Armando de Lucena - Os Sinos de Mafra


In Arte Popular, Usos e Costumes Portugueses, v. 2, 1943, p. 171-175

e parcialmente, in O Concelho de Mafra (6 Set. 1942)

 

Mais que a cor e a forma das coisas, o som tem o privilégio de impressionar profundamente os nossos sentidos, deixando neles o rasto duma vibração muito difícil de extinguir-se. Esquecem, com facilidade, os episódios da vida quando outros de maior vulto se lhe sobrepõem. Perdem-se reminiscências do que vimos e do que fizemos quando esses quadros são apenas de natureza visual; talvez porque os deslumbramentos da luz que chega apaguem os da que passou mais facilmente do que o som se extingue no fundo da nossa memória. É que som é música, e a música, além de nos embalar o espírito, tem, sobre isso, a rara virtude de ser essencialmente evocadora. É, talvez, por essa razão que, longe, no espaço e no tempo, conservamos sempre vivas e consoladoras as mais pequenas reminiscências arrecadadas pelo ouvido. O timbre das vozes amigas mantém-se intacto e puro na imaginação, anos e anos decorridos sobre a última vez que o escutámos, embora o resto, a expressão do rosto, a cor da pele, os gestos, a fisionomia, enfim, das pessoas que há muito não vemos, por nós se tenha já esquecido.

A última reminiscência a deixar a sensibilidade do expatriado é, quase sempre, a musical: os cantares ouvidos na mocidade, o ruído dos rebanhos passando, entre poeira, no regresso ao redil, o gemer das noras à hora da rega, e talvez mais do que essas, a plangente e sempre grata voz dos sinos da sua aldeia que jamais esquece e que sempre tão doce é lembrar e sentir.

Entre muitos sinos da terra portuguesa, uns excepcionalmente nos sensibilizam, pela extensão das suas vozes, pela incomparável harmonia do seu conjunto. Esta, maravilha, no género, só foi possível ali, em Mafra, nessa formidável construção monástica, verdadeira expressão duma época e da mumificação dum rei.

Era já bastante antiga a ideia de em Mafra ser construído um convento para refúgio espiritual dos seus moradores, mas as dificuldades foram sempre enormes que nem a porfiada insistência dos viscondes de Vila Nova de Cerveira, especialmente a de Dom Tomás de Lima Noronha e Vasconcelos conseguiu vencer, como era seu grande desejo. Mas, como quem espera sempre alcança, sucedeu que em certa altura as coisas mudaram subitamente de aspecto. Há falta de sucessão preocupava muito os dignitários da corte, pois, sendo Dom João V casado há cerca de três anos ainda não tinha quem o pudesse substituir no governo da Nação. Sucedeu, porém, um dia encontrarem-se numa sala do Paço, conversando, o eminente Cardeal da Cunha e o Marquês de Gouveia, Dom Martinho Mascarenhas, quando ali entrou Frei António de São José, compadre do marquês e devoto de grandes virtudes a quem, imediatamente o Cardeal se dirigiu, rogando-lhe que encomendasse a Deus graça de dar ao rei um sucessor. Como quer que a resposta dada por Frei António fosse mais ou menos misteriosa, ficaram meditando nas suas intenções até que mais tarde, em novo encontro, outra súplica se lhe fizera.

Então, o venerando religioso esclareceu o seu pensamento, declarando dar-se sucessão à Coroa se o rei fizesse voto a Deus de fundar um convento, dedicado a Santo António, na vila de Mafra, ao que prontamente anuiu, não tardando a realização vaticinada por tão virtuoso frade, o que encheu de alegria toda a corte joanina, ao vir ao mundo a Sereníssima Princesa Dona Maria Bárbara.

Depois de várias diligências, e escolhido o local apropriado, tratou-se do projecto, começado a executar em Novembro de 1717, tendo-se concluído a sua construção cerca de treze anos depois, no meio de grande e luzido cerimonial.

Embora Alexandre Herculano lhe chamasse uma sensaboria de pedra, o convento de Mafra é uma sumptuosa fábrica que, debaixo de certos aspectos, talvez em Portugal, nenhuma outra a sobreleve. Se, na realidade, alguns temas da sua concepção arquitectónica lhe possam diminuir os rigores da elegância, ou a pureza dos cânones, em compensação, o acerto do conjunto oferece-nos maravilhoso espectáculo de grandeza que, sem dúvida, exprime o carácter da época e os rasgos da munificência joanina.

Chega a parecer que o pensamento real se excedeu a si próprio no plano de tão glorioso monumento e que o ardor votivo, como a fé das suas preces, de tal modo lhe exaltaram a inteligência que a fama do mosteiro se não resume, apenas, a exprimir aquela beleza material e silenciosa que pertence ao mundo plástico das formas.

Os ressaibos do classicismo austero, impresso na fachada e desenvolvido no interior da igreja pelo tudesco João Frederico Ludovice, não lhe limitaram o valor, nem as razões do nosso apreço. Qualquer coisa de mais subtil se eleva daquela mole com a mesma graça do perfume ao evolar-se da terra, constituindo, por assim dizer, a essência mística do templo e o clamor ardente da fé; a imagem, em suma, que talvez melhor simbolize a profética sentença de Frei António de São José e até o próprio voto do rei: é a voz daqueles sinos majestosos e altaneiros que transformam em castas melodias o sentimento recolhido e doce das naves.

Como essência que no fundo rescendesse até as alturas, mais longe da Terra e mais perto do Céu, os sinos subiram àquele ponto para, dali, melhor poderem exaltar o amor de Deus.

Sabe-se, hoje, que o rei Dom João V, além do seu formalismo e da sua grande tendência religiosa, tinha uma singular paixão pelos sinos, o que o levava a rasgos verdadeiramente principescos. Desse pensamento surgiu o monumental conjunto dos carrilhões, peças, do género, que não foram excedidas em qualquer lugar do mundo.

"Tem cada torre em si", diz-nos Frei João de São José do Prado, "um carrilhão de sinos, e são cinquenta e um".

Cada um deles com sua função: um para a solfa, outros para os ofícios divinos; todos eles dispostos e empenhados em traduzir fielmente a prece dos fiéis, o sabor e graça dos cânticos solenes da igreja.

Em virtude disso, mesmo de longe, pressentimos a existência do mosteiro porque a voz dos seus numerosos sinos nos fala dele, ao mesmo tempo que a miragem do seu vulto se forma na imaginação, embora a grande distância, porque o brado das vozes de bronze são, nele, evocadoras e sentidas.

Entre vários daqueles sinos, um, particularmente, se fixa e não mais se esquece: sino da graça, assim chamado pelo som mavioso com que vibra. Tocava nos sermões e nas procissões das preces, e foi obra dum português: Pedro Palavra, singular apelido que parece destinado a transmitir àquele pedaço de bronze o poder e a graça da eloquência.