Cerimonial do Lançamento da Pedra Fundamental


          A fim de se cumprir a cerimónia aprazada para o dia 17 de Novembro de 1717 com o maior esplendor, quer litúrgico quer mundano, mandou João V armar a Basílica em madeira pintada, de acordo com o plano então aprovado. De tecto serviram velas de navio forradas interiormente com panos de brim, cobertos de tafetás encarnados e amarelos. Razes pendiam das paredes. As portas e janelas foram guarnecidas com cortinas de damasco, de franjas e galões dourados. Mais tafetás vermelhos decoravam a fachada.

          Na capela mor erguiam-se dois sitiais de preciosa tela branca. O do Evangelho, sobre seis degraus e com dossel, destinava-se ao rei; o da Epístola, sobre três e sem dossel, era para o Patriarca Dom Tomás de Almeida. O deste era ladeado por credências cobertas de sumptuosos paramentos, destinados à Missa de Pontifical, e de opulentas peças de prata. Noutra credência estavam a pedra que devia ser benzida, de jaspe (como preconiza o texto do Apocalipse para o fundamento da Nova Jerusalém), marcada com cruzes, medindo 55 cm de comprimento, e a portadora da inscrição comemorativa, além de uma urna de mármore, na qual ficariam encerrados: um cofre de prata dourada com os pergaminhos do voto régio e do benzimento da primeira pedra e da cruz erecta na igreja, dois frascos com os santos óleos, duas caixas de prata dourada com o Agnus Dei de Inocêncio XI e o de Clemente XI e doze medalhas (quatro de ouro, quatro de prata e quatro de bronze). Das primeiras, uma tinha os retratos do rei e da minha, gravados a buril, no anverso e no reverso a planta do templo; outra, no anverso Santo António e o rei ajoelhado ante ele e no reverso a pers­pectiva de todo o edifício; outra, o retrato de Clemente XI e o seu brasão; a última, o do Patriarca Dom Tomás e o seu escudo. Em todas havia legendas. Tanto as de prata como as de bronze eram iguais.

          Para o monarca havia mais, junto à coluna do cruzeiro, uma tribuna em forma de leito, com balaústres de ébano e cortinas de brocado vermelho. Juncos e espadanas recobriam o chão, no qual ser­viam panos de alcatifas verdes.

          Às 8.30 horas da manhã do dia solene chegou o rei ao terreiro do templo, seguido pela corte, todos a cavalo, cuja pompa dos jaezes se equiparava à das galas dos cavaleiros. Acompanhavam-no: lateralmente a real guarda alemã e atrás a cavalaria com seus clarins. Logo se organizou a procissão para entrar na igreja. À frente marchava a comunidade dos 64 frades arrábidos; depois, sucessivamente, o clero local, os músicos, capelães de sobrepelizes, acólitos patriarcais, subdiáconos, capelães de capa magna com capelos de arminho e pluviais, beneficiados, cónegos de pluviais de tela branca e mitras bordadas com pedras preciosas (cada um precedido pelos seus criados nobres e seguido por caudatários de sobrepelizes sobre os hábitos patriarcais), o Patriarca vestido com peças riquíssimas e coberto com mitra de pedras, os protonotários patriarcais com roquetes e capas magnas, o rei, a corte, o juiz e o corregedor, os vereadores e, por fim, o povo, à volta de três mil pessoas.

          Feita a benção, cujo cerimonial o rei acompanhou com o ritual nas mãos, dirigiu-se a procissão para o local em que a pedra devia ser colocada, junto do altar mor, da qual foi portador o Patriarca. Aí depostas, essa e a da inscrição, e também a dita urna de mármore, na cova lançou o geral de São Bernardo, esmoler mor, doze moedas de cada espécie de dinheiro corrente no reino: doze de ouro, de 4800 réis, doze meias moedas, doze quartinhos e assim do real e meio de cobre.

          Este acto concluído, regressaram todos à igreja, na mesma forma processional, para assistirem às restantes funções e à missa, da qual disse D. Gabriel Cimbali, mestre de cerimónias da Patriarcal, que nunca vira, nem sequer em Roma, tanta magnificência em paramentos e cópia de sacerdotes, nem pom­poso rito, nas missas pontificais; só em lugar de cardeais eram cónegos os celebrantes.

          Acabada, finalmente, a função, quis o rei dar uma prova pública do seu amor à obra empreendida e da sua portentosa devoção. Num cesto dourado estava uma pedra de palmo e meio. Pegou nela Dom João V e, carregando com ela, foi depositá-la piedosamente junto da que fora benzida. Os fidalgos de sua corte, estimulados por esse acto de pia humildade. agarraram em outras pedras iguais, assentes em cestos pra­teados. e acompanharam o soberano, levando a sua à cabeça o nobre visconde de Ponte de Lima.