Armando de Lucena - Academia Literária


Existiu em Mafra uma Academia Literária?

(A propósito duma passagem do manuscrito de Machado de Castro O Zénit da Ingratidão)

In Diário de Notícias (20 Ago. 1945)

 

A primeira referência que vimos fazer às Aulas Literárias de Mafra foi num manuscrito do escultor Machado de Castro, intitulado: O zenit da ingratidão, actualmente na posse da família do Dr. Ferreira Cardoso, médico distinto e, pelo visto, não menos abalizado coleccionador de raridades.

Que a certas dependências do mosteiro de Mafra ainda hoje se chama: o corredor das aulas, sabíamos nós e sabem-no todos quantos ao grandioso monumento têm prestado um pouco da sua atenção. Mas, que aulas seriam estas que, pelo menos ao tempo da estadia do nosso maior estatuário do século XVIII naquela vila, foram frequentadas pelo Reitor dos Catecúmenos, Cláudio José Gonçalves, conforme se afirma no citado documento?

A existência de várias teses ou discursos impressos e recitados na referida instituição, como alguns que o Dr. Carlos Galrão ofereceu à Biblioteca Municipal daquela localidade, podia levar-nos à suposição de que se tratava duma verdadeira Academia no sentido corrente da palavra, tanto mais que o século XVIII foi, como toda a gente sabe, rico e exageradamente abundante desses organismos culturais, quer mantidos pelo Estado, quer animados pela iniciativa particular. Houve-os na capital desde a velha Academia Real da História, fundada por Dom João V em 1720 até à actual Academia das Ciências de Lisboa. Entre estas e outras floresceram com maior ou menor brilho, mais ou menos actividade mental, mas todas elas enfáticas pela doutrina e pretensiosas pela denominação: a Academia dos Ilustrados, a dos Obsequiosos e a dos Anónimos, por exemplo.

O entusiasmo cultural daqueles tempos estendeu-se à pacatez provinciana, criando em Santarém a famosa Academia dos Solitários, porventura o mais antigo destes organismos. Seguiu-se-lhes a dos Aquilinos, em Aveiro; a Vimarense, de Guimarães, e até na longínqua e formosa Ponte do Lima funcionou a Academia da Palestra Literária, sem contar com outras mais que às letras, às falas e ao pensamento deram quanto em si cabia em matéria de imaginação, de artifício e daquele engenho verbal que foi norma inconfundível da época.

Por outro lado, sabe-se de ciência certa que em 1781 existia no Convento de Mafra certa escola literária onde o nosso grande botânico Avelar Brotero estudou humanidades e que, segundo as melhores razões, seria o Colégio de Estudos do Real Mosteiro, cujos estatutos Dona Maria I aprovou por alvará de 30 de Setembro de 1780.

No tempo dos Arrábidos também, ao que parece, ali houve escola para os frades da ordem. Contudo, tanto uma como outra destas instituições devem ser alheias às Aulas Literárias de Mafra, a que o autor da estátua de Dom José se refere na citada obra.

Seja, porém, como for, e a avaliar pela inscrição latina sobreposta à cátedra presidencial do cenáculo, deve tratar-se talvez de uma Academia na rigorosa expressão do termo, criada por Dom João V, cujos estatutos foram mais tarde outorgados por Dom José, conforme se indica na legenda de 1752.

Mas, por nos parecerem bastante confusas as características desta instituição e por julgarmos que do esclarecimento do assunto algum tributo possa resultar para a História da Literatura Portuguesa, daqui se levanta uma

ponta do véu para que os especialistas - se o caso lhes merecer tais diligências - estudem a questão e, sobre ela, nos digam a última palavra.

Coeva de outras instituições similares, a suposta Academia Mafrense pode ter atingido apreciável valor cultural se atendermos não só à reconhecida protecção do rei como á circunstância de, nesse tempo, no mosteiro funcionar a celebrada escola de escultura dirigida, como se sabe, pelo italiano Giusti, sobre cuja influência se criou e desenvolveu a notável geração de mestres e estatuários a que pertenceu Joaquim Machado de Castro, frequentador das aulas literárias, conforme deixa compreender no manuscrito que serviu de base a estes despretensiosos comentários.