Alfredo Ansur - Cenas da Tapada Real


 

I. No Cerco

In Gazeta do Campo, n. 34 (1866)

 

Fica o Cerco contíguo aos reais paços de Mafra.

Soavam quatro horas da tarde nas torres da venerada basílica. Um sol de Junho dardejava seus ardentes raios.

No meio desse lago de verdura a que chamam - o Cerco - demora um sítio delicioso, onde se vêem uns bancos e mesa de cortiça por baixo de árvores frondosas e altíssimas, que favorecem com sua sombra este lugar hospitaleiro. A dois passos de distância fica um poço com uma nora da qual tira água uma formosa juvenca, que, quando pode, nunca se dispensa de fazer os seus cumprimentos aos visitantes. A igual distância para outro lado se estende um lago azulado cuja circunferência medirá uns 60 metros. Por trás deste grande tanque campeia uma estufa riquíssima onde se dão em abundância o ananás, a banana e outros delicados frutos dos climas quentes. Em frente destaca um jardim onde as dálias, as camélias, as tílias, hortenses, o martírio, a opala, a magnólia e outras flores formam um vistoso ramalhete.

Por uma das ruas atinentes à mata caminhavam vagarosamente em direitura a este sítio cinco pessoas - três homens e duas senhoras, que tinham um não sei quê de britânico. Seguiam dois criados com cestos à cabeça e cabazinhos nos braços.

Mylord, vinha dizendo madame de Kehll com uma inflexão de voz pronunciadamente alemã, deve de saber muito bem a cerveja e o meu belo Reno debaixo destas árvores altaneiras que se erguem......

Oh! Interrompeu em belo português o segundo dos cavalheiros, juro-vos madame de Kehll que o meu pátrio Porto não fica a dever nada ao vosso famigerado Reno.

Não pense tal, visconde. Todo o Porto que tendes nas vossas adegas não vale uma lágrima só do vinho de Reno.

Pois eu, observou excentricamente miss Oxfort a outra das duas senhoras, prefiro um dedal de Lacrima Christi a todos os vinhos do universo, inclusive o coração de Espanha.

Conversando deste modo chegaram ao sítio da mesa e bancos de cortiça em que falei há pouco.

Sentaram-se as duas senhoras: em seguida dois dos cavalheiros, ficando John Foster de pé encostado expressivamente a duas garrafas de cerveja.

Os criados depuseram os cestos e cabazes em cima da mesa, e retiraram-se a um sinal de Kehll.

Avançou há pouco que o vinho do Porto era superior ao vinho do Reno. Em nome da verdade e dos brios nacionais de minha esposa madame de Kehll convido-vos a que retireis a vossa asserção, visconde.

Não posso, mylord. O genuíno Porto é melhor que o Reno.

Pois mentis! Bradou fleugmaticamente o terceiro dos cavalheiros, que até ali guardara importuno silêncio.

Não sei mentir, lord Strington; digo o que penso. Sabe que as opiniões não são as mesmas.

Lord Strington calou-se.

Neste entrementes miss Oxfort tinha espalhado por cima da mesa o conteúdo dos cestos. Avultava um presunto de fiambre, garrafas de Champanhe, empadas,

queijo londrino e alentejano, rosbeef, omeletas de ovos, uma travessa de croquetes, laranjas, pasteis, botijas de genebra holandesa, cerveja, e umas duas dúzias mais de garrafas lacradas.

Uf! Que calor! Soprou John Foster com tanta força que parecia uma cobra; à fé de quem sou preciso refrescar; e empunhando uma garrafa de cerveja em cada mão esvaziou-as de um sorvo.

Tendes razão, mylord, disse Strington, faz muito calor. Proponho que vamos tomar ali um banho no tanque para refrescarmos e ganharmos apetite.

Bravíssimo! Portentoso! Celestial! Apoiou Froster despindo a sobrecasaca, e segurando nos dentes a segunda garrafa de Bordeaux. Este calor só em Portugal. Nunca em Londres meus olhos viram um sol tamanho....

É óptima essa ideia do banho, opinou miss Oxfort. Os acrobatas romanos costumavam banhar-se no Tibre depois das suas pugnas. Façamos o inverso; banhemo-nos antes da luta gastronómica.

A este tempo já os dois ingleses estavam em roupas brancas, prestes a atirarem-se à agua.

