Alberto Pimentel - De Mafra aos Coríntios


De Mafra aos Coríntios

(Revista da Semana)

Folhetim do Diário Popular de 1897 (in A Voz de Mafra, 12, 19, 26 Mar. e 2 Abr. 1916)

Alberto Pimentel

 

O meu despertador acaba de acordar-me. São cinco horas da manhã.

Há dez dias que um enorme bando de pardais, moradores na frondosa acácia que defronta com a janela do meu quarto, se encarrega de despertar-me, com a sua alegre chilreada, ao nascer do sol.

Não me incomodam nada, absolutamente nada, estes folgazãos vizinhos, que não dizem mal de ninguém e parecem dizer bem de Deus ao romper da manhã e ao declinar da tarde.

O provérbio: «Se fores a Roma sê romano», dir-se-ia feito exclusivamente para meu uso. Não fui nunca um revoltado; acomodo-me facilmente às circunstâncias em que me encontro, ao trabalho ou à ociosidade, ao bulício ou à solidão e não sei se diga também, porque suponho que é verdade, à abundância e à parcimónia.

Tenho disso provas seguras que me permitem estabelecer definitivamente a minha psicologia.

A vizinhança de uma pardalada revolta, que não pede licença a ninguém para fazer barulho, pode talvez horrorizar à distância o leitor alfacinha, habituado a não ver amanhecer senão nas óperas que em São Carlos metem aurora.

A mim, pelo contrário, agrada-me esta vizinhança alegre, cuja vida observo de perto com vivo interesse. Creio que em Lisboa também há pardais... de chapéu alto. Mas os autênticos, que esvoaçam e chilreiam, moradores numa árvore de que não pagam renda, só agora os tenho tido por vizinhos e acho-os preferíveis ao piano lisboeta, que nos acorda com a marcha de Cadiz às 9 horas da manhã.

Ontem ao fim da tarde viu-os recolher a casa, quero dizer à sua acácia frondosa, em grupos de cinco ou seis. Vinham de "governar a vida" nas searas dos lavradores, que são a mesa do orçamento dos pardais. Voltavam alegres, cumprimentando-se uns aos outros com expansiva satisfação. Folgaram juntos, saltitando de ramo em ramo. Pareciam dizer cantando: "Boa noite, boa noite". Daí a pouco o sol desaparecia e os pardais adormeceram.

Quem tivera vizinhos destes em Lisboa!

Agora, ao romper da manhã, primeiro que eu ouvisse o toque da alvorada na Escola Prática de Infantaria, os ouvi a eles, que me diziam cantando do alto da sua copada acácia: «Bom dia, bom dia».

Ainda não houve neste mundo despertador mais amável.

E logo que eu abri a janela e mergulhei a cabeça no ar picante da madrugada, os pardais, convencidos de que tinham prestado um serviço de boa vizinhança, partiram, para a sua vida, também aos grupos de cinco ou seis, em direcção às searas, onde me parece que foram almoçar.

Bom apetite, vizinhos. E contudo a acácia frondosa, muito empenachada de plumas verdes, subindo sobre os telhados, parece-me uma casa deserta, chega a fazer-me tristeza.

Mas olhem lá... que diacho virá fazer este pardal desgarrado, que suspendendo o voo em frente da acácia, como se mostra surpreendido de já não encontrar os outros.

Ah! É talvez uma visita que vem da Tapada Real.

Aproveito a ocasião de ser amável por minha vez, e grito para cima:

- Os senhores não estão em casa.

O pardalito canta e eu julgo entender que ele me diz:

- Saíram há muito?

Respondo imediatamente, sentindo não o poder fazer por música:

- Há meia hora talvez.

Nova pergunta do pardal:

- Para onde foram, sabe?

Felizmente estou habituado a dar uma informação segura:

- Na direcção de nordeste.

E o pardal, muito ingénuo:

- Ah! Já sei! É uma boa seara. Agradecido.

- Não tem de quê.

Foram-se os pardais por algumas horas e não tardaram a chegar, as vespas, que nunca as vi em tamanho número como nesta nobre vila de Mafra.

Nos primeiros dias estranhei, mas já vou estando habituado às vespas, tanto é certo que facilmente me faço romano em qualquer Roma.

E, aproveitando as circunstâncias, tenho reparado na estrutura da vespa, que é inquestionavelmente um animal elegante, de um primoroso desenho de formas, bonito até, embora possa morder a gente, o que aliás nos acontece às vezes com outra espécie de animais bonitos...

