilado o folheto da Biblioteca Volante [PNMafra: 2-55-8-7 (49º)] Relação curiosa de uma célebre disputa que teve um saloio com uma sécia da corte sobre os excessos da francesia (p. 334-342).

Outubro / Dezembro - Continua a publicação de Os Folhetos da Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra (idem, n. 4, p. 615-626).

 

1968

De visita a Mafra, os participantes no V Colóquio Luso-Espanhol Académico Militar são brindados com uma exposição de livros militares.

Janeiro / Março - Guilherme Assunção prossegue a publicação de Os Folhetos da Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra (Bol. Internacional de Bibliografia Luso-Brasileira, v. 9, n. 1, p. 56-75)

Maio 19 - Por carta, Guilherme de Assunção comunica à Fundação Calouste Gulbenkian ter pronto para publicação As Belas Artes da Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra (três pastas, com cerca de seis centenas de folhas dactilografadas, inéditas). Tem concluído igualmente o elenco das Gramáticas impressas na Europa (inédito).

Julho / Setembro - Guilherme Assunção prossegue a publicação de Os Folhetos da Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra (idem, n. 3, p. 473-486).

Outubro - Organiza uma lista das Obras de Beda (inédita).

Outubro / Dezembro - Continua a edição de Os Folhetos da Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra (idem, n. 4, p. 589-615).

 

1969

Fevereiro 28 - O tremor de terra que se faz sentir provoca alguns estragos na biblioteca, designamente na abóbada apainelada: "apareceram algumas fendas e caíu estuque de um tecto".

Novembro - A sala de leitura é instalada no piso térreo, junto do cruzeiro, local onde se mantém.

 

1970

Abril / Junho - Guilherme Assunção prossegue a publicação de Os Folhetos da Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra (Bol. Internacional de Bibliografia Luso-Brasileira, v. 11, n. 2, p. 263-325).

Agosto - As Obras do Conde de Lippe são inventariadas (inédito) por Guilherme Assunção.

Outubro - Dezembro - Continua a publicação de Os Folhetos da Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra (idem, n. 4, p. 625-637).

 

1971

Março - Guilherme Assunção elabora o catálogo das Obras do Padre António Vieira (inédito).

Anthony Hobson (Grandes bibliothèques, p. 239) refere com clareza que a Biblioteca de Mafra : "Não obstante a sua formação tardia, trata-se de uma biblioteca muito monástica que lembra Saint-Gall ou Admont", considerando-a, conjuntamente com a da Universidade de Coimbra, uma das 32 grandes bibliotecas da Europa e da América do Norte.

Setembro - Guilherme Assunção abandona a biblioteca, deixando inéditos, além dos enumerados, outros catálogos, como: Obras de Séneca, o Retórico, impressas antes de 1700; Música manuscrita e estampilhada; etc.

 

1972

Julho / Setembro - Guilherme Assunção prossegue a publicação de Os Folhetos da Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra (Bol. Internacional de Bibliografia Luso-Brasileira, v. 13, n. 3, p. 499-534), a qual será interrompida, permanecendo inéditas seis pastas, num total de mais de um milhar de folhas dactilografadas.

Novembro 30 - As infiltrações persistem, danificando "a talha das estantes da Biblioteca", segundo ofício de António Cândido Monteiro Guerreiro.

 

1978

Outubro - As infiltrações continuam.

 

1979

Janeiro 29 - M. V. H. publica Da Biblioteca Nacional à do Convento de Mafra: o roteiro de uma incapacidade para renovar (Diário de Notícias).

 

1981

Setembro 16 - A Autarquia oficia ao Presidente do então Instituto Português do Património Cultural, recordando os inconvenientes resultantes da inexistência quer de Conservador, quer de Bibliotecário no Palácio.

 

1982

Francisco Leite de Faria publica Difusão extraordinária do Livro de Frei Tomé de Jesus (Anais da Academia Portuguesa de História, s. 2, v. 28, p. 165-234), estudo no qual inventaria os exemplares dos Trabalhos de Jesus existentes no espólio.

 

1983

Maio 17 - Luís Filipe Marques da Gama é nomeado director do Palácio Nacional assumindo, por inerência, a responsabilidade pelas actividades empreendidas pela biblioteca, local onde lhe será dada posse no dia 1 de Junho.

 

1984

O Técnico de BAD Carlos Francisco Abreu e Silva entra ao serviço da biblioteca que, após um interregno de 12 anos, volta a abrir ao público.

É efectuada uma desinfestação total da BPNMafra.

Marie Thérèse Mandroux-França publica L' Image Ornamentale et la Litterature Artistique importées du XVIe au XVIIIe siècle: un patrimoine meconnu des Bibliothèques et Musées Portugais (Bol. Cultural da  Câmara Municipal do Porto, s. 2, v. 1, p. 143-174) com referências a obras da Biblioteca.

 

1985

A Fundação Calouste Gulbenkian edita o Catálogo dos Fundos Musicais da Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra, de João Azevedo.

Janeiro 29 - Luís Elias Casanovas dá início aos registos das condições ambiente (temperatura) na Biblioteca.

Janeiro / Junho - Justino Mendes de Almeida publica Copilacam de todalas obras de Gil Vicente (Lisboa, em casa de João Álvarez, 1562): O Exemplar da Livraria de Mafra (in Bibliotecas, Arquivos e Museus, v. 1, n. 1, p. 23-30), onde estuda a censura de que o cimélio foi alvo, de acordo com as normas expressas no Index auctorum damnatae memoriae, de 1624, ou constantes de notas marginais, reproduzindo os fólios em que ocorrem.

Julho / Dezembro - No âmbito das comemorações do Ano Internacional da Música é organizada uma exposição bibliográfica subordinada ao título A Música no Palácio e Convento de Mafra nos séculos XVIII e XIX.

Dezembro 4 - São dados por concluídos os registos das condições ambientais na Biblioteca.

 

1986

Julho / Dezembro - Exposição intitulada A Europa na Gravura do século XVIII, da qual é editado catálogo.

 

1987

Luís Elias Casanovas publica Análise da evolução anual das condições ambiente na Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra: algumas interrogações, comunicação que apresentara na Semana dos Arquivos (Cascais, 1986).

 

1989

Junho 5 - Luís Filipe Marques da Gama deixa de exercer as funções de director do Palácio Nacional, as quais passam a ser interinamente desempenhadas por Maria Fernanda Monteiro dos Santos.

 

1990

O director da Biblioteca da Ajuda, Francisco da Cunha Leão, solicita a elaboração de novo catálogo dos incunábulos da BPNMafra (inédito).

Julho 29 - Justino Mendes de Almeida profere em Mafra conferência subordinada ao título D. João V e a Biblioteca de Mafra.

O historiador espanhol da História do Livro e das Bibliotecas, Hipolito Escolar Sobrino, integra a Biblioteca de Mafra na classe das bibliotecas conventuais, o que aliás também faz com a do Escurial (Historia de las Bibliotecas, Salamanca-Madrid).

 

1991

Fevereiro - A bibliotecária Isabel Abecasis publica a Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra: Guia, encontrando-se a elaborar o Inventário da documentação dos Reservados, constituída por três caixas [R. 18.1.28 / 29 / 30].

Fevereiro 25 - Nesta data fica regulamentado o acesso à BPNMafra.

Setembro 1 - Margarida Montenegro é nomeada directora do Palácio Nacional de Mafra.

Outubro 7 - O Diário de Notícias publica artigo subscrito por H. B. M. e intitulado Mitos e Mentiras na Biblioteca de Mafra.