O visconde roeu nas unhas e disse com os seus botões: estes estrangeiros com mil demónios são de poucas cerimónias. Vamos. Não quero fazer-me peixe frito diante desta gente. Despiu-se e foi o segundo a atirar consigo ao tanque.

Tripas de Judas! Vociferou Strington, esquecia-me que não sei nadar; preciso de bóias.

Voltou atrás e levou consigo 5 garrafas de cerveja com as quais se deitou no tanque.

À saúde do spleen!! Bradou ele, e despejou uma.

Que tal nadais agora perguntou o visconde a Strington?

Como um hipopótamo. A propósito, quereis um certame?

Proponde.

Tenho aqui quatro garrafas de cerveja; haveis de despejar duas debaixo de água sem tomar folgo; eu farei outro tanto.

Boa ideia! Lord Strington, luminosa ideia!! Dai-me as duas e mergulhai vós primeiro. Strington mergulhou, esteve uns quatro minutos debaixo de água e reapareceu com as duas garrafas vazias.

O visconde mergulhou em seguida e a muito custo bebeu uma.

Ficara vencido.

(Nesta ocasião Froster batendo com um peixe na testa fazia esforços subrehumanos e teimava como havia de ferir lume suficiente para acender um charuto debaixo de água).

Não estou costumado a beber cerveja; proponho-vos o mesmo duelo a genebra.

Belo! Exclamou Strington.

Chamou os criados que trouxeram imediatamente duas botijas de genebra uma para ele outra para o visconde.

Strington mergulhou e reapareceu com a botija vazia, olhos chamejantes e todo açodado.

O visconde não se fez rogar; porém fez com a genebra o que não tinha podido fazer com a cerveja. Despejou-a no fundo do tanque e reapareceu triunfante.

Bravo, visconde, clamaram as duas senhoras.

À fé de Baco que sois bom bebedor! Rugiram os dois ingleses abraçando-o.

Froster para se distrair propôs ao seu patrício uma partida de pugilato.

Strington aceitou com entusiasmo. Puseram-se em posição e vibraram os primeiros golpes.

Strington estava vulcânico.

Alguns minutos depois mergulharam ambos, e o combate tornou-se submarino por alguns segundos. Durante estes boiaram à tona de água punhados de cabelos, duas polegadas de orelha e um naco de nariz.

Reapareceram.

Aquelas relíquias pertenciam a Froster. Estalando de raiva apanhou o seu adversário, quando vinha tomar folgo com um soco, que, ecoando como uma bomba, lhe fez engolir dois dentes incisivos.

Findou o combate. Vieram para fora e enxugaram-se como puderam.

O visconde deu graças à sua boa estrela. Ficara ileso.

Madame Kehll e miss Oxfort para não perderem tempo haviam limpado o interior de sete garrafas despedaçadas no solo.

O banho produzira efeito e criara apetite.

Trocaram-se saúdes.

Começando a comer e beber cinco, acabaram sete roncando debaixo da mesa. Os dois criados não eram desmancha prazeres.

Foram esplêndidos os sonhos destes bem aventurados!

Strington jurava que era imortal; porque tinha, dizia ele, engolido no dia antecedente os suspensórios da eternidade.

John Froster apalpava os seixos, que lhe serviam de cabeceira, e dizia para um criado imaginário: Idwil estas lagostas estão mal cozidas; se assim continuas mando-te pentear cágados para a Cochinchina.

O visconde como bom português não sonhou despropósitos; contava simplesmente a um seu amigo como tinha por casualidade apagado o sol um dia em que soprava de encolerizado.

Madame de Kehll tocando as suas orelhas e as orelhas de miss Oxfort perguntava a si mesma a que título Deus lhe tinha dado tantas orelhas.

Um dos criados julgando que se despenhava do topo de uma escada agarrara-se com ênfase ao nariz de miss Oxfort que tomou por corrimão.

Irra! Com tantos mosquitos! Resmungou ela, e voltando-se para o outro lado rematou com voz dolorida:

Estas Américas são insuportáveis.

São assim os sonhos! E são assim os folhetins!!

Mafra - Agosto 1866

 

II. Nas Lagoas de Mafra

In Gazeta do Campo, n. 36 (1866)

Era de tarde; - o sol já se perdia

Nas fímbrias do horizonte:

O manto do crepúsculo subia

Dos vales profundíssimos ao monte.

