Alberto Pimentel - A Tapada Real


In Sem Passar a Fronteira, Lisboa, 1902, p. 108-114

Alberto Pimentel

 

Outro escritor inglês, Thackeray, refere-se, num dos seus livros, à etiqueta seguida na tapada de Mafra quando aqui vinha caçar o marido da rainha Dona Maria II.

Vai isto há tão pouco tempo, que muito novo será quem puder dizer que não se lembra de ter visto el-rei Dom Fernando de Saxe Coburgo Gotha, alto, quase esguio, de pêra e bigode, cabelos negros e anelados, um alemão que o não parecia, porque nem era louro, nem branco, nem rosado, nem gordo.

O príncipe consorte, como lhe chamavam os documentos oficiais, interessando-se pouco pelos negócios públicos, porque era esse o seu dever e o seu temperamento, repartia o tempo entre a cultura das belas-artes, o bric-à-brac, o teatro de São Carlos, o castelo da Pena, que foi um produto da sua fantasia de artista, e a equitação, as caçadas e o amor clandestino, que o obrigava a certas cautelas, porque a rainha Dona Maria II, conquanto fosse depositária do cofre das graças, não era para graças em coisa nenhuma - especialmente no ciúme.

Todo o príncipe tem a obrigação de saber caçar, embora com mais aparato do que perícia. É uma tradição realenga, que vem, entre nós, do tempo de Dom Afonso Henriques, o qual mandou construir no Louriçal uma torre para aí se recolher quando monteava naquela região. O país não estava ainda arroteado, de modo que a caça brava era abundantíssima por toda a parte. Havia ainda o urso, o usso como então se dizia, cuja carne os caçadores saboreavam com prazer.

Dom Dinis esteve para ser vítima de um urso em Beja.

Este rei foi dos que mais se dedicaram à caça; até no seu testamento se ocupa de assuntos venatórios.

Afonso IV tanto se afervorou no prazer da caça, que lhe advieram daí censuras e desgostos.

Dom Pedro I foi grandemente inclinado a este exercício, no que o imitou o filho, Dom Fernando, o Formoso, que, segundo a expressão de Fernão Lopes, era muito caçador e monteiro.

No princípio da monarquia as caçadas podiam dizer-se combates perigosos, que requeriam muita segurança no ataque, principalmente na defesa; os hábitos e costumes da corte, ainda rudes e fragoeiros, não tinham recebido o verniz da pragmática, que foi a mãe do palacianismo requintado.

Mas, no decorrer dos séculos, as caçadas reais perderam a sua primitiva aspereza, converteram-se em passatempos inofensivos, e a etiqueta da corte autorizou o princípio de que mais valia deixar escapar-se uma lebre do que ter um rei de atirar-lhe sem as devidas cerimónias.

A este facto alude Thackeray com a sua habitual ironia, escrevendo, segundo a tradução de Fernandes Costa:

"Houve alguém que me disse que, num reino onde o marido da rainha é de origem germânica, - deve ser em Portugal, porque a rainha desse país casou com um príncipe alemão, que conquistou a estima e a admiração dos naturais do reino - contaram-me, repito, que todas as vezes que o real esposo se entrega ao prazer da caça na mata de Sintra ou nas reservas de faisões de Mafra, vai

acompanhado por um criado que lhe carrega a espingarda, como naturalmente deve ser, mas que esse guarda a apresenta em seguida a um fidalgo, oficial às ordens do príncipe, e que esse fidalgo a entrega então ao mesmo príncipe, o qual depois de haver atirado, restitui a espingarda descarregada ao fidalgo, que a passa em seguida ao guarda, e sempre da mesma forma; mas nunca o príncipe pegará na espingarda das mãos daquele que a carrega. Tanto tempo quanto for aquele em que se deixem substituir estas incríveis monstruosidades da etiqueta, tanto será o tempo em que há-de haver snobs, porque as três pessoas que desempenham cada uma o seu papel na cena que acabamos de contar, são, diga-se o que se disser, snobs".

El-Rei Dom Pedro V, respeitador das fórmulas constitucionais, se bem que propenso por índole a um absolutismo temperado de bondade e melancolia, querendo seguir a esteira democrática do avô aboliu o beija-mão.

À força de vontade e cuidado, procurou regular os seus hábitos democráticos de modo a tornar-se popular, o que em verdade conseguiu, especialmente depois das epidemias. Sendo bom caçador, alterou de facto a pragmática das caçadas, e o snobismo, a que se refere Thackeray, desapareceu.