 

1992

Abril - Joaquim Oliveira Caetano publica A Biblioteca do Real Convento de Mafra (in Voga-Decoração, n. 4, p. 51-60).

Maio 25 - José Carlos Calazans tem concluída A "Casa da Livraria" do Convento de Mafra, monografia destinada à cadeira de Metodologia da História da Faculdade de Letras de Lisboa, onde, além de se ocupar da metodologia de organização da BPNMafra, estabelece o índice das obras do acervo respeitantes ao Oriente.

Julho - António Estácio dos Reis publica Um astrolábio diferente de todos os outros (Oceanos, n. 11, p. 35-42), onde alude ao volume do Tesouro de Prudentes (Lisboa, 1712) pertencente ao acervo da Biblioteca.

Outubro 14 - A directora do PNMafra concede entrevista, em que revela projectos destinados à valorização a curto prazo da Biblioteca, os quais, no entanto, ainda não chegaram a ser concretizados (Biblioteca de Mafra vai sacudir a naftalina, in Correio da Manhã).

 

1993

Isabel Abecasis publica A Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra (Cadernos BAD, n. 2, p. 93-100).

José Carlos Calazans publica A "Casa da Livraria" do Palácio Convento de Mafra (Bol. Cultural '92 da Câmara Municipal de Mafra, p. 9-26), ocupando-se da metodologia de organização da BPNMafra, e O Núcleo da Ásia do Palácio-Convento de Mafra (Para além da Taprobana: de Lisboa a Nagasaqui, p. 9-18).

 

1994

A técnica BAD Teresa Amaral assume o cargo de bibliotecária.

A Secretaria de Estado da Cultura e o Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro publicam o volume 1 do Inventário dos Códices Iluminados até 1500 do Distrito de Lisboa, no qual são descritos 10 dos Livros de Horas pertencentes ao acervo da BPNMafra (n. 488-497, p. 330-334).

Fevereiro - Manuel J. Gandra publica A Filosofia Hermética em Portugal e no acervo da Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra e Atanásio Kircher (1602-1680), Doutor das Cem Artes: Ecos portugueses e presença na Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra (Bol. Cultural ' 93 da Câmara Municipal de Mafra, p. 11-74 e 333-340, respectivamente). José Carlos Calazans publica Erros e incorrecções em Registos Bibliográficos da Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra (idem, p. 363-366).

Maio - Manuel J. Gandra colabora no catálogo As Tentações de Bosch e o Eterno Retorno, com artigo onde cita algumas obras de alquimia existentes na BPNMafra.

Dezembro - Manuel J. Gandra publica Organaria Mafrense: resenha histórico-cronológica e bibliográfica, comunicação que apresentou ao 1º Encontro Internacional de Órgão (Mafra), na qual divulga dados inéditos sobre os órgãos da Basílica de Mafra, bem como fornece catálogo das partituras para órgão que se conservam na BPNMafra.

 

1995

Fevereiro - O Bol. Cultural ' 94 da Câmara Municipal de Mafra inclui artigos de: Manuel J. Gandra, que inventaria algumas obras de Kabbalah do acervo (A ideia do Monumento de Mafra: arquitectura e hermetismo, p. 69, nota 146); Paulo J. S. Barata, ocupando-se de um conjunto de cerca de 100 das 1000 inquirições jurídicas De Genere, Vita et Moribus (pastas 1-5: 1739-1833) dos frades Menores da Província de Santa Maria da Arrábida integradas no acervo da BPNMafra (Admissão dos Noviços Arrábidos, p. 79-85); Isabel Abecassis (A Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra: condições de conservação, p. 87-94); José Carlos Calazans (Dos Livros desaparecidos da Real Biblioteca do Palácio-Convento de Mafra, p. 393-399).

Março - Margarida Montenegro publica A Real Biblioteca de Mafra (Casa - Decoração, n. 113, p. 84-90)

Outubro 22 - João Manuel Resina Rodrigues profere palestra promovida pela Liga dos Amigos de Mafra, subordinada ao título: A propósito de alguns livros científicos portugueses da Biblioteca do PNMafra.

  

1996

Decorrem filmagens de cenas das Viagens de Gulliver.

Março - Isabel Abecasis publica A Imagem Científica no Livro do século XVIII: alguns exemplos presentes na Livraria do Convento de Mafra (Boletim Cultural '95, p. 53-70). Manuel Gandra publica Icones Symbolicae: contributo para o conhecimento da recepção e difusão da Cultura Simbólica em Portugal e sua presença na Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra e Parenética Mafrense impressa (idem, p. 9-52 e 402-409, respectivamente).

Abril 18 / 19 - O programa Acontece (RTP 2), de Carlos Pinto Coelho, é transmitido em directo da BPNMafra.

Junho - Manuel J. Gandra publica O aperto de mão e a tourada têm uma origem comum (Tauromaquia e Tauródromos no Concelho de Mafra), incluindo referência aos folhetos da Biblioteca Volante descrevendo combates, festividades e outros eventos ocorridos com touros em Lisboa (Terreiro do Paço, Rossio, Campo Pequeno, etc.), Sacavém, Coina, etc.

Julho 28 - Manuela Preto publica Onde o Saber ocupa lugar: a Biblioteca do Palácio de Mafra (Correio da Manhã).

Outubro 19 - No âmbito das comemorações do 266º aniversário da Sagração da Basílica de Mafra, e na presença de Sua Exa. o Presidente da República, Dr. Jorge Sampaio, o New London Consort realiza um Concerto de Gala na Biblioteca. Na mesma ocasião o Chefe do Estado inaugura uma exposição de Partituras Históricas.  O concerto seria repetido no dia imediato.

Novembro 16 - Manuel J. Gandra publica o glossário Mafra Mítica, Hermética e Simbólica (Da Vida, da Morte e do Além, p. 153-223), no qual referencia bibliografia do acervo subordinada às vozes Anjo, Anjo Custódio, Anticristo, Apocalipse, Ar, Bruxa, Cometa, Espírito Santo, Hermas, Kabbalah, Livre arbítrio, Magia, Mahdi, Profecia, Sabatai Sevi e Sibila.

 

1997

Abril 19 - Manuel J. Gandra publica A Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra: cosmologia e mnemotecnia (Bol. Cultural '96 da Câmara Municipal de Mafra, p. 9-70).

Outubro 23 - Manuel J. Gandra dedica à BPNMafra um capítulo do seu livro Da Face oculta do Rosto da Europa.

Outubro 25 - A Sinfonietta de Lisboa dá recital na Biblioteca, no âmbito do I Festival Internacional de Música de Mafra.

Novembro - No âmbito do mestrado de História e Cultura do Brasil, Isabel Maria Figueiredo Iglésias de Oliveira apresenta a tese de mestrado Testemunhos do Brasil na Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra (séculos XVI e XVII) [BN: HG 45556 V].

 

1998

Set. / Dez. - A exposição Os Mares: novos Mundos descobertos, para assinalar o Quinto Centenário da viagem de Vasco da Gama, conta com catálogo homónimo, organizado por Maria Teresa Amaral.

Outubro 4 - No âmbito do II Festival Internacional de Música de Mafra, o Grupo Vocal Olisipo, sob a direcção artística de Richard Gwilt e Jill Feldman, interpreta a versão de concerto de Venus and Adonis de John Blow.

Outubro 24 - A Capela Real, dirigida por Stephen Bull, interpreta obras de Avondano, Seixas e Vivaldi, incluindo Danças do Barroco, ainda no âmbito do mesmo Festival.

 

1999

Outubro 9 - Recital subordinado ao título A Arte da Fuga, por Ton Koopman e Tini Mathot que interpretam peças de Bach, no âmbito do III Festival Internacional de Música de Mafra.