Era por uma tarde de Julho. A dois hectómetros da vila de Mafra pouco mais ou menos, estão situadas as lagoas, estância amena e poética como um canto de cisne.

Bruxuleavam os últimos lampejos do facho etéreo, prestes a imergir-se na vastidão neptunina. Aqui e além perdidas por entre miríades de pinheiros estendem as la[?] toalha límpida de suas águas; e os [?]tes e graciosos, erguendo as [?]osas para o céu, embalavam [?] ricas divagações.

[?]nde a pereira, a macieira, a romanzeira, a laranjeira e [?]m seus frutos, entrelaçando seus ramos.

Ali em torcicolos caprichosos ondeiam arruamentos de buxo e de murta.

Mais sublime - pairando sobre tudo isto:

A imensidade e Deus!

O génio da solidão distendeu ali as asas melancólicas, e ungiu o ambiente de suave perfume.

De vez em quando sentem-se arfar os ramos dos pinheiros ao tépido contacto das brisas da tarde. Uma pinha rolando no solo ou um gorjeio de ave, são as únicas harmonias, que vêm quebrar o silêncio. De vez em quando uma rã pula em sobressalto para os abditos da lagoa, e faz ouvir o seu coaxar plangente.

Por toda a parte alas de árvores alinhadas ondeando em caprichosas roscas aveludam o cairel das lagoas. Mil e mil arbustos variegados se apertam e confundem em doce amplexo, tapetando a terra com matizes sedutores. - De vez em quando a vista depara com alegretes viçosos, cheios de flores delicadas.

O espectador pára atónito, se, caminhando través um pinhal cerrado, vê repentinamente o quadro, que procurei bosquejar.

É verdadeiramente belo!!

Os sons melodiosos do carrilhão e dos minuetes atravessando o éter nas asas de Orfeu dão a última expressão a este painel.

Sente-se como que um banho de fascinação, que bem nos vai ao arcanos da consciência; um como magnetismo delicadíssimo, que se nos embrenha não sei aonde.

As palavras são sóbrias de expressão; não podem dar ideia do prurido íntimo, que se sente, quando entregamos a alma a Deus e o coração à alma num éden de aprimoradas delícias.

Num sítio como as lagoas de Mafra precisam-se apenas duas coisas: coração e harpa.

Os coração para sentir as correntes eléctricas do enlevo; a harpa para retratar na divina partitura influxos que se não dizem. O coração para pulsar; a harpa para gemer.

Devia ser assim o paraíso de nossos primeiros avós.

Declinava, como disse, o dia.

Num recesso transviado aonde se ergue um assento em forma de ferradura estavam sentados dois jovens ambos formosos, melancólicos ambos.

Eram como que a encarnação dos sentimentos que ali predominavam.

Alberto estava sentado ao pé de Oliva. Oliva era uma italiana de 18 a 19 anos, alta e de cintura flexível. Cingia-lhe a fronte uma auréola de palidez engastada num abismo de tristeza. Tinha nos olhos a volúpia do oriente, e nos lábios a doçura de um mártir. Seus cabelos pendiam em vagas luxuriantes sobre o colo alabastrino. Seu pé fantástico era uma concepção de Praxísteles. De momentos apontava-lhe nos lábios um sorriso repassado de todos os mimos do céu. Então era mais bela!

Os raios da sua vista fendendo obliquamente o olhar de Alberto semelhavam os fogos pálidos de uma estrela coando-se através uma pérola de Ophir!

Tinha a cabeça ligeiramente inclinada sobre o peito de Alberto, e como que parecia contar sôfrega as pulsações de seu coração. Alberto parecia mais velho dois ou três anos que Oliva. Tinha a estatura de Oliva. Seus olhos eram negros como o véu da morte; pestanas igualmente negras como azeviche. Seus dentes puros tinham a transparência dos mármores de Carrara.

Era belo como um tipo de Ossian!

Oliva ergueu para Alberto um olhar marejado de comoção, e rompeu nas seguintes palavras:

Olha, Alberto; a voz prende-se-me na garganta com uma magia irresistível. Quero falar, mas o som susta-se nos lábios. Gozo: mas um gozo tão indefinido e vaporoso, que gozo é este que se confunde com os ouropeis de um sonho febricitante.

É verdade, Oliva, minha Oliva, há comoções tais que o vestígio único que deixam após si são um sulco de saudades sobre uma esteira de ambrósia e flores.