A locução - cintura de vespa - não é uma falsidade semelhante, por exemplo, ao canto do cisne moribundo. Tem propriedade e verdade. A vespa parece, realmente, ter nascido para dançar a valsa com quaisquer animais do mesmo tamanho, sendo facilmente cingida pela cintura. Anda sempre espartilhada, e o seu vestido, brilhante de reflexos de ouro, faz lembrar o de uma princesa, que, nascendo na opulência, é tão animada, que só gosta de coisas doces...

- Mas qual será o chamariz de tantas vespas? Tenho perguntado eu desde que estou em Mafra.

- São as uvas.

Ah! São as uvas, porque têm açúcar. E, com efeito, sobre os cachos pendentes das latadas esvoaçam, zumbindo, numerosos enxames de vespas, que fazendo lembrar um rancho de princesas a saborear golos de creme em pequeninas taças de nácar.

Salomão disse coisas muito bonitas à Sulamita, mas esqueceu-lhe uma: se lhe tem dito que todas as vespas deveriam querer mordê-la, haver-lhe-ia chamado a mais doce das criaturas.

Eu bem sei que muita gente só vê na vespa o himenóptero que nos pode ferir, causando-nos uma dor aguda; que se chama vespa a uma pessoa de génio intratável; e que na antiguidade houve o terrível suplício de untar com mel o corpo de alguns padecentes; a fim de que as vespas os procurassem e mordessem, donde proveio a locução - me melem - para autorizar uma afirmação que se faz sem receio de ser punido ou desmentido.

Mas não procuremos apenas os defeitos de certas qualidades. Tudo tem compensações neste mundo e o querer encontrá-las é meio caminho andado

para sermos quanto possível felizes. É certo que a vespa nos pode dar uma ferroada - quem é que não a dá? - mas, em compensação, deu-nos algumas frases que enriquecem o nosso vocabulário:

Cintura de vespa;

Parece uma vespa;

Me melem se eu...

Há muita gente que nos morde mais e não nos deu ainda coisa nenhuma.

Que não nos dêem, mas que ao menos não nos tirem nada: tal é a minha filosofia e a daquela velha de que se conta uma lenda, que eu julgo receber da tradição oral em primeira mão.

Na segunda Tapada, sobre uma colina, vêem-se ainda hoje as paredes arruinadas de um antigo prédio; É o Casal do Abade. Por que se chama assim, não sei, nem aqui o dizem. Mas as lendas são sempre mais atraentes quando envolvem um poucachinho de mistério.

Nesse casal vivia em tempo de D. João V uma velha. Seria a ama canónica do abade que lhe sobrevivesse e dele herdasse um farto pé de meia.

Estava ela muito bem descansada no seu casal, ao qual a prendiam decerto recordações agradáveis da época em que o abade florescera na robustez da juventude.

Mas el-rei, a troco de ter sucessão, fizera voto de mandar edificar um grande mosteiro com muitas terras ao redor.

Vê-lo ali, o mosteiro colossal, que pôde resistir ao grande terramoto do século passado.

Essas terras tinham dono e era preciso adquiri-las por meio de transacção amigável ou expropriação forçada.

Um dia el-rei D. João V foi pessoalmente ao Casal do Abade com o propósito de entrar em ajuste acerca da compra.

A velha fartou-se de dizer "real senhor, real senhor", como quem quer doirar a pílula, mas não havia forma de a convencer a alienar o casal.

Tudo eram mesuras, gestos e amabilidade, palavras doces "meu senhor, meu senhor", mas queria muito ao seu casal para vendê-lo a quem quer que fosse ainda mesmo sendo o rei.

O senhor D. João V não era homem que recuasse em questões de dinheiro.

Achava barato o que aos outros parecia caro: o carrilhão de Mafra, por exemplo Portanto, deixando-se ir ao sabor do seu génio magnânimo, disse à velha por último:

- Vende-me o casal, que eu dou-te um barrete cheio de peças.

A velha olhou muito humilde para o rei e com um sorriso, que parecia tecido de ironia e doçura, respondeu curvando a cabeça:

- Pois, meu senhor, para que vossa majestade me não queira tomar o casal, sou eu capaz de lhe dar... dois barretes cheios de peças.

Não diz a tradição como o caso vejo a liquidar-se: certamente seria por expropriação violenta, tão violenta que alguns proprietários apenas foram indemnizados 30 anos depois.

Mas naquele dia el-rei, D. João V o Magnânimo ficou de cara à banda, porque uma velha lhe resistiu, quando as novas não ousavam fazê-lo.

São sete horas da manhã. Um raio de sol bem claro cai sobre a minha janela, pondo uma poeirazinha de ouro no meu tinteiro de cristal. Como no coche doirado chegou nesse raio de sol a primeira vespa que hoje me visita.

Pensam talvez, que vou persegui-la para que me não morda? Qual?

Vou admirar-lhe mais uma vez a cintura.