Armando de Lucena - Uma reparação de estética devida à Basílica de Mafra


  

In Diário de Notícias (10 Ago. 1943)

Graças à actividade exercida pela Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais e às suas acertadas diligências na conservação e restauro de vários edifícios públicos, já podemos olhar para muitas obras do passado sem aquele arrepio confrangedor que, não há muito ainda, magoava a sensibilidade dos portugueses verdadeiramente apaixonados pelo tesouro artístico da sua terra. Por felicidade nossa, já lá vão os tempos em que as campanhas de Alexandre Herculano, de Abel Acácio, de Costa Cascais e, principalmente, de Ramalho Ortigão punham a descoberto a miséria em que os nossos gloriosos monumentos caíram e o abandono votado às maravilhas do foro artístico da Nação.

As ruínas do Mosteiro do Carmo foram, sem qualquer protesto da autoridade camarária de então, transformadas em vazadouro público, vergonha que se prolongou até ao Outono de 1877.

A veneranda igreja de S. Domingos, recheada de inscrições históricas e jazida de varões ilustres, foi convertida num palheiro e o claustro numa praça de touros!

Parece que, naqueles tempos, os palheiros eram instituições de primeira necessidade, pelo menos no que respeitava a certos curadores da riqueza pública naqueles malfadados princípios do século XIX, visto que a reincidência dos mesmos desmandos se observou também em Alcobaça, construindo-se sobre o formoso túmulo de Inês de Castro... outro palheiro! Outro palheiro, Santo Deus!

Não servia o túmulo de Dona Constança, na igreja daquela cidade estremenha, de cabide para selins e arreios?... E o templo romano de Évora não esteve durante anos nas mãos de carniceiros, fazendo-se daquela obra-prima o principal açougue da cidade?...

E a torre da Sé Velha de Coimbra não foi em 1773 derrubada pelo iconoclasta Dom Francisco de Lemos, com o fundamento de que era «um monstro de pedra e cal» e que tirava a vista do Paço das Escolas?

Foi. Mas há mais, e mais expressivo no capítulo da destruição: conta Ramalho no Culto da Arte em Portugal que, «na Sé de Braga, as estátuas jacentes do Conde Dom Henrique e de sua mulher foram cortadas pelo meio das pernas para caberem nos novos lugares para onde se transferiram e, com o fim de não transformarem inteiramente a anatomia dos personagens, pareceu útil aplicar os pés decepados aos joelhos das figuras».

E não havia de Castilho ter razão quando bradava que os mosteiros e igrejas às dezenas e aos centenares se vendiam, com sepulcros e tudo, para salas, para teatros, para botequins, para cavalariças!...

Tinha; tanto mais que o património artístico da Nação se achava protegido pela doutrina daquele alvará, talvez demasiadamente romântico mas sádio, de 20 de Agosto de 1721 que pretendia defender a integridade dos nossos monumentos com pesadas sanções aos contraventores.

Tudo foi letra morta, e o descalabro continuou e, nalguns casos, sem emenda nem remissão. Noutros, felizmente, parece-nos possível o resgate, valendo talvez a pena tentá-lo com manifesta vantagem para a nossa arte e sem apreciável dispêndio para o tesouro público. Referimo-nos à reposição em seus

devidos lugares das formosíssimas pias de água benta da Basílica de Mafra, que mão sacrílega desviou da sua primitiva função, substituindo-as por duas míseras e desajeitadas conchas de pedra, por sinal alheias ao estilo do monumento pela bastardia das formas e pela insignificância das proporções.

Como o desacato se deu não sabemos nós. Parece, todavia, que a deslocação que delas se fez para a capela do Santo Cristo, adaptada, como se sabe, baptistério do templo, se deve à transferência da freguesia de Santo André para a Basílica, em Junho de 1835. Nessa ocasião viria também, conforme amavelmente nos informa o Dr. Carlos Galrão, a respectiva pia baptismal, porventura aquela que o antigo reitor do Sacramento, António Rodrigues Bicho, em 1781, para a igreja velha mandara fazer e que actualmente dorme, esquecida, num recanto do Mosteiro.

Em virtude da ablação feita das magníficas peças, que são pediculadas e de rara elegância, o marchetado artístico do pavimento da nave sofreu sérios estragos a que facilmente se poderia dar remédio, a bem da arte e do próprio culto, repondo as coisas no seu verdadeiro lugar, ao mesmo tempo que se restituiriam à Basílica os privilégios da sua primitiva beleza.