É assim que acontece connosco. O dia de hoje é mais uma grinalda para o viçoso ramalhete da nossa felicidade.

Voam-nos os dias como abelhas; os anos como andorinhas.

Há já três anos que o himeneu sagrou nossos laços e ainda estamos na lua de mel. Parece que foi ontem. Diz-me, Oliva, estás arrependida de vir passar aqui a Mafra alguns dias de Julho?

Não, Alberto, pelo contrário. Mafra tem sítios deleitosos onde a realidade se olvida e a felicidade se apalpa. Atenta no lugar onde estamos. Vê estes pinheiros alterosos, que erguem suas testas altivas para o firmamento; vê estas hortênsias que osculam nossos pés; olha como estes lilases e estas cândidas magnólias se casam bem com o preto dos teus cabelos.

Ai! Minha esposa, este sítio das lagoas é bem vistoso e tem bastante poesia para corações como os nossos, que sabem compreendê-la. Chegámos anteontem; permita Deus que a continuação iguale as primícias da nossa felicidade.

Há-de permitir meu esposo.

A Itália continuou ele, nossa pátria é a pátria sede das belezas naturais. O céu da nossa Itália não tem um céu que lhe seja irmão. As águas das nossas fontes são diáfanas como um sorriso dos teus, minha doce Oliva. Mas este sítio não fica a dever nada ao mais belo Tempé do nosso país natal.

Eu, disse Oliva, pensava agora nisso mesmo, e amo estas lagoas porque me recordam a nossa Itália. Portugal tem muitas belezas também.

É inegável; acrescentou Alberto. Não tenho ainda saudades da pátria das belas-artes; da pátria do Torcato Tasso e do Dante, e Bellini e tantos outros fulgurantes nomes. Este sítio faz-me esquecê-la.

Olha, Oliva, não nos havemos de esquecer de visitar também as hortas, o cerco e o Celebredo, que tenho ouvido dizer serem sítios muito aprazíveis e pitorescos.

Havemos de saborear, concluiu ele beijando-lhe os cabelos, todas as delícias deste éden do imortal D. João V. Já vimos o palácio; amanhã havemos de ir ao Cerco.

Disse: e pegando-lhe na mão convidou-a a levantar-se e passear.

Oliva ergueu-se, travou-lhe o braço, e depois de dar alguns passos, voltou-se para Alberto e disse:

A felicidade da vida, amico mio, depende sempre de mil circunstâncias. É triste mas é verdade. Esta estância das lagoas de Mafra, que tem para mim mais encanto do que os torvelinhos de seda das cidades opulentas; sem ti, sem a tua presença, sem o teu amor seria para mim muda de poesia e erma de inspiração.

Oh! Como és minha amiga e quanto te devo!...

Tua amiga....dizes tu? No passado há só três anos; no futuro até à morte.

Obrigado. Oh! Obrigado minha Oliva. Oxalá Deus te dê felicidade, e constância como eu tenho.

Os nossos laços, Oliva, são tão válidos que não há-de quebrá-los.

Deus te ouça meu marido, disse levando aos lábios a extremidade dos dedos brancos de Alberto.

Neste momento um casal de pintassilgos multicores vieram pousar numa pétala de magnólia, e começaram de gorjear estrofes sentidas.

Olha, disse Oliva apontando para eles, são a nossa imagem como aquela lagoa da nossa direita é a miragem do golfo de Veneza ou do lago de Como da nossa Itália.

* * *

Caía vagarosa a noite. - Aragem fria envolvia em névoas as franças do arvoredo. Por entre dois ramos de carvalho já vinha despontando a lua serena e lívida como a estátua do dó.

Vamos a casa Oliva; pode fazer-te mal o sereno da noite. A tua saúde não é vigorosa.

Vamos, esposo; são santas estas nossas alegrias, mas não podem durar sempre; precisam dormitar agora para reflorir daqui a pouco.

Saudemos com um derradeiro olhar estas lagoas encantadas e vamos.

Vamos repetiu Alberto.

E desapareceu por debaixo da latada de pinheiros levando [?].

Mafra - Agosto 1866

 

III. Nas Hortas (1)

In Gazeta do Campo, n. 37 (1866)

 

Pois que me dizes, Emília, falas sério?