Outubro 30 - Ainda no mesmo Festival, Nancy Argenta (soprano) e Eugene Asti (pianista) interpretam Canções de Strauss.

Outubro 31 - Recital pela Orquestra Sinfónica Juvenil, integrado no mesmo Ciclo.

Manuel J. Gandra publica: Um folheto de cordel catalão (Nueva, y verdadera relación del Assombroso, y peregrino monstruo de naturaleza, que se há descubierto en las Costas de Mafra, en el Reyno de Portugal, el proximo passado mes de Junio de 1760) seguido de um subsídio para o inventário da literatura teratológica existente na Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra (in Boletim Cultural '98 da Câmara Municipal de Mafra, p. 301-314) e Parenética dos autos de fé na Biblioteca Volante de Frei Matias da Conceição (idem, p. 847-852).

 

2000

Exposição bibliográfica sobre Santo Agostinho, coordenada pelo Centro de Literatura e Cultura Portuguesa e Brasileira, no âmbito do Congresso Internacional As Confissões de Santo Agostinho - 1600 anos depois presença e actualidade (13-16 Nov. 2000).

Outubro 29 - No âmbito do IV Festival Internacional de Música de Mafra, a violoncelista Jian Wang interpreta as Suites 1, 2 e 4 para violoncelo solo, de Bach.

Novembro 5 - Sob a direcção de César Viana, é interpretada música orquestral portuguesa de João de Sousa Carvalho, João Domingos Bomtempo, Francisco Santos Pinto e César Viana, ainda no âmbito do mesmo Festival.

 

2001

Paulo J. S. Barata apresenta tese de Mestrado Interdisciplinar em Estudos Portugueses, na Universidade Aberta, subordinada ao título Os livros e a Revolução Liberal: o Depósito das Livrarias dos Extintos Conventos e a gestão do património bibliográfico dos conventos como reflexo de uma política cultural do Liberalismo. Nela ocupa-se da acção da Comissão Administrativa do Depósito das Livrarias dos Extintos Conventos (CADLEC), a qual no seu afã de demonstrar que a Biblioteca de Mafra era uma biblioteca conventual de instituição régia (e não uma biblioteca real), chegou a colocar em risco a sua sobrevivência (ver 1837 e 1840).

Outubro 13 - Actuação das Charamelas de El-Rei, no V Festival Internacional de Música de Mafra, interpretando obras para trompete, com estreia absoluta de uma de António Pinho Vargas.

Manuel J. Gandra publica: Cosmologia e Mnemotecnia: o exemplo da Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra (in Idade da Imagem, a. 1, n. 2, Mai.-Ago., p. 52-61); Alquimia em Portugal (in Discursos e Práticas Alquímicas. I, Lisboa,, p. 175-229), onde apresenta o arrolamento provisório da tratadística alquímica de autores estrangeiros em circulação em Portugal, incluindo a do acervo da BPNMafra.

 

2002

Maio 2 -  Perante professores e diversas dezenas de alunos das escolas do Ensino Básico de Mafra, Ericeira, Malveira e Venda do Pinheiro, a BPNMafra serve de cenário ao lançamento de Uma Aventura Secreta de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada.

Julho - O primeiro volume de O Monumento de Mafra de A a Z, de Manuel J. Gandra, inclui diversos verbetes com referência à BPNMafra e ao seu acervo. Na antologia, intitulada Poética Barroca do Monumento de Mafra, publicada na mesma colecção Mafra de bolso, acham-se transcritas algumas peças literárias com alusões à BPNMafra ou nela existentes, caso do poema Catalysis, cuja única cópia conhecida integra a Biblioteca Volante (ver 1933).

Outubro 11 -  The Hilliard Ensemble interpreta Morimur de Bach, no âmbito do VI Festival Internacional de Música de Mafra.

Outubro 25 -  O Boletim Cultural 2001 da Câmara Municipal de Mafra insere dois estudos sobre a BPNMafra: A Sobrevivência da Biblioteca de Mafra após a extinção das Ordens Religiosas: biblioteca conventual, embora de instituição régia, ou biblioteca real? (p. 9-29) de Paulo J. S. Barata e A Genealogia relativa a Portugal no acervo da Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra (p. 485-503) de Rui Sérgio.

Outubro 27 -  Integrado no VI Festival Internacional de Música de Mafra, a Casa da Música / Estúdio de Ópera do Porto, apresenta O Teatro e a Vida: duas Óperas de Câmara.

Novembro 3 - Ainda no âmbito do mesmo Festival, Pier Adams (Flauta), Richard Durrant (guitarras) e Howard Beach (cravo), interpretam Dançar as Músicas dos Tempos.

 

2003

Janeiro 7 - O Presidente da República, Jorge Sampaio, apresenta cumprimentos de Ano Novo ao Corpo Diplomático na BPNMafra.

Maio 6 - O Presidente da República Federal da Alemanha visita Mafra, tendo assistido a um concerto pela Orquestra Juvenil de Câmara do Land da Renânia do Norte - Vestefália, na BPNMafra, no qual são tocadas peças de Bach, Beethoven e Mozart. Acham-se presentes os Presidente da República e da Assembleia da República de Portugal, diversos Ministros e muitos outros convidados.

 

 

 

 

 

ANEXOS

 

 

A Biblioteca segundo o Monumento Sacro

 

Fica a famosa casa da livraria no quarto dormitório da parte do nascente, tem de comprimento trezentos e oitenta e um palmo e de largo quarenta e três; faz no meio uma figura de cruz, na qual para a parte da cerca tem três janelas grandes de vinte palmos de alto sendo a do meio de volta no fecho com cimalha redonda de vistosos filetes; dos lados nesta parte tem duas janelas iguais a estas para a mesma cerca; na parte fronteira tem as mesmas três grandes janelas com a fachada para o jardim, e as duas dos lados são duas portas, que entram cada uma em sua casa de cada parte, as quais têm cada uma três janelas para o jardim; e são para livraria de manuscritos; tem da parte da cerca dezoito janelas grandes iguais da galeria, ficando as três grandes no meio.  É esta casa pelo tecto toda apainelada de vários debuxos sacados fora, e obrados na mesma abóbada, fazendo uma vistosa perspectiva; no fecho da abóbada no meio tem uma grande pedra branca redonda, e nela esculpida a figura do Sol.  Tem nas cabeceiras das casas dois maravilhosos portais de, pedra branca de vinte palmos de alto e dez de largo com cimalhas de vistosa obra, corno é o pavimento de xadrez de pedra azul, branca, e vermelha. Tem comunicação para os dormitórios por duas escadas, e outras duas entradas para o dormitório, sendo todas da parte do jardim.

 

 

Bula Ad Perpetuam Rei Memoriam do Papa Bento XIV

 

Para perpétua Memória do facto.  Tanto os Romanos Pontífices, nossos Predecessores, como os ilustres Reis e Supremos Poderes e outros beneméritos e preclaros varões da República das Letras, trabalharam com mui louvado ardor e incrível solicitude, não só por igualar, mas até superar, o cuidado de reunir livros e fundar bibliotecas -- cuidado mui honroso para os próprios reis e príncipes e observado, também, pelos varões do paganismo durante todos os tempos, ainda antes da luz do Evangelho ter brilhado nas trevas -- com as quais [bibliotecas] salvariam da destruição os feitos dos primeiros tempos e os monumentos ilustres antigos, e deles transmitiriam à mais remota posteridade memória e conhecimento, para prover à celebridade dos factos e ao louvor dos homens e esplendor dos exemplos e, também, à utilidade dos povos vindouros; e trabalharam, sobretudo, em fazer vir de toda a parte aqueles livros e códices que servissem para brilho, defesa e engrandecimento da Religião Católica e de seus Reinos e Domínios.

