Armando de Lucena - Jardim do Cerco


 

In O Concelho de Mafra (17 Out. 1948) e Diário de Notícias (17 Out. 1948)

 

Não foi apenas a grandiosidade arquitectónica e o volume majestoso do Convento de Mafra que tornaram célebre a obra de Ludovice nos terrenos da Vela, lugar que ao rei e aos seus conselheiros pareceu o melhor para a construção do votado monumento; a enorme tapada e os jardins que lhe pertencem completam o sonho joanino - alucinada visão de grandeza nunca excedia nem sequer igualada na história da nossa realeza. Para contrabalançar o peso esmagador do edifício e de qualquer maneira iludir a liberdade dos reclusos, o tracista do cenóbio imaginou, para ali, um doce, um lânguido e silencioso jardim à moda francesa. Como a mole do convento é singularmente volumosa, sobre o Jardim do Cerco, logo às primeiras horas do entardecer, desce uma sombra prolongada e lenta que tudo afoga e funde desde os tufos rasteirinhos de roxas e de gerânios às áleas de murta e de buxo de tão acre fragrância.

Envolvido por uma densa cortina de plátanos e de pitosporos, o lago central parece adormecido. No ângulo dos arruamentos, em estrela, vasos heráldicos de Pêro Pinheiro velam aquela meiga serenidade.

É hoje, talvez, incompreensível o ar romântico destes lugares que tanto arrebatou a imaginação de mil e setecentos. Lenôtre previra, tempos antes, a aura desses pequenos edens, criando, sob as vistas de Fouquet, incomparáveis focos de beleza nos parques de Vaux, de Versalhes e de Chantilly. O engenho do magno jardineiro do Rei-Sol não era, todavia, privilégio seu. Observador arguto da sua época, Lenôtre não fez mais do que reacender as tradições romanas do tempo de Augusto, em que certo Caius Matius foi o primeiro visionário da jardinagem poética.

Como qualquer estatuário faria, dando número e vida ao barro ou à pedra, assim ele, a contas com o teixo e com o buxo, transformava essa existência vegetal nos mais estranhos caprichos da forma que ainda podemos surpreender nalguns dos mais sugestivos frescos de Pompeia.

Arrefeceu, é certo, o fogo doirado dessa poesia, mas perdura, por enquanto, suave e enternecedora, a miragem dessa graça elísea que durante séculos permitiu o fatalismo do amor, e de que Rosiñol foi o derradeiro apóstolo na alma peninsular.

Voltemos aos jardins do Convento de Mafra.

Neste Outono, como nos outros certamente, os verdes húmidos da Primavera e os mais secos do Estio trocaram-se pelo oiro e pelo bronze das frondes, escorrendo das alturas sobre o chão coberto de folhas mortas.

Apesar disso, os jardins parecem agora, outros, rejuvenescidos, seiva nova, perfume inebriante. Principalmente o do cerco atrai-nos com a surpresa de novas perspectivas. Aproveitando o eixo daquele sector da tapada para tema de simetria, houve a feliz ideia, ao reconstruir o velho parque, de fazer uma réplica topiária na zona esquerda em tudo semelhante à do lado oposto, que é, como se sabe, da traça primitiva.

Cabe a iniciativa destas obras à Direcção Geral dos Serviços Florestais, sob a influência do abalizado engenheiro José Mateus de Almeida Mendia, pensamento a que o não menos distinto engenheiro Dom Segismundo da Câmara Saldanha deu forma com devotado carinho e saber. Houve obstáculos a vencer com grande movimento de terras e algum sacrifício de essências para que o plano resultasse correcto, elegante, como na realidade sucedeu. Enquadrado numa cortina de castanheiros e de metrosidros, por um lado; e em grandes maciços de bougainvilleas e magnólias, por outro, o jardim renascido oferece-nos um formoso panorama da especialidade que o turista aprecia e sente com viva emoção ao admirar o sábio arranjo das várias espécies em tapetes de grandioso engenho que a habilidade profissional do mestre jardineiro Joaquim de Jesus Marques conseguiu realizar, dispondo há sua vontade canas índicas, fuchsias, pelargónios, dálias e perpétuas, num matiz de efeito surpreendente.

A nosso ver, somente ali falta, para completar o ambiente da época evocada, a presença de algumas estátuas alegóricas de chumbo ou de pedra das muitas que sabemos, por aí, dispersas e caídas no sono profundo do esquecimento.

Afora isso, o Jardim do Cerco, há pouco reconstruído na Tapada de Mafra, é perfeito e atraente.