El-rei Dom Luís, caçador habilíssimo, seguiu o exemplo de seu irmão. A verdadeira paixão venatória não consentiria a nenhum caçador ter de esperar pela espingarda para atirar a uma peça de caça. E aquele bondoso rei era caçador de aficion. Tanto zelava a integridade das suas regalias cinegéticas, que raríssimas vezes concedeu autorização a um estranho para caçar nas Tapadas da Coroa. Uma dessas autorizações honrou a pessoa do marquês Oldoini, ministro de Itália em Portugal. Não sabemos de qual diplomata, que obteve concessão idêntica, se conta em Mafra o seguinte:

O carregador, indicando-lhe uma peça de caça, passava-lhe a espingarda. O diplomata punha a luneta, pegava na arma e, quando ia a metê-la à cara, dizia-lhe o carregador:

- Já lá vai!

Muito gravemente, o diplomata exclamava:

- Foi o que lhe valeu!

El-rei Dom Carlos, actual soberano, tendo levado a democratização da Coroa ainda mais longe que os seus imediatos antecessores, e sendo um cultor apaixonado de todos os géneros de sport, especialmente da cinegética e da halieutica, caça com o entrain de um verdadeiro caçador, que não desaproveita um momento nem uma peça para os sacrificar a coisa nenhuma, especialmente à etiqueta.

O director das caçadas reais em Mafra é o sr. Hemetério de Barros e Vasconcelos, atirador perito.

Ele e seu irmão Eduardo de Barros e Vasconcelos são caçadores ao serviço efectivo da Casa Real.

El-rei, que possui a memória feliz de todos os Braganças, sabe o nome dos caçadores e até o dos cães que eles costumam trazer às caçadas.

Mais ainda, lembra-se do pedigree de cada cão, sendo frequente ouvir-lhe dizer, por exemplo:

- A tua cadela, ó Bento Lopes, não chega aos calcanhares da mãe.

Um dos caçadores auxiliares, o Zé Quintas, da Murgeira, certo nas caçadas de Mafra, tem um estribilho grosseiro para anunciar cada peça de caça.

As caçadas de caça miúda realizam-se na 1ª Tapada.

Disposta a linha dos atiradores, El-rei, colocado ao meio da linha, é seguido por dois carregadores e mais três homens que conduzem os cartuchos de chumbo e bala.

Esses dois carregadores alternam-se no serviço de carregar as espingardas de El-rei, armas de calibre 16; uma que El-rei dispara, outra que, entretanto, lhe preparam.

Na 2ª Tapada e na 3ª abunda a caça grossa, mas o terreno da 2ª é mais grato aos caçadores.

Para este último género de caçadas, costuma El-rei ir de carruagem até ao Celebredo, sítio magnífico para espera.

Sua majestade apeia-se aí. Os caçadores, de antemão dispostos em círculo, vêm apertando o cordão, batendo a caça, logo que El-rei chega. O senhor Dom Carlos espera nos azerves a passagem dos veados. Não atira às gamas e não gosta que os outros caçadores lhes atirem.

Quem percorre a tapada em carruagem, o que é permitido a todos os visitantes, pode por seus próprios olhos certificar-se da grande cópia de veados que ali há; muitas vezes acontece irem correndo em ar de folia adiante dos trens ou saltarem de um para outro lado da carreteira, por susto ou folgança. Fora da Tapada, quem desde em carruagem pela linda estrada que de Mafra conduz ao Gradil, vê dezenas de cervos empoleirados sobre os rochedos, como a espreitar curiosos o que se passa extramuros.

Ultimamente vieram de algures para Mafra nove porcos monteses, para aclimatação e reprodução. O javali é por enquanto novidade em Mafra: um casal está isolado em pocilga, a pequena distância do real edifício.

Antes de sair para a tapada ou no regresso costuma El-rei subir aos terraços do convento para atirar aos pombos, que ali fazem criação nos respiradouros das sentinas. O sinal de alarme é dado por um chocalho, que vibra dentro dos pombais e faz sair os pombos alvoroçados.

Os que morrem, e são muitos, abastecem nos dias seguintes o rancho dos sargentos da Escola Prática de Infantaria.

Estas caçadas tornam-se necessárias para a conservação das cearas, cujos proprietários costumam repelir os pombos a tiro.

Ainda há pouco me disse alguém ter encontrado perto da Ericeira, isto é, a 13 quilómetros de distância, um grande bando de pombos, que regressavam a Mafra com o papo cheio.

Pareciam sindicateiros!

Setembro de 1899