Donde resultou que no nosso tempo em que florescem e são cultivadas ao máximo as belas artes, as ciências e todas as disciplinas, congratulemo-nos no Senhor por se encontrar em toda a parte tão grande número de livros e códices de óptima qualidade, que nada mais é para desejar do que um dedicado zelo, empenho e cuidado em os conservar e aumentar.

Por isso, a Nós, constituído pela abundância da bondade divina neste sublime lugar de vigilância do sacrossanto Apostolado, nada Nos pode ser mais grato e agradável do que concedermos solícito, quando Nos é pedido, o patrocínio da nossa Apostólica Autoridade para a perpétua conservação, em boas condições, duma Biblioteca.

Porém -- como em nome do nosso caríssimo Filho em Cristo, José, Rei Fidelíssimo de Portugal e dos Algarves, nos foi  -- a biblioteca encontra-se no Real Convento da Ordem dos chamados Frades Menores da Observância de S. Francisco, situado junto de Mafra, da Diocese de Lisboa, sob a invocação de Nossa Senhora e Santo António; foi erigida por reis de Portugal e dos Algarves seus antecessores, de saudosa memória; dotada com enorme quantidade de livros e códices, e ainda com o Régio Direito de Padroado; e nela se encontram os melhores autores, principalmente católicos e, também, alguns heréticos, nos quais - visto que entre si contendem e disputam - se encerram muitíssimas coisas para consolidar e aclarar mais e mais a  Religião Católica com as opiniões dos adversários.

Por este motivo, foi-Nos suplicado da parte do mesmo José, Rei Fidelíssimo, que nos dignássemos atender e conceder, como abaixo vai, a Nossa Apostólica benignidade e autoridade.

E assim, Nós, louvando o mesmo José por seus merecidos títulos de glória, inclinado às suas súplicas e desejoso de olhar, quanto no Senhor podemos, pela conservação e manutenção de todos os livros, quer manuscritos, quer impressos, da já várias vezes nomeada Biblioteca e, além disso, para cuidar da segurança e tranquilidade de consciência tanto dos presentes como dos futuros bibliotecários da citada Biblioteca:

Primeiro - Interditamos e proibimos com a Autoridade Apostólica a todas e a cada uma das pessoas que exercem ou hão-de exercer qualquer autoridade de qualquer estado, posição, condição, preeminência ou dignidade, existentes ou no futuro, que em nenhum tempo e de modo nenhum, ousem ou presumam, sob qualquer pretexto, causa, razão ou expediente, extrair, emprestar, tirar da Biblioteca, ou permitir ou tolerar que dela sejam extraídos, emprestados ou tirados, sem licença do actual ou futuro Rei Fidelíssimo, livros, cadernos, folhas, quer impressas, quer manuscritas, por qualquer que sejam dados e confiados à dita Biblioteca, ou que no futuro venham a ser.

E isto sob pena de excomunhão, latae sententiae, da qual ninguém pode obter o benefício da absolvição, excepto em perigo de morte, senão de Nós ou do Pontífice ao tempo -- só pelo facto de irem contra o que estipulamos -- sem necessidade de nenhuma outra declaração.

Segundo - De motu proprio, conhecimento certo e plenitude do poder Apostólico, concedemos e permitimos por força das presentes [letras] com a Apostólica autoridade aos três bibliotecários da citada Biblioteca ao tempo existentes e que devem ser designados pela forma que possam ter, ler e conservar, bem como transmitir àqueles que lhes venham a suceder no cargo, livre, lícita e impunemente, sem escrúpulo algum de consciência e sem incorrerem em quaisquer sentença, censuras ou outras penas eclesiásticas, mesmo em irregularidade, infâmia ou inabilidade, livros, manuscritos e quaisquer obras de hereges, heresiarcas ou outros autores reprovados de qualquer seita ou doutrina, mesmo da principal, que por qualquer causa, até mesmo por suspeita de falso dogma, tenha, de qualquer modo, sido pelos Pontífices Romanos nossos predecessores, em Concílios Gerais e até por Nós e pela Sé Apostólica, proibidos e condenados, ou porventura o venham a ser no futuro por Nós próprio, pelos Pontífices Romanos nossos sucessores e pela referida Santa Sé, quer esses livros, manuscritos e obras tenham sido já publicados, quer o venham a ser no futuro, tratem, embora ex professo, de Religião e Fé Católica, ou contra as mesmas, desde que estejam já, ou hajam de estar, duas tardes na referida Biblioteca.

Queremos que todos e cada um deles não possam com estas coisas, ou por causa e ocasião delas, ser molestados, perturbados ou inquietados, e, assim, determinamos que deva ser julgado e decidido pelos Juízes Ordinários e Delegados, mesmo pelos Auditores das causas do Palácio Apostólico e pelos Eminentíssimos Cardeais da Santa Igreja Romana, mesmo Legados de latere, e por quaisquer outros que gozem ou venham a gozar de qualquer autoridade, ficando-lhes suprimida a qualquer deles a faculdade e autoridade de julgar e interpretar de modo diferente; e se acontecer que alguém, com qualquer autoridade, ciente ou ignorantemente, atente contra isto julgando de maneira diferente, em cumprimento do que fica dito o faça írrita e vãmente.

Nada obstam quaisquer anteriores Constituições e ordenações Apostólicas gerais ou particulares já publicadas ou que venham a sê-lo nos Concílios Ecuménicos ou Provinciais, e também as proibições superiores feitas já ou no futuro.

Embora se devesse fazer delas e do contexto de cada uma delas uma enumeração especial, específica, expressa e individual ou então alguma outra expressão, não em resumo, mas palavra por palavra, ou se devesse conservar alguma forma escolhida, tendo todas e cada uma dessas coisas como expressas e insertas com a presente carta, pomos como nulas só para o efeito que dissemos acima aquelas e quaisquer outras em contrário, que aliás conservam todo o seu poder nos outros casos.

Queremos porém: que os livros, escritos e obras mencionadas, que da Religião ou da Fé ou contra a Religião e Fé ortodoxa tratem ou venham a tratar, sejam conservados em segredo e sem escândalo dos outros; e que as presentes [letras] sejam votadas somente a favor dos bibliotecários da mesma biblioteca ao tempo designados e que a ninguém seja dado o poder concedido -- senão a quem tiver sido dado pela Santa Sé Apostólica --, ou se dê licença de ler ou de escrever os códices ou quaisquer livros proibidos; e que um exemplar desta presente proibição e faculdade permaneça sempre afixado em algum lugar visível da dita Biblioteca onde por todos possa ser visto e lido.  Dado em Roma, junto de Santa Maria Maior sob o anel do Pescador.  Dia 2 de Março de 1754, ano décimo quarto do nosso Pontificado.