Tão sério como ser eu Emília por alcunha a morenita. Olhe senhora Gertrudes, ainda um destes dias haveram de ser umas oito horas da manhã, estava eu à minha soleira a remendar umas roupinhas da minha tia, eis senão quando passa o tal Anastácio que vinha dar de beber (com sua licença) ao jumentozito do padre prior; parou ao pé de mim, tirou do peito um raminho de limonte, e disse que gostava muito de mim. Não contente com esta aquela quando ia a despedir-se fingiu que lhe caía a navalha do jaleco e quando ia a abaixar-se deu-me um beijo na cara e furtou-me o novelo das linhas...

E tu consentiste...

Ora... eu a princípio fiquei para não viver porque minha tia já me tem dito que os beijos dos homes são pior do que o lume; fui logo ver-me ao espelho, mas não dei fé que tivesse a cara queimada. Pode ser que eu me enganasse... talvez aquilo não fosse beijo; mas... como o outro que diz... sim ele não é mau rapaz. Que lhe há de a gente estorvar! Ele tem bom coração...

Maroto! Patife! Olha aquele biltre que ainda honte me jurou numas horas... Isto, Jesú, quem se fia em homes e botar-se a afogar. Eu sempre tão fiel...

Dois calabres de bogalhudas lágrimas rompendo-lhe pelos cantos dos olhos algum tanto gemados vinham imbicando pelo vasto carão.

Ora! Senhora Gertrudes, sabes que mais, não se esteja a ralar. Ele não fez por mal.

Neste somenos dirigia-se à fonte uma terceira mulher de cântaro à cabeça. Era alta, bexigosa, e bem fornida de janeiros. Vestia uma saia de chita e um casabeque de lã de cor duvidosa. Era proprietária de umas enormes rodas de carro, cujas ela chamava os seus brincos.

Quando caminhava parecia uma destas seges antigas, bambaleando-se nas molas enferrujadas (2).

No demais eram uns pés de sete léguas, e uma boca em guerra civil com as duas orelhas. O pescoço semelhava na cor o casco de algum tacho macróbio.

Boas tardes, senhora Custódia, então como vai a sua bizarria? Cumprimentaram Emília e Gertrudes.

Quando mal nunca pior, respondeu com a voz alambicada de uma prima-dona galante. O que me azeda é ter de aturar um cento de bigorrilhas, que julgam que cá a pessoa... sim eu já não corro atrás de foguetes nem gosto de espevitar os dentes.

Então que folia foi essa? Interrompeu a morenita.

Então! Que havera de ser! É esse malandro do Anastácio que me anda a atazanar com os seus rapa-pés.

O Anastácio!! Exclamaram as duas mulheres.

Sim; o Anastácio em carne e osso. Ele... valha a verdade não é peco, mas como aquilo tenho eu aos centos. Olhe, senhora Gertrudes, muito arriba estava o Eusébio das Bicas e eu não o quis; outro estamago tinha o Zé Felismino e eu disse-lhe logo: vai-te com os diachos; fino como azougue era o Vicente da loje e eu mandei-o à fava... e o Jo...

Ora deixe-se dessa prelenga; conte-nos lá esses rapa-pés do Anastácio.

A senhora Custódia afivelou um sorriso a toda a longitude da sua boca (que trabalhinho!) e disse:

Há oito dias que ele me anda no encalço: aquilo é mesmo uma seca!... Enfim, que lhe há-de a gente fazer, sempre tenho de o aturar o meu pedaço ainda que toda a gente sabe que nunca fui namoradeira.

Vermelha de ciúme, Gertrudes prorompeu na gravíssima frase de:

Você é uma telhuda.

Que diz ela?! Isto é tão certo como eu ser uma rapariga desempenada, que ainda vale mais que muitas...

Que está para aí a tagarelar? Isso tudo é uma refinada impostura. Ainda honte o Anastácio, que tem muito bom coração me disse: ai! Minha Gertrudinhas, aquela Custódia, santo nome de Deus, é um grande camafeu.

Ó sua desavergonhada, impostora é ela, o Anastácio que tem muito bom coração está perdidinho de amores mas é por mim....

Mente, mente! Sua insoneira.

Você é uma judia! Apostrofou Gertrudes.

(Ralham as comadres descobrem-se as verdades).

Olhe sua sonsinha, você nem merece a confiança de seus amos...

Cale-se! Olhe que a esgano.