 

a) Caetano Amado

 

 

 

Uma Serenata no Palácio de Mafra, recordada por uma octogenária da família do Conselheiro Francisco da Silva

 

Uma das minhas tias era dama da Senhora Rainha D. Maria I, antes da partida da corte para o Rio de Janeiro. A Família Real prolongou a sua estada em Mafra por espaço de muitos meses, naquele tão venerável monumento, habitação predilecta do Príncipe Regente. Eu conservo uma bem agradável recordação de uns dias que aí passei na pousada de minha tia; aquelas galerias infindas, o aspecto majestoso da sumptuosa igreja, os ofícios divinos dum esplendor incrível, onde uma vez vi o Príncipe Regente cantando no côro dos frades, as correrias com os meninos da minha idade naqueles vastíssimos terraços, os passeios ao cair da tarde com a minha tia que, seguida do seu escudeiro (chamavam-lhe guarda-damas) se dirigia, nos dias em que não estava de serviço, à Tapada ou à Alameda. Ai! que saudades que eu tenho desse tempo! À noite, nos quartos da camareira-mor, entretinhamo-nos ao serão com alguns dos provinciais que mais primavam de eruditos, e que conjuntamente discutiam teologia e receitas de doces com minha tia; jogava-se, às vezes, não me recordo que jogo de cartas. Havia também um como que grande tabuleiro parecido com os bilhares de hoje, onde os homens jogavam um jogo a que, se bem me recordo, chamava-se caché. Tudo, tenho tudo na memória! Que alegria eu não sentia quando, às vezes, encontrava nos corredores as Princesas, caminhando gravemente, apoiadas ao braço do seu veador, para a portaria, a fim de darem o passeio de todas as tardes ou dirigindo-se para a igreja, porque nos dias ordinários todos eles ouviam missa nos seus oratórios particulares. Era eu então uma esbelta rapariga de donaire e anquinhas, fazendo aquelas profundas mesuras (que se aprendiam com os mestres de dança) quando passavam Suas Altezas! Minha tia, escrupulosa em artigos de etiqueta, dizia-me muitas vezes:

- A menina é realmente perfeita em mesuras!

- E só nisso, minha senhora? - volvia eu.

- A vaidade, retorquia, é um feíssimo pecado, minha filha.

E que respeitosa veneração, que culto quase religioso se prestava então à realeza! Neste ponto acusem-me embora de quanto quiserem, mas exaspera-me, revolta-me esta sem-cerimónia de hoje. Quantas vezes minha tia, quando passávamos pela Casa do Dossel, me obrigava a fazer uma mesura! "Menina, Deus no céu e o Rei na terra", tal era o seu credo. Mas vamos à maravilhosa voz; uma tarde, depois do jantar, minha tia disse-me: "-É necessário que a menina se paramente o melhor que possa; esta noite há serenata na Livraria e a Sr.ª Infanta teve a gentileza de me dizer que levasse minha sobrinha. Chegou ontem uma italiana chamada Catalani, vinda expressamente de Lisboa para cantar na presença da Família Real; empresto-lhe o meu fio de pérolas e o afogador de topázios. Lembre-se da honra que vai receber e não se esqueça que às cinco horas a virei buscar para fazermos com o Fr. João da Soledade a via-sacra na pousada dos Padres". Fiquei louca! Ver de perto a Família Real, as damas e os camaristas, toda a corte enfim reunida, ouvir cantar uma italiana, que deveria ser um portento, com certeza, pois só assim se explicava caso tão extraordinário que vinha quebrar as praxes da monótona vida do Paço. Ouvir cantar a Catalani! Eu que, afora as vozes dos italianos nas festividades religiosas, só de tempos a tempos ouvia em Chelas, na quinta do meu tio cónego, alguns motetos profanos, cantados por ele, acompanhando-se numa velha espineta! Conhecem a biblioteca de Mafra, esse monumento que a grandeza de alma (porque não direi antes a necessidade da época?) levou D. João V a legar à posteridade, essa obra de arte que assombra o próprio Escorial? Pois bem, imaginem a balaustrada da varanda que circunda completamente aquela vastíssima sala, guarnecida de pequenos castiçais de que creio há milhares nas arrecadações do Convento, ardendo em cada um deles uma vela de cera; eram centos e centos de luzes e ainda assim a sala estava quase às escuras! Ao centro, sobre um tapete, as cadeiras para as pessoas reais, em frente um cravo com seis castiçais de prata, onde um frade acompanhava o canto da italiana. Fazia um frio imenso. A Catalani trajava um vestido de veludo vermelho franjado de branco; nos cabelos um pequeno penacho (aigrette lhe chamariam hoje) que brilhava muitíssimo. Pareceu-me feia. Entrou conduzida por um dos camaristas e, tendo feito três profundas mesuras diante das pessoas reais, começou o canto. Que voz! Que gorjeios! Que trilos aqueles, que ecoaram sob aquelas abóbadas! Eu, perto de minha tia, na fila das damas, de pé, por detrás das cadeiras reais, sentia uma comoção que ainda hoje não posso bem explicar. Minha tia atribuiu (santa criatura!) a poderes de Satanás o encanto daquela voz portentosa. Eu julgava ouvir uma toada de anjos e semelhante a tais harmonias só algum rouxinol por noites de Primavera nas balsas perfumadas da nossa quinta de Chelas. O Príncipe Regente dormiu todo o tempo da serenata. A Rainha, ainda que um pouco mais aliviada dos seus terríveis padecimentos, que mais tarde a levaram ao túmulo, mostrava uma certa impaciência e tanto diligenciava bater com o leque o compasso da Música nos braços da sua cadeira dourada que acabou por o despedaçar! Um leque magnífico, de madrepérola e ouro, que uma açafata me disse ter sido um presente da Rainha de Espanha. A sala, como já disse, estava quase às escuras e quase deserta. Que era um grupo de 20 ou 30 pessoas para uma área tão espaçosa?! A etiqueta não consentia que pessoa alguma que não tivesse a honra de fazer parada se reunisse nesta ocasião à corte, sendo eu, talvez, a única excepção duma regra. Onde, porém, o espectáculo se apresentou animadíssimo, onde a multidão se aglomerava compacta por detrás das filas dos castiçais, era nas varandas da sala. O mordomo mor tinha facultado a entrada a todos os familiares do Paço e suas famílias, a quase todas as pessoas da vila, a muitos frades e leigos. Não se imagina quantas centenas de cabeças se enfileiravam, entremeadas com as luzes! Era curiosa esta exposição de caras! Quanto me recordo hoje de tudo isto! Não sei porquê, faz-me lembrar os ofícios das trevas! O que naquela altura se me afigurava uma festa dum esplendor inexcedível, seria hoje tomado por visita de pêsames, onde se desse o capricho de fazer música. Tal era então o aspecto que a severa etiqueta impunha às suas diversões, mesmo as mais particulares da corte. E, contudo, foi um caso digno de menção. Naquele tempo, vir uma cantora ao Paço dar uma serenata na presença das pessoas reais, era caso tão extraordinário que até a Gazeta, naquele seu mais que parco noticiário, narrou o caso - e até mesmo os diplomatas tomaram notas que enviaram aos seus governos.

(Ângelo Pereira, Os Filhos d'el-Rei D. João VI, Lisboa, 1946, p. 14-17) 

 

 

Carta de João Salter de Mendonça

para João Lourenço de Andrade

 

Querendo EI Rey Nosso Senhor que a Real Biblioteca de Mafra se conserve em bom estado e não sofra dano por falta, ou de pessoas que zelozamente cuidem da sua guarda e asseio, ou de meios para se repararem os danos causados pelo tempo: há por bem ordenar o seguinte: 1º Que achando-se vago o emprego do Segundo Bibliotecário por morte de Frei Manuel da Sacra Família entre no exercício do mesmo emprego, o. Passante Frei  Manuel de Santa Escolástica [...] 2º Que o Primeiro e Segundo Bibliotecário serão responsáveis pela Iivraria e seus pertences [...] 3º Que se continue a antiga Consignação de duzentos mil réis por ano, não só para aumento da mesma biblioteca como também para os indispensáveis concertos dos livros, e mais utensílios dela [...] 4º Finalmente, o Primeiro bibliotecário [ou ?] o Guardião do Convento escolha uma pessoa, ou dos doze religiosos leigos, ou dos donatos que actualmente existem, ou também dos serventes das obras, para ser diariamente ocupado no asseio dos livros e da casa [...] O que participo a Vossa mercê. para que assim o cumpra pela parte que lhe toca; ficando na inteligência de que ficam expedidas as Ordens competentes ao Real Erário para a continuação do pagamento da dita Consignação - Deus Guarde a Vossa mercê. Palácio do Governo em 11 de Agosto de 1819. 

 

 

Regras de catalogação adoptadas

por Frei João de Santa Ana

 

1) Como muitos autores são mais conhecidos pelos sobrenomes do que pelos nomes próprios, para achar-se qualquer obra deles, deve procurar-se o sobrenome dos ditos autores [...]

2) Quando os autores tiverem dois ou mais sobrenomes, buscar-se-ão as suas obras onde se fizer menção do primeiro sobrenome, e quando nos seus competentes lugares se escreverem os outros, aí se dirá só:  veja-se o sobrenome tal, que aí se acharão as suas obras. Mas quando eles forem mais conhecidos por um sobrenome que pelos outros, naquele se escreverão as suas obras, e em competentes lugares dos outros remeterei o leitor para aquele onde eles se acham escritos, e até para lhe evitar o trabalho direi em que letra e em que página os há-de achar, se for autor já mencionado.

3) Quando o autor tiver por sobrenome algum santo ou mistério buscar-se-á o nome do autor no idioma, em que ele tiver escrito as suas obras. Advirta-se porém que quando as obras forem latinas, sempre os nomes ou sobrenomes dos autores se escrevem em genitivo. E como pode haver muitos autores do mesmo sobrenome, para se evitar toda a confusão direi a religião, província ou congregação a que eles pertencem. E como também algumas vezes acontece que o mesmo autor tenha obras latinas, portuguesas e francesas, achar-se-ão todas em uma só parte, isto é, ou debaixo do nome latino, ou do nome francês ou do nome português, e por este motivo se o nome do autor for v. g. João, todas as suas obras se hão-de achar ou em Joannes, ou João, ou Juan, ou Jean.

4) Quando o autor não tiver sobrenome e em lugar deste usar de algum título, dignidade ou ofício, buscar-se-á também o nome v. g. Pauli Diaconi.

5) Quando a obra não tiver o nome do autor, buscar-se-á o título da obra. E como são muitas conhecidas mais pelos seus títulos do que pelos nomes dos autores, achar-se-ão ordinariamente nos nomes dos autores, mas também nos títulos em referência para aqueles.

6) Quando for colecção de várias obras feita por alguns escritores, buscar-se-á pelo nome do colector. Quando for uma tradução, achar-se-á no nome do autor, e no lugar competente se fará menção do tradutor.

7) Os autores que tomarem nome fingido irão mencionados com o dito nome; e sabendo-se o seu nome verdadeiro, se fará neste uma referência para aquele.

8) O que se achar escrito entre parênteses, a não ser o nome do autor, não pertence ao título da obra, mas só se escreve para explicar alguma coisa parecida.

9) Juntamente com as obras se declara o nome da terra, e oficina onde foram impressas e também o ano da edição, e quando se achar escrita esta palavra Ibi - quer dizer que foi impresso na mesma cidade, e Ibidem no mesmo l. e tip. ultimamente designados.

10) No fim de cada obra se acharão três números - o 1.º com letra romana, o qual mostra o número da estante e esta é debaixo da varanda se o dito número tiver um só risco por cima, v. g. XII, e as que estão por cima VIII (dois riscos), o 2.º número indica a estante, e o 3.º o lugar do livro na estante a contar da esquerda para a direita.

11) Um risco à margem direita das obras ligando-as quere dizer que todas estão na mesma estante e lugar.

12) Ibi - quer dizer que está na mesma obra antecedente e Ibidem na mesma obra, tomo e vol.

13) Sempre se indica o número de vol. e tomos. Não havendo referência especial quer dizer que a obra só tem 1 vol. ou tomo.

14) Quando se fizer referência duma obra para o tomo 3.º, 4.º etc. doutra obra, quer dizer que esta é uma colecção.

17) Quando se disser  "Está no tomo - Concilium Tridentinum Lovanii, 1567 - deve buscar-se Concilium Tridentinum impresso em Lovaina em 1567.

20) Nas estantes superiores nº 49-50 e 51 estão livros proibidos, e como alguns pelo seu tamanho não cabem nas casas estão nelas deitados, e por isso quando deles se fizer menção só se porá o número da estante e o da casa e no lugar do 3.º número se porá este sinal +.

21) Quando se encontrarem estas palavras anda volante, com os livros de encher se designa que aquela obra não tem lugar certo, por haver vários ex., e serve para preencher os espaços das que faltam.

24) Deixo espaços em claro para fazer no futuro menção das obras que se comprarem, e bem assim cada letra tem o seu suplemento.

25) Nos artigos Noticia - Novena - Relação - não se acharão as obras por ordem alfabética exacta, por serem opúsculos de pouca ponderação e que se acham juntos na Biblioteca Volante, e escrevi, para evitar trabalho, pela ordem em que se encontram a dentro dos vários tomos.

 

 

►Alvará de D. João VI

 

Eu o Imperador e Rei: Faço saber que merecendo a Minha particular Consideração a Real Livraria de Mafra, e Querendo concorrer para o seu aumento, em benefício da Pública Instrução, Hei por bem que as disposições do Alvará de trinta de Dezembro do ano passado para ser remetido à Biblioteca Pública de Lisboa um Exemplar de toda, e qualquer Obra, que se imprimir nas Oficinas Tipográficas do Reino, sejam extensivas à sobredita Real livraria para o mesmo fim, e debaixo das mesmas cláusulas, e penas; devendo porém a entrega dos Exemplares ser feita no Convento de S. Pedro de Alcântara desta Cidade à pessoa, que para os receber for designada pelo Guardião do Real Convento de Mafra [à data o Padre Mestre Frei Manuel da Epifânia]". 

 

 

►A Biblioteca segundo o

Real Edificio Mafrense visto por fora e por dentro

 

[...] Esta magnífica e majestosa casa que faz a admiração de todos os que nela entram e é geralmente reconhecida pela melhor da Europa [...]. Estende-se de Norte a Sul. Entra-se do Palácio para ela pelos dois grandes portais que estão em cada topo [...]. Toda a livraria é cercada de estantes até à altura da cimalha e de uma soberba e majestosa varanda que passa pelo meio delas. O parapeito que acompanha a varanda é de balaustres e colunatas, o feitio de cada um dos quais custou 800 réis.

A varanda é elevada sobre o pavimento 15 palmos, sacada fora 5, e o passeio tem três e meio de largo. As estantes que são de pau e também a varanda são formadas de pilastras que divide umas das outras. Os capiteis das pilastras das estantes inferiores servem como de bases às grandes mísulas, sobre que descansa a varanda. As estantes da parte do nascente estão no espaço que há entre umas e outras janelas e tem 14 palmos de largo, e o mesmo têm as do poente, e as que neste lado estão defronte das janelas, têm 12 palmos de largo. Por cima da varanda tudo está ocupado de estantes, porque aí não há janelas, senão a grande no fundo do cruzeiro e correspondem todas às estantes inferiores. Estas são 54 e as superiores são 82. É tal e tão delicada a obra de talha que há em todas elas e na varanda, e principalmente nos do cruzeiro e dos fundos da Casa, que é impossível explicar-se. Sobre cada uma das estantes está uma riquíssima tarja, dentro de que está o título da matéria e ciência, de que tratam os livros de que ela está cheia. Sobre cada uma das superiores está um corpo grande de figura oval, digo, um painel que se eleva até ao tecto, destinados para neles se pintarem os heróis mais famosos nas ciências e artes de que tratam os livros de cada estante, mas não se chegaram a pintar. No fundo do cruzeiro, além de outro muito ornato, de cada parte sobre a janela grande, está uma Coroa Real como suspensa, coroando o nome da Rainha Senhora D. Maria I, que está em cifra entalhado no painel, que fica por baixo da coroa. O pavimento da casa é obra do Senhor Rei D. José I, as estantes foram mandadas fazer pelos Cónegos Regrantes de S. Agostinho. Cada estante tem um degrau, que se puxa fora para se chegar a todos os livros dela. Cada vão de janela, excepto os do cruzeiro, tem uma mesa coberta com pano verde, uma estante para livro e tinteiro, etc. Tem muitas obras raras e ricas edições. Tem actualmente 27 para 28 mil volumes e pode conter 60 até 70 mil. Vai-se aumentando com a consignação de 200$000 réis anuais e com todas as obras que saem à luz em Portugal, de cujas obras deve ser remetido das oficinas tipográficas um exemplar de cada uma para a mesma livraria, como mandou o Senhor Rei D. João VI por alvará de 5 de Dezembro de 1825.

Para as duas Casas indicadas pelo n. 130 se entra pelos portais próximos às janelas, que estão no fundo do cruzeiro, da parte do poente. Tem cada uma de comprido 71 palmos e meio, de largo 22 e 1/4 e de alto 24. Tem três janelas que deitam para o Jardim da Quadra, e são do mesmo tamanho, que as da livraria e as das frontarias de todo este andar. A do Sul está circundada de estantes para os livros proibidos; a do Norte está ornada com as plantas do edifício, com mapas gerais e particulares e tudo o que é preciso para o estudo da geografia, como é a esfera armilar, os globos terrestre e celeste. As plantas estão ornadas com molduras de pau santo; e do mesmo são também as que ornam os retratos de Sua Majestade o Senhor D. Miguel I, o de seu Augusto Pai e o do Imperador do Brasil, o Senhor D. Pedro I, que estão no topo da casa. No meio de cada uma delas está uma mesa de pau bordo, que tem 14 palmos de comprido, sete de largo, seis grandes gavetas, três de cada lado, em que se guardam vários papéis, folhetos, etc. Sobre estas duas casas há outras duas iguais, para as quais se sobe pelas duas escadas indicadas pelo n. 128 [...].

 

 

►Dom Carlos e a sua época

 

O rei, no convívio entre amigos, era muito jovial. Uma vez, estava ele sentado no meu gabinete da biblioteca do paço de Mafra, a uma mesa, em frente de uma janela; conversámos de livros; ele estava folheando um Elzevir, Nisto, uma nuvem de pombos correios, da Escola Prática de Infantaria, levanta voo do jardim e, o rei, interrompendo a leitura e a conversa, exclama: - Olha! tanto pombo. E ficou a segui-los com a vista.

Erudito: uma vez, também no meu gabinete, para onde, às vezes, ia, depois do almoço, com o ajudante de campo e o oficial às ordens, e quando coincidia a ida do rei a Mafra com a estada dele lá, ou quando o acompanhava de Lisboa, com o meu velho amigo Tomás de Mello Breyner, mostrei-lhe, em consulta, um livro do século XVI, onde se via um brasão, que fora posto no frontispício, com tinta já apagada e destruidora do papel.

Era a primeira vez que eu o abria, e sem detido exame: - Quer el-rei ver isto? O que será o que se veria ao alto deste escudo? Já não se percebe, ou mal se percebe.

O rei, lembro-me muito bem, vestido do seu pequeno uniforme de generalíssimo, com que costumava quase sempre andar, pegou no livrinho, esteve a examinar o ponto para que eu chamara a sua atenção e, passado algum tempo: - Isto são armas de qualquer infante ou infanta. O que mal se vê aqui, em cima, é o banco de pinchar, com as armas maternas, por diferença.

Outras vezes, em dúvidas, que eu tinha, ele ficava de mas resolver, logo que regressasse a Lisboa; e, daí a dias, eu recebia um grande subscrito, timbrado a oiro, com cópias de livros raros sobre bibliografia, explicativas da minha dúvida. Ainda tenho essas cópias, que eram acompanhadas de cartas de Arnoso.

Um valet de pied, que estava, então, ao serviço da biblioteca, era muito zeloso na limpeza dos mármores de Pêro Pinheiro que a pavimentavam. Lembrou-se, um dia, de encerar a meia laranja central da biblioteca, um primor de combinação de mármores, rosa, azul e amarelo; pediu-me licença para o fazer, dei-lha. Se o leitor quiser ver o efeito desse enceramento, abra o volume da Enciclopédia Espasa, na palavra Mafra, e lá verá a fotogravura, representando a biblioteca, onde brilha, pelo enceramento, a meia laranja central.

A primeira vez que, depois deste enceramento que deixava livres as passagens laterais, o rei foi a Mafra, não deixou de ir, conforme o seu costume, à biblioteca. Ficou encantado. A meia laranja está sob a luz de seis grandes janelas que iluminam, a meio, a biblioteca. Nada mais escorregadio que o mármore assim polido e encerado a valer, para dar o brilho rutilante que se obteve.

Achou magnífica a ideia e, enquanto fazia os comentários que o caso lhe sugeriu, começou a efectuar a travessia, muito sossegada e imponentemente, com o charuto na boca e as mãos nas algibeira do dolman. Hermenegildo Capelo, que conversava comigo, vendo o rei em terreno tão perigoso, disse-lhe: - El-rei acautele-se!... El-rei acautele-se!...

Mas, o rei não se importou nada com o alarme do herói, e continuou, majestoso, o seu caminho. E eu disse ao almirante Capelo: - Também el-rei quer ter a glória de fazer uma travessia.

(Aires de Sá, Príncipe Real D. Luís Filipe, 1930, cap. II) 

 

 

Memórias de Tomás de Mello Breyner

 

Também me divertia durante horas vendo estampas. E que estampas, que riqueza de gravuras! O que eu gostava de ver um livro enorme ricamente encadernado, tendo cantos e fechos de metal. Dentro estavam representadas todas as cerimónias na Corte dos Reis de França a começar pela sagração.

As viagens de Cook numa edição grande e largamente ilustrada faziam as minhas delícias, bem como a representação da vida dos Padres Ermitões num tomo de grande formato e ainda as estampas com as batalhas navais contra os turcos.

O livro de Andrade com todo o ensino da Arte marialva explicada em desenhos, mostrando alguns deles o Príncipe D. José dando a volta com o freio só, sem auxílio da chibata.

Havia um outro livro de equitação ou arte de cavalgar com estampas ainda mais belas do que o português. Este era em francês e logo ao princípio tinha um cavalo trazido à mão por um palefreneiro de botas altas com esporas de cinco bicos e uma chibata na mão direita. O nome desse corcel de pata levantada é Le Bonite. Está escrito no alto da estampa por baixo das armas reais.

Ainda não pensara em ser médico, mas já me interessavam as estampas muito curiosas e bem desenhadas dum grande livro arrumado na estante das obras de medicina. Gostava de ver os esqueletos, os homens esfolados, os nervos bem patentes, as mioleiras à mostra.