Hei-de falar, hei-de falar, hei-de falar. O que é feito daquelas chouriças que deu ao Anastácio naquela noite em que foi ter com você pelas traseiras do quintal, quando lhe abriste o postigo da cozinha, que deita para as adegas?...

E você, e você seu diabo? Olha quem fala! Que santinha! Julgas que não sei dos lençóis que furtaste da arca da menina Beatriz para dar ao Eusébio com umas farripas das tuas guedelhas?

Julga que não sei, seu mostrengo, dos três alqueires e meio de trigo durázio, que pediste emprestados à tia Josefa... como ganhaste aqueles tamancos tachados de preguinho amarelo que te deu o sr. Felismino da loja na noite da escamisada de minha comadre...

Grandessíssima estúpida!

Com mil diabos que a desanco...

Olhe que a piso a pés...

Atreve-te!...

E nisto... zás... zás... e zás.

Custódia tinha-se engalinhado em Gertrudes e assentara-lhe três murros no topete.

A morenita puxou de um majestoso alfinete, que a título de apartar enterrava conscienciosamente e a miúdo no dorso das duas combatentes.

Irra! Senhora do Socorro! Valei-me! Você tem unhas de gato!

Nestas alturas apareceu o Anastácio de bom coração, que vinha sossegadamente dar de beber a um pequeno jerico mesmo sem licença dos leitores (3).

Trazia o braço esquerdo enfiado na arriata e o direito cingia donairosamente uma gentil mocetona, que vinha com a sua sachola ao ombro assim com ares de quem se vai sachar a sua leira de batatas.

Vinha-lhe esta dizendo:

Não gingue comigo: olhe que eu não sou para brincadeiras.

Anastácio de bom coração ia a responder, quando deu com os olhos na cena de cachações que se jogavam junto à fonte.

Teve vontade de fugir pois o seu bom coração fez-lhe conhecer com um hórrido solavanco a causa de todo aquele chinfrim.

"Oh! Tenhão dó de mê povre coraçom não me queiram desvragar, velhas moxas!"

(Não se podia ser bruto sem licença dele).

Por uma reviravolta súbita todos os ódios se voltaram contra o pérfido causador destas calamidades.

Possuídas do mesmo pensamento Gertrudes, Custódia e a morenita formaram pelotões cerrados e correram a passo de carga sobre o mísero Anastácio.

Foi terrível o choque!

As massas abalroando produziram um zurro prolongadíssimo e dorido, que o pobre asino soltou no meio da universal confusão.

Este zurro falou ao coração das impávidas amazonas e clamou-lhes vingança.

Coragem! Tartamudeou a morenita trilhada pelo jovem asino no seu calo nº 2 terceira edição.

A mocetona, que até ali tinha permanecido imóvel, brandiu duas vezes a sachola por cima da cabeça e pôs tudo em desbarato.

A morenita apesar das suas novas edições fez vispora, proclamando o solene salve-se quem puder.

Gertrudes galgou sobre um telheiro e desapareceu sem olhar para trás.

Anastácio salvou-se trotando em direcção à estrebaria, deixando o peitilho da camisa no lugar do combate.

A intrépida Custódia passou igualmente as palhetas e deu às de Vila Diogo.

Ficara Maria senhora do campo de batalha.

Contemplou com ar triunfante o palco deserto daquela cena, e repetiu meneando a cabeça pondo a sachola ao ombro: - Nunca fui pra brincadeiras.

E lá se foi sachar a sua leira de batatas.

Quanto pode o gume de um sacho! Pondera nestas alturas o folhetinista.

Esta heroína não se chamava Brites de Almeida, mas nem por isso deve deixar de ficar selada no panteão das fêmeas ilustres.

Mafra - Setembro 1866

 

NOTAS

(1) O lugar das hortas, situado a pequena distância da vila de Mafra, é um dos mais amenos e deleitosos da Real Tapada. É famoso pelas férteis hortas e úberos pomares que há para estas bandas, e sobretudo por uma água boníssima, de que utilizam os habitantes da vila.

(2) Esta imagem não é minha. Apanhei-a a dente num soirée musical a um felicíssimo génio, que provavelmente já a tinha caçado a outro génio felicíssimo. O seu a cujo é.

(3) O autor deste folhetim (não está mais na sua mão) é naturalmente espirituoso (Nota do autor).