Este alfarrábio, para mim tão curioso passados anos, vinha a ser nem mais nem menos do que o famoso tratado de anatomia humana intitulado De humani corporis fabrica e composto por André Vesálio, anatómico flamengo do XVI século.

Numa estante, quase encostada à janela grande deitando para o jardim dos buxos, estavam uns livros cujo exame me era vedado, mas que eu ia folheando com o consentimento tácito do Francisquinho da livraria, aliás encarregado de mos não deixar ver.

As gravuras reproduziam candeeiros etruscos e frescos de Pompeia, alguns deles tão frescos que eu não resistia à tentação de para eles chamar a atenção de quantos rapazotes da minha idade eu apanhava o jeito, a começar por Suas Altezas. E note-se que eu era pelas mães de família considerado como companheiro de confiança para os respectivos filhos adolescentes...

(Memórias de Tomás de Mello Breyner, p. 298-300) 

 

 

A Arte do livro no convento de Mafra

II. Estampilhagem

 

[...]. No alto de umas intérminas escadarias surge a figura desempenada do director [Ayres de Carvalho] que amavelmente se propunha acompanhar-nos na visita [...].

Dissemos ao que íamos:

- Haverá alguns ferros de dourar?...

Não se nos tirava do pensamento aqueles 78 ferros, 4 rodas e dois abecedários que em 1771 enriqueciam a "casa do Livreiro" e se tinham... volatilizado...

Insistimos em persistência, teimosa. O pintor começava a irritar-se...

- O que há são umas peças de latão...

Luziu-nos uma esperança:

- Sim os "ferros" embora assim se designem, na verdade são de bronze...

- Mas não é nada disso, posso mostrar...

[...]. Aires de Carvalho que agora segurava um pequeno embrulho esclarecia:

- Quando vim para o Museu, isto andava a monte. Encontrei uma série de peças soltas, esparsas, que reuni e coleccionei. Não sei se têm relação com os livros - e ia desatando o embrulho que nós espreitávamos curiosa.

Tratava-se do Inventário 6736, constituído por um lote de 1201 peças de latão: letras maiúsculas, minúsculas, sinais, ornatos.

Então surgiu uma colecção de estampilhas recortadas na folha de latão conhecido por ouro mouro, a recordar-nos o tempo em que, muito nova, dirigiamos o Jornal da Mulher e então a esse género de trabalho era elegante chamar, à francesa, pochoir.

A quantidade de estampilhas, o seu desenho cuidado, o recorte apuradíssimo, constituía outra manifestação do amor que os frades consagravam ao livro, era outra modalidade conventual - e bem interessante - da arte do livro e que, francamente, não esperávamos ir aí encontrar.

Examinávamos as diferentes peças, muito deterioradas, amachucadas, pedaços de ornato partidos, mas notando em todas uma aresta de recorte primorosíssimo o que é difícil obter, dada a natureza desse metal. Procurávamos imaginar o efeito da sua reprodução.

A este tempo o espírito de artista já estava a vibrar em Aires de Carvalho, a despertar-lhe o interesse, a querer ver o que aquilo seria. Em poucos momentos aparece munido da tinta litográfica usada nos seus trabalhos de gravura, a que se tem dedicado com primorosos resultados. Trazia um pincel e papel... de máquina.

Estávamos a compreendermo-nos sem falar e então a cena que obedecia a um pensamento artístico, tomou um aspecto de infantilidade: não tínhamos nada próprio para o trabalho mas tínhamos mais do que isso - tínhamos a boa vontade.

Eu mantinha as peças seguras; Aires de Carvalho empunhava orgulhosamente o pincel e ia lambuzando os recortes. Mas as peças, muito encarquilhadas, contorcidas, perdido o hábito do trabalho, tendo sofrido maus tratos dos homens e do tempo, partidas aqui, amolgadas além, esquecidas da planificação arrebitavam os contornos; o pincel espirrava riscos por baixo do recorte. Mas apesar de todos esses contras, conseguíamos uma ideia do labor dos frades, uma ideia dos seus modelos, alguns de notável elegância.

Entusiasmados, admirávamos o nosso trabalho e íamos conhecendo as placas mais apresentáveis e as folhas de papel cobriam-se com os modelos ornamentais - o que mais nos interessava - pondo de parte letras e sinais.

[...]. E ante os pobres restos de um esplendor passado, aos nossos olhos como que perpassava a visão dessas figuras anónimas que o burel cingia, acobertando nomes ilustres, almas de artista, faculdades notáveis, que se apagavam na renuncia, no anonimato, fundindo-se num todo, sombras deslizando nos longos corredores a alcançarem a oficina onde no arroubo da fé e no enlevo da arte criavam a beleza. E parecia-me vê-los curvados sobre sobre essa longa mesa negra que ali estava silenciosos e atentos acarinhando os livros da sua valiosa biblioteca, dando-lhes forma e graça, ilustrando-os com as suas estampilhas, que talvez algum donato fosse chamado a segurar como eu agora as estivera segurando. [...].

 

 

►Regulamento da Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra

 

Horário de Funcionamento: A Biblioteca está aberta à consulta todos os dias úteis (excepto terças-feiras) e tem o seguinte horário de serviço diário: Abertura às 10 horas;  Encerramento às 17 horas

Por conveniência de serviço, a sala de leitura encerra 30 minutos antes do fecho da Biblioteca.

Condições de acesso: Têm acesso à sala de Leitura, os utilizadores nacionais e estrangeiros que apresentem prévia autorização escrita do Director do Palácio Nacional de Mafra. É igualmente necessária a apresentação de Bilhete de Identidade para os leitores de nacionalidade portuguesa, brasileira e demais países de língua oficial portuguesa.  Aos restantes utilizadores é necessária a apresentação do passaporte e credencial do consulado, embaixada ou instituição do país de origem, confirmando a respectiva identidade, funções e âmbito da investigação a realizar.

Consulta: A consulta de acervo documental da Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra não está sujeita a qualquer restrição, exceptuando-se a documentação dos Reservados, classificada segundo critérios de raridade ou de conservação, à qual poderá estar vedada a sua utilização para consulta. É permitida a consulta simultânea de um máximo de 3 documentos, requisitados mediante impressos apropriados. Na sala de leitura, com a capacidade máxima de 6 leitores, devem observar-se condições de silêncio e segurança dos espécimes em consulta, nomeadamente:

a. Manuseamento cuidadoso dos espécimes de modo a evitar rasgões ou qualquer outro tipo de deterioração, como dobragem de folhas, sobreposição de livros, arrastamento, etc. Recomenda-se o mínimo de contacto com os documentos.

b. Utilização de lápis ou lapiseira, com interdição de qualquer tipo de caneta.

          c. Não é permitido escrever sobre os documentos ou proceder a qualquer tipo de           decalques, riscos ou anotações. Do mesmo modo não é autorizada a colocação de marcas.

          d. Não é permitida a entrada na sala de leitura de utilizadores acompanhados de pastas, malas, sacos ou quaisquer outros volumes.  Estes devem ser deixados na recepção, à entrada do palácio.

Reprografia e microfilmagem: A Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra poderá condicionar a reprodução em fotocópia ou microfilme segundo critérios de conservação. No entanto, é vedada a fotocópia de manuscritos e livro antigo. Os documentos impressos, posteriores a 1801, poderão ser reproduzidos em fotocópia, condicionados igualmente ao seu estado de conservação, raridade ou valor. Os impressos pertencentes ao circuito da edição comercial, cuja difusão e comercialização se encontre activa, poderão ser fotocopiados, apenas se os termos do seu copyright o permitirem, ou a extensão dos textos a fotocopiar não abranja parte significativa